sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 29 de abril de 2017

Sardinhas Portuguesas



Era ao meio da tarde, tarde de quase Verão.
Tudo estava vermelho e ruivo, labaredas e fogo.
A montra escarlate reluzia, e chispava centelhas acobreadas de encontro aos olhos dos passantes.
Sardinhas portuguesas!
Última grande moda, muito gabada e por todos apreciada. Até por aqueles que dantes franziam o nariz à menção das sardinhas- comida de pobre, como eram conhecidas.

Ela encostou-se ao vidro, provocante, vermelha e bela.
Cores rubis desprendiam-se dela, faziam parte dela.
O vestido era colorido, daqueles que eu nunca compraria para mim, mas que adoro ver nas outras. Solto e leve, voava na brisa quente.
Por detrás da moça bonita, as sardinhas encantavam nas suas latas berrantes e garridas.
À frente da musa em chamas, um rapaz afadigava-se de máquina em punho. Inconsciente de que tinha á frente uma coisa tão linda, tão quente.
Ela sorria, e com ela ria todo o mundo.
Até as sardinhas enlatadas se aconchegavam melhor nas latas pintadas.

Eu andava à procura de inspiração.
“Ver de dia, para escrever de noite.”- e assim fazia.
Não podia ter encontrado melhor!
A mulher ruiva linda,
A montra rubra,
E as sardinhas.
Sardinhas Portuguesas!

E viva quem tem boas ideias, quem faz com coisas velhas, coisas certeiras.
Viva quem transmuta as ideias feias.
Abençoada seja a moda das fotografias que conjuga mulheres e sardinhas,
Bonitas, gordinhas, picantes, pequeninas.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Amor é...



Não ralhem, não gritem!
Lembrem-se de quando eram felizes.

Um casal já avançado na idade discutia acaloradamente, no meio da rua. Não cheguei a perceber de que se tratava, mas ele abanava energicamente a cabeça, sacudia as mãos e resmungava. Ela, gritava e vociferava.
Pus-me a pensar: Já foram jovens um dia. Namoraram, sorriram, sonharam… Como chegaram ao ponto triste de estarem assim, de costas viradas um para o outro? O que fizeram dos bancos de jardim, o que fizeram dos cinemas ao fim da tarde? Para aonde foi tudo?

Não somos diferentes desse casal, eu e os que passavam, olhavam e reprovavam num encolher de ombros. Também nós tantas vezes esquecemos. Esquecemos do que somos, do que fomos, do que queríamos ter vindo a ser.
Fazemos vida de gente crescida, e guardamos o amor na sacola. Junto com ele as ilusões, a inocência e a fantasia. Ficamos a sós com a realidade que é feia, cinzenta, no melhor dos casos. E quando damos por nós, estamos assim, a discutir no meio da rua. Quase a morder de raiva alguém que já nos foi tudo.

Porquê?
Se soubéssemos que ia ser assim, se soubéssemos que íamos ser assim…

Os nossos pais ralhavam, gritavam, mas eram de outro tempo. Eram eles. Cheios de defeitos aos nossos olhos de adolescentes. Não sabiam nada. Nós não! Nós íamos mudar o mundo. Ser diferentes. Íamos, mas não mudámos nada, a não ser os nomes e as caras.

Hoje são os nossos filhos que criticam, e supõem facilidades num universo que nunca existiu a não ser na cabeça da gente nova, nas cabeças vazias. Mas vai chegar a vez deles, também um dia. E vão estar no lugar daquele casal de idade avançada, que gritam e ralham no meio da rua. E vão-nos desculpar um pouco mais, a cada nova discussão. Pena que já cá não estaremos, assim como não estão aqueles a quem hoje pedimos perdão.

E o mundo vai girar como um carrossel ensandecido, e os casais vão continuar a discutir sem sentido. O amor, esse, achado e perdido, num departamento escondido.
Tanto sonho, tanto plano, tanto tudo, assim perdido.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Um porta moedas do tamanho do mundo



-Precisas de dinheiro?
E remexia nas moedas do velho porta moedas, com um sorriso inocente, na alegria genuína de ter. Era bem velhinho. Usava uma boina tão gasta!... Tinha cabelos brancos como farinha de fazer bolos.
A mulher que estava com ele era bem mais nova. Filha, ou neta talvez…
-Não, obrigada. Tenho que chegue.
-Vê lá! Tu vê lá…
E entreabria de novo o porta moedas. Feliz, com um sorriso bondoso na boca quase sem dentes.
Quanto teria ele na sua carteira? De quanto seria a sua reforma? Poderia de facto oferecer assim, generosamente?
Pensei nos velhinhos do nosso país que se arrastam em dias de fome, e de magreza, contando tostões, poupando o que mal chega para comer.
E pensei também na alegria que sentem quando podem oferecer a uma filha, a uma neta.
Às vezes oferecem tostões, porque de tostões é feita toda a sua fortuna.
E em silêncio enderecei uma prece de agradecimento àquela mulher ainda nova, que disse que não com um sorriso amigo.
Ele contente fechou o porta moedas.
A camioneta estava a chegar, e lá foram os dois.
O velhinho de cabelos brancos como farinha de fazer bolos, e a mulher ainda nova. Filha, ou neta talvez…
O maior tesouro é esse, termos alguém que nos oferece sem nada ter, sabermos dizer que não, sem ofender.
E entre amor e sorrisos, continuarmos a viver.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Filha de pai velho



Sou filha de pai velho.
Nunca conheci o meu pai novo.
Creio mesmo que ele ficou idoso, antes de envelhecer.

