sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O meu peixinho vermelho



Tive um peixinho,
um peixinho vermelho,
E quis-lo ensinar.

O que posso ensinar ao meu peixinho?
Ele já sabe nadar...

Tive um peixinho vermelho,
que nadava sem parar.
E quis-lo ensinar.

O que posso ensinar ao meu peixinho?
Já é dele todo o mar...

Tive um peixinho vermelho,
que fui buscar ao mar,
nadava sem parar.
E quis-lo ensinar.

O que posso ensinar ao meu peixinho?
Pensei ensiná-lo a respirar...

E todos os dias lhe tirava um dedal de água.
Era vermelho o meu peixinho,
nadava sem parar,
fui-o buscar ao fundo do mar.
Pensei ensiná-lo a respirar.

Tive um peixinho vermelho,
que quase aprendeu a respirar.
Morreu quando lhe faltava só um tiquinho,
um tiquinho de água para vazar.

Pus-me a pensar,
Afinal não havia nada,
nada que eu lhe pudesse ensinar...


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Salvem as nossas almas




-Não vou!
Cruzou os braços e ficou.
-Não vou!- num grito quase chorado.
Em pé no meio do caos.
Sozinha contra as ondas do mar.
De nariz empinado para os gigantes que a queriam derrubar.

Coitadinha dela.
Como não vai?
Não tem ordem de escolher nada na vida.
Se lhe disserem, vai, ela vai.
Se lhe disserem, fica, ela fica.
Ninguém está interessado na opinião dela.
Nem tem direito de opinar.

Mas diz que não vai.
E cruza os braços num grito quase chorado.

Não chores, querida. Não chores.
Está tudo bem.

-Não vou!
Enquanto a arrastam pelos braços.
-Não vou!
E a agulha rasga de novo a veia encolhida.

Não chores, querida.
Larguem-na, disse que não ia!

Não acreditam em vozes, nem em fantasmas.
Seguem.

Desculpa.
Só desculpa.
-Não choro. Não estejas triste. Já vai passar.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Lindas cabecinhas vazias


Porque é que nunca ri como elas?
Em quantos anos pequenos se gastaram os meus 14, 15 anos?

Entram aos magotes pela camioneta dentro.
Os seus comentários são alegres.
As suas gargalhadas cristalinas.
Acham graça a tudo...

Tão alegres!
Como podem ser tão alegres?
Porque é que nunca senti essa alegria?
Porquê?

Tive a mesma idade que têm.
Vesti as mesmas roupas que vestem.
Ouvi as mesmas músicas da moda.
Namorei, passeei, cantei.
E talvez quem me visse de longe me confundisse.
Talvez me achasse uma menina comum.

E elas?
Tão leves, tão fúteis, tão simples…

Olho o grupo mais próximo em busca de alguém diferente,
Alguém mais igual ao eu de outros tempos.
Ninguém.
É um cardume perfeito de sardinhas parecidas.

Mas estão certas elas.
Errada estive eu.
O erro foi meu.
Como são bonitas!
Lindas cabecinhas vazias…


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Como seria....


De vez em quando a Liliana via como poderia ter sido a sua filha.
Não é que tivesse morrido,a filha das suas entranhas.
Não estava morta, mas era como se não estivesse viva.

A Liliana conseguia vê-la nas moças que passavam.
Conseguia ver como ela deveria ter sido, se tudo tivesse corrido bem.
E não é que correr bem, fosse algo tão inatingível...
Mas não, não tinha corrido nada bem.

Sempre que passava uma jovem loira, de olhos verdes, pele rosada, a Liliana imaginava.
Meio gordinha, não muito alta, não muito pequenina.
Que linda seria!...

E a cada homem que guloso olhava aquela que teria sido a sua filha, uma lágrima escorria.
Nunca namoraria, nunca beijaria...
Espreitava por uma janela que nunca se abriria.

A Liliana perseguia com o olhar as jovens que estouvadas riam.
Fantasiava que era ela, como ela riria.

Antes de o galo cantar, o negarás três vezes.
E ela negara.
Ela repetira.
Com que direito chorava?

Não fora sua a mão que ferira,
Mas ela colocara o sal na ferida.
Maldita a Liliana!
Mil vezes maldita!

As lágrimas de sangue da profecia...
Imaginava que sabia agora como seriam,
Imaginava o gosto a que sabiam.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

A lenda dos meninos perdidos



No canto da sala, duas crianças pequenas olhavam.
Olhavam os pais que enlouquecidos gritavam.
Era suposto serem aquelas as criaturas que mais as deviam amar no mundo,
Eram para ser pessoas sábias, maduras, inspiradoras…
Como possuídos esgrimiam insultos, e berros uivados.
Esquecidos das meninas que aterrorizadas se davam as mãos, encolhidas.

Cresceram assim,
Viciadas no drama e no medo.
Pobres pequeninas de mãos dadas num mundo que não percebiam.

Outros seres enlouquecidos vieram.
Outros que supostamente as deveriam amar, e proteger, e cuidar.
Mas eram lobos famintos, e sedentos,
E elas não os sabiam distinguir.

Tinham-se acostumado ao desvario, e à aberração,
Não tinham como avaliar.
Nem sabiam que existia diferente.

Porque tinham sempre medo,
Sorriam sempre.
Na esperança que os seus sorrisos aplacassem a ira das criaturas das trevas.
Pobres delas…
Eram os seus sorrisos que as perdiam, que os atraíam.

Parem seus pais loucos!
Parem de fabricar crianças infelizes!
Como se atrevem?
O que vai ser feito desses pequeninos um dia?
Não tenham filhos se não for para lhes dar amor,
Para os criar com carinho.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Bela porcaria



- Já te disse! Responde-me!
E ela encolhia-se perante uma ira que não conseguia aplacar.
- Quem te fez mal? O que se passou?
Como explicar?
Ninguém lhe tinha feito mal.
Ou se sim, era um mal tão antigo que não lembrava mais.
Talvez ainda no outro lado do tempo.
O que se tinha passado?
Sabia lá.
Era assim.
Porque é que ninguém a aceitava assim?
Queriam saber sempre porquê, porque não.
- Vamos! Então?
Então nada.
Permanecia calada.
Dos outros tudo acatava,
Recebia-os tal como vinham.
Nunca forçava ninguém a ser o que não era.
Com ela…
Pois, está bem.
- Eu vou. Não tenho paciência.
Tudo porque ela chorara…
Também, porque chorara?
Devia saber.
Lágrimas angustiam quem as vê.
Chorara.
Porque chorara?
Era assim.
Ela era assim.
Deixa-o ir.
Para que o havia de querer,
Se nem chorar podia?
Todos iguais.
Bela porcaria.


segunda-feira, 22 de maio de 2017

As Mulheres são lindas!!....



As mulheres estão muito mais bonitas.
Andam com uma elegância descomprometida, olham de frente para os desafios da vida.
Usam roupas de que gostam, e não roupas de figurino.
Têm cabeleiras coloridas, curtas, compridas.
Riem, falam alto, contam anedotas.
Divertem-se.
Tomam a iniciativa, ousam, dão todos os passos em frente.
Têm unhas de gata pintada, ou unhas curtas sem nada.
Não esperam, abrem os seus caminhos.
São independentes e aventureiras.
Tratam os homens como seus iguais.
Valorizam-se, e não temem as demais.
As mulheres estão tão bonitas!
Nestes dias que vivemos,
É  bom ser  mulher no meio das mulheres.