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Que esteja tudo bem!

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Que esteja tudo bem, que esteja tudo bem! Mesmo quando tudo está tão mal! Mesmo quando tenho a certeza de que tudo está tão mal! E não consigo deixar de sentir uma enorme ternura para comigo mesma, para com este pobre destroço  humano que me fita séria e concentradamente enquanto escrevo. Uma vontade de me pegar ao colo, dar-me um beijinho, fazer-me uma festinha nos cabelos! Coitadinha de mim! Querida de mim! Pequenina de mim! Minha pequenina!... Queria embalar-me nos braços e encontrar em mim o amor que nunca tive, o carinho que sempre me faltou... O tempo pintou de branco os meus cabelos, escavou vincos e rugas no meu rosto que foi um dia esperançoso de crescer. O tempo manchou as minhas faces com mil lágrimas de sangue. O mundo escorraçou os meus sonhos dizendo que fantasias só são possíveis nas histórias de encantar. O mundo ridicularizou os meus mais caros planos. As pessoas que julguei serem para sempre desapareceram a compasso. Aqueles a quem mais amei nunca foram de facto quem…

Foi quando?

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Foi quando que comecei a sentir esta falta de viver? Foi quando que a morte soou como música aos ouvidos, sossego para os sentidos?
Foi quando que fugiu a esperança e a fantasia, que perdi o mundo e a alegria?
Foi quando que o Natal não se vestiu de neve e magia?
Tanto trabalho e tantos anos! Planos e desenganos, canseiras!... Tudo, tudo para eu acabar assim! Miseravelmente assim...
Peço perdão meu pai, perdão minha mãe. Falhei! Falhei eu, não vós.
Foi quando? Foi quando? Eu sabia, sempre soube... O meu espírito delirante assumiu compromissos que não podia ter assumido.
Muito simplesmente eu não devia ter nascido.

Tudo o que fica, depois que tudo passa

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Para aonde vamos quando a tristeza de não ter lugar é maior do que tudo? Para aonde seguimos quando não temos sítio para o qual caminhar? Haverá maior infelicidade do que a desdita de um prisioneiro que desistiu de fugir? Haverá pior pena do que perder a esperança de ser livre um dia?
Os dias rolam sobre nós, e os anos sucedem a outros anos sempre iguais. Pensamos que isso é o pior que nos pode acontecer... Sofremos de fastio. Rebelamo-nos contra a sensaboria de uma vida despida de surpresas e de magia. Acreditamos no fundo do coração que a multidão anónima à nossa volta desfruta de uma existência muito melhor... Pois sim!...
Maldizemos a rotina e destratamos aqueles que nos oferecem estabilidade. Apelidamo-los de “aborrecidos, desinteressantes"... Fazemos planos mirabolantes para a altura bendita em que nos libertaremos das amarras e tomaremos o volante da vida nas nossas pobres mãos, inúteis mãos de sonhadores de sofá! Gastamos assim as energias que seriam bem melhor aproveita…

Vou mudar de vida

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Vem atrás de mim se conseguires. Apanha-me se puderes. Porque eu vou saltar do monte mais alto do mundo. Porque eu vou fugir para o mais longe possível. E só chegarás até mim se fores capaz de me acompanhar. Podes perguntar-te o porquê de tanta fuga… Ou o porquê de me tentar alcançar... Podes, podes perguntar. E também podes não fazer nada e apenas deixar-me ir. Ficares só a olhar enquanto ganho altura e vou ficando um pontinho cada vez mais distante. Não tens que me seguir. Nada que vale realmente a pena é para ser imposto. E não posso pedir-te que venhas comigo se a tua vontade for ficar. Se o teu apetite pelo chão for maior do que a tua ânsia de voar… Nem vou fazer cara feia se me disseres tranquilamente que ganhaste raízes fundas nesta terra de onde eu quero partir. Vou perceber. Sei que és humano, apenas humano. Sei que os teus anseios e as tuas vontades podem ser do tamanho do peito franzino que alberga o teu coração. E estou a par da importância que dás as aparências... Sei de pe…

Homenagem póstuma ao Amor

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Uma singela flor, em memória a quando eu acreditava no Amor. Um agradecimento a quem me fez sorrir e dançar, e cantar…
Valeu cada momento de felicidade!
Nenhuma lágrima apagou a alegria de uma realidade que só vivia na minha ilusão. Houve um tempo para lá deste tempo, em que supus haver mais do que apenas viver. Nessa altura descobria razões que ninguém via, e imaginava venturas nas invenções que me diziam.
Fui ingénua numa idade em que a ingenuidade dá vontade de rir… Era crédula como uma criança, e como uma delas fácil de encantar.
Hoje trago comigo uma flor, uma singela flor para depositar aos pés do Amor, Em homenagem àquele tempo ido. Como uma carícia em mim mesma e um desculpo tudo, não há que perdoar.
Porém estranho que feridas supostamente fechadas ainda consigam arder... Espanta-me que as cicatrizes  saradas pulsem após toda esta eternidade!...
Não, eu já não presto vassalagem ao Amor! Sei que histórias são folhetins, e novelas não passam de romances de cordel. Mas bastou uma palavra com sa…

Sabendo como sou...

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Sabendo como sou, era impossível não ser como sou agora. Marília examinou seriamente o rosto impávido do outro lado do espelho. Quantas e quantas vezes não se mirara assim, em tempos idos!... Nessas alturas perguntava-se como seria dali a dez, vinte anos? Sorriria da mesma maneira? O cabelo? Curto? Mais comprido? E o rosto? Encrespado, ou antes pelo contrário um mar de calmarias?
Os anos tinham passado sobre a imagem no vidro. À sua frente estava uma mulher enigmática. Os olhos escuros e a pele trigueira eram sem dúvida os mesmos. Nos lábios não tinha baton, nem pintura na face. Longos cabelos acastanhados adornavam o pescoço bronzeado. Não, não estava muito diferente… No entanto não parecia a sua própria pessoa. Porque não dizia nada? Porque apenas olhava circunspectamente parecendo não se reconhecer?
Quebrara promessas e abandonara-se em muitas esquinas de bairros diferentes. Esquecera juras e recatos, e trocara de valores e de moral. Ofendera deuses e anjos, abrira o seu caminho desbr…

De mulher a menina

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Os olhos da Florinda assemelhavam-se a lagos de profundas águas verdes. Do verde quieto dessas águas brotavam chispas como fogo ardente.
Era uma mulher quase menina, ao contrário das meninas que estão prestes a serem mulheres. A Florinda decrescia em criancices ,como se lhe batesse no peito um relógio que só anda para trás. Taque-tique, taque-tique...
Cabelos brancos tinha-os aos molhos. Rugas abriam caminho nas faces quase descarnadas. Estava velha. Mas via-se de novo menina no pensar.
Já há um tempo que lhe dava para recordar a mãe. E a mãe aparecia flutuando de braço dado com o pai, os irmãos. Colo,pedia a Florinda. Colo e família, colo e aconchego. Ainda não, escusava-se a mãe e a restante trupe alada.
Tinha de diminuir de tamanho para caber de novo nos braços maternos. Tinha de trocar a roupa escura pelo bibe de renda, se queria fazer sorrir o pai. Os braços enrugados prendiam-se num enrolar de ossos estaladiços e rendilhados. As mãos trémulas mal davam com a casa dos botões. Ná... …