Na escola, as outras crianças pensavam que era meu avô,
E eu que nunca tive avós,
Mortos todos bem antes de eu nascer,
Achava graça a essas parecenças.

Sempre me lembro dele com um andar cansado.
Cabelos que seriam grisalhos.
Gostava de contar histórias antigas, e crónicas de família…

O que ele sabia!
Tanta coisa que o meu pai sabia!

Eu apareci quando ele já ensaiava uma velhice que julgava tranquila.
E nunca mais saí da sua vida.
Dava-me a mão para atravessar a estrada, até mesmo depois de eu já usar salto alto, e saia travada.
Acho que me segurava para ele mesmo não se perder.

Via-me ainda menina de colo, e já eu namorava os rapazes, descarada.
E contava-me filmes de terror, nas nossas noites de caverna e bolor.

E as bebidas frescas, com nome que lembrava a nossa terra negra!...
Terra de nós dois.
E as batatas fritas, amendoins e cajus…
E o que andávamos depois!...

Meu papá de fato e gravata,
E cara bem barbeada.

Meu pai que nunca foi novo.
Que me ensinava inglês, e francês.
Paizinho,
Vem passear comigo outra vez…
Prometo que ando devagarinho.
Prometo que falo baixinho.
Preciso que me ensines tantos porquês.


domingo, 23 de abril de 2017

Contaram-me todas as coisas



Já alguma vez se sentiram assim,
Tristes, tão tristes?

Já alguma vez quiseram fechar os olhos e apenas desaparecer?
Já?...

Eu sim.
Muitas vezes.

Nalguns dias da vida nem o sol parece ser um convite.
Nem o calor da rua aquece os membros gelados.

E lá vem a cantiga lamecha de sempre…
Faz tanta falta ter aonde encostar a cabeça.
Alguém que não cobre,
Que não peça.
Que não queira nada.

Mais triste ainda é saber que não é assim.
Não existe ninguém que se possa sobrepor a mim.

E a certeza de que as ilusões eram apenas isso, ilusões
Aumenta a solidão, e salga a tristeza.

Saber é como por sal numa ferida.

Dantes pelo menos acreditava fantasias,
E príncipes encantados,
E castelos dourados.

Agora…
Agora só estou triste.

O poeta disse “Porque contam coisas às criancinhas?”
Eu, na minha pequenez tacanha de alguém que viveu a sonhar, digo

Porque não contam todas as coisas às criancinhas?
Mas a mim contaram-me…
Todas elas.
Eu é que nunca quis ouvir.

Mea culpa.

Estou triste.
Tão triste.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Vêm os bêbados todos para a rua



Dez da noite, e as tabernas fecham.
Vêm os bêbados todos para a rua.

Dez da noite, e em muitas casas há fechaduras que giram.
Pés que se atrapalham num não conseguir caminhar.
Braços que pesam toneladas, que não se conseguem cruzar.

Dez da noite, e os móveis soltos vão de rojo,
Porque o vinho é cego,
E os ébrios são toscos.

Dez da noite, e os bêbados todos na rua.

Nos meus pesadelos pés caminham descalços,
Por cima de cacos de vidro e canecas partidas.
As corujas piam numa estrada aonde já não existem pirilampos,
Nem caracóis.
E o relógio bate tristemente as badaladas da falta de luar,
Da falta de aconchego,
De tanta coisa feia, escura.

Dez da noite, e os anos rolam sempre iguais,
E os taberneiros, esses são velhas putas pontuais.

Os golos de vinho queimam as gargantas,
E matam as vontades.
E as lágrimas que rolam não são de sal,
Mas de álcool etílico que tresanda.

Olhos espreitam nos quintais, olhos espreitam nas varandas.
Vem, não vem…
Virá, não virá…

Bêbados, bêbados na rua.
Tantos!
E os sonhos descem aos tombos, de braço dado com o vomitado,
De pernas abertas na calçada.
A calçada é uma dama nua.

Pena!
Tanta pena do que vejo!...
Fecham as tabernas,
Acaba o desejo.
Fecha-se o tempo na dobra da lua.


Ser feliz primeiro



Ainda não.
Eu quero ser feliz primeiro.

Sem cenas, nem noites mal dormidas.
Nem caras feias.
Detesto caras feias.

Quero que todos os dias sejam de festa.
Que as manhãs sejam aventuras,
E as tardes, verdadeiras descobertas.

A vida é curta demais para perder tempo,
A fazer coisas que não sabem bem.

Quero sair.
Ver a rua.
Ouvir pessoas.
Beber café.
Dourar ao sol.
Sonhar em frente às montras.
Almoçar com amigos.
Conversar até doer a boca de tanto falar.

Descobrir praias,
Cidades, vilas e aldeias,
Espreitar no alto das montanhas.

Quero surpresas e novidades,
Luzes e alegria.
Sol que brilhe o ano inteiro.

Antes que tudo termine,
E a terra caia solta.
E os olhos se fechem num bater derradeiro.

E eu me despeça de madrugada…
E saiba que não há volta
Para o meu coração marinheiro.

Antes de tudo isso,
Eu quero ser feliz primeiro.

A minha mãe, coitadinha dela,
Dizia que não podia morrer porque ainda lhe faltava muito para viver.