Mensagens

Maria Rosalinda (Rosalinda da vida)

Imagem
Rosalinda enxugou a lágrima que escorria entornada pelo canto do olho. Sabia que estava certa quando não acreditava, Mas algo dentro dela teimava em não entender. Contrariando todas as evidências, a Rosalinda ainda queria dar uma chance.
Via ela, todos viam, que um mais um são dois. Sabia ela, como todos sabiam, que de má amostra não se faz boa obra. Mas…queria tanto poder estar enganada! E se?...
Rafael não tinha sentimentos. Era oco, vazio por dentro. A personalidade não se chegara a estabelecer naquele espírito vagabundo. Quem pensava que o conhecia via apenas o que ele queria mostrar de si mesmo. E o que ele queria mostrar não era uma verdadeira mostra, porque de seu nada havia.
Maneirismos, trejeitos, formas de sorrir ou entoação ao falar, Tudo eram mistificações aprendidas com quem o rodeava. Amealhava emoções alheias, decorava falas como deixas que guardava consigo até ser oportuno empregá-las. Até as injúrias, os insultos eram decalcados de outras brigas que não as suas.
Como um balão mal chei…

Quem sabe põe o dedo no ar!

Imagem
Pedro, diz-me o que é Tirania! E o rapazinho pensativo olhou para o chão. Que foi? Perdeste a língua? Vá! Responde! As palavras pareciam queimar na garganta… O rubor invadia as faces imberbes… O que é Tirania?
Outros olhos ansiosos cravavam-se nele. Tanta valentia! Tanto atrevimento! E então? Agora era o lugar de líder revoltoso que estava em causa.
Devo concluir que não sabes? Ou será que tens medo de responder? Já alguns sorrisos de troça pesavam no ambiente. A transpiração traiçoeira pingava na testa, no pescoço.
Sei, sim senhor professor! Ufa! Uma onda de alegria vibrou na sala. Sabes?
Primeiro respondeu o José, depois o António, e a Raquel, e a Rita. Depois já todos gritavam a sua própria resposta: Tirania é quando nos obrigam a ser o que não somos. Tirania é quando não nos dão opção de responder. É quando o pai da gente chega bêbado da rua. É quando a mãe da gente se acaba nas esquinas para pôr comer na mesa. E é quando um adulto todo poderoso nos faz tremer porque somos pequenos. E é quando escreveram o…

Quando as folhas caem na Primavera

Imagem
Este poema é dedicado às folhas que caem, quando todas as outras estão a nascer. Este poema é para as árvores que estão no Outono, quando o calendário diz que é Primavera.
Meses, semanas e dias… Estações e anos… Tudo invenção dos humanos.
Ao principio era o nada. Nem nomes, nem significados.
Depois vieram os Homens e disseram que isto se chama assim, E aquilo se chama assado. Escreveram frases, Encheram livros. Fizeram de todas as coisas do mundo um tratado.
Época de nascer, Época de desabrochar. Época de recomeçar.
Pois eu louvo as folhas que caem, quando todos esperam que elas nasçam. Louvo as árvores que não respeitam a altura de florescer, E louvo todos aqueles que de pé, escolhem quando hão-de morrer.
No tempo em que as flores anunciam os frutos, Quando as abelhas sorvem o néctar das rosadas pétalas E os pardais escarafuncham as carnudas polpas, Existem folhas que caem, Existem árvores que findam.
Existem Invernos que não chegaram a ser Verão. Apenas não.
Este poema é para os marginais da natureza, Párias…

Somos Família

Imagem
As pessoas lá fora não se importam. Porque haveriam? A verdade é que ninguém quer saber de ninguém.
Só dão uma coisa a quem dá outra de volta. Dizem que sentimentos são troca de mercadorias. Fingem que riem. Mentem e nem sentem. São surdos, mas não mudos. Falam muito, mas falam sozinhos.
Não somos assim.
Não fazemos justiça. Para isso o mundo está na rua. Não aplicamos regras, nem impomos castigos. Nem somos juízes, ou nobres causídicos.
Somos nós. Só nós. É isso que somos.
Juntos quando tudo falta e desaba à nossa volta.
Somos gente nossa.
E nunca ninguém gostará tanto de cada um de nós, Quanto gostamos uns dos outros.

Bring me a dream...

Imagem
Querido Pai Natal, Apesar de já não ser natal, Ou de ainda não ser Natal, Traz-me um sonho. Quero uma sala cheia de prendas embrulhadas a laçarotes e fitinhas. Bonecas, tambores, histórias de reis e rainhas. E jogos de cubos, serviços de chá para brincar às casinhas. Uma mesa com toalha bordada e azevinho com rubras bolinhas. Lá ao fundo a antiga árvore enorme carregada de luzinhas.
Querido Pai Natal, apesar de já não ser Natal, Ou de ainda não ser Natal, Traz-me um sonho. Cheirinho a fritos com canela, aletria, fatias e broinhas. Pires e travessas de guloseimas e salgados caprichados. A melhor loiça lá de casa com os talheres que nunca serviam. Refrescos gelados em cristais preciosos. Até as cadeiras, meu Deus, até as cadeiras reluziam! Cera e óleo de cedro reluzentes em todas as mobílias.
Querido Pai Natal, apesar de já não ser Natal, Ou de ainda não ser Natal, Traz-me um sonho. Faz com que tudo seja bonito de novo. Arranja um milagre, uma magia. Traz de volta a inocência e a candura. Leva de retro a trist…

Para onde vão as mães quando fogem?

Imagem
A Amélia chorava baixinho. Baixinho acreditava que a mãe voltava. Baixinho acreditava que a mãe vinha. E a mãe não vinha…
tic- tac, tic- tac...
Coitadinha da Amélia, da Amélia pequenina.
A saia de xadrez nas costas da cadeira... Os óculos na mesinha de cabeceira.... As sandálias ligeiramente deformadas nos joanetes...
As coisas vazias de miolo. As coisas vazias da mãe que a deixara sozinha.
tic- tac, tic- tac...
Ainda de manhã ela estivera ali. Passara a ferro o vestido vermelho com arabescos brancos. Até lhe ensinara um truque para quando a roupa não enxugasse na corda… Bastava embrulhá-la numa tolha e torcer… Para um dia quando fores crescida
Já saberia que ia embora? Resolvera na hora?
tic- tac, tic- tac...
-A mãe? -Escondida. -No capim?- os olhitos escuros a perfurarem a altura enorme do capim na noite africana. -Quem sabe? É maluca. -Maluca, a mãe?- não, não era! Era a mamã.
Talvez se usasse as palavras de criança, ela voltasse… Sempre tinham tido uma linguagem só delas,

Meu Moçambique

Imagem
De longe chegam os brados de um tempo que mal vivi. De longe chegam os ecos de uma história que quase foi minha.
Parece que escuto os serões entre violas e batuques… Parece que vejo o fumo dos cigarros subindo devagar nos ares…
E são muitas as cabeças dos homens em torno da mesa, e muitos os copos de cerveja gelada. Discutem, conspiram, conversam e riem. Dizem poesia e sabem sobre livros censurados. Dançam os ritmos antigos. Esconjuram espíritos amaldiçoados.
Falam de um país meu, mas que se perdeu para mim.
Gravatas e fatos, balalaicas e mangas de camisa arregaçadas. Alguns chapéus moles e desabados atirados pelos cantos dos sofás. Rostos claros, escuros de carvão ou castanhos como canela, outros não tão definidos assim. Velhos e moços. Doutores, homens de letras, escriturários, comerciantes, poetas. Tocadores de mil instrumentos sem fim.
Que homens aqueles? Amigos lá de casa? Foram aonde todos eles? Foi aonde a casa?
Hoje lembro essas noites com saudades de aconchego, como os únicos momentos que tive a …