sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

E felicidade, o que é?

Desde muito pequenina que sonho em ser feliz. Claro que a minha definição de felicidade se tem vindo a transformar ao longo dos anos. Quando tinha cinco anos, felicidade, para mim, era poder ficar em casa, ao pé da minha mãe; a mãe que me ralhava e batia, embora menos do que depois, já cá, quando estava mais perdida e mais doente; a brincar com as minhas bonecas, no chão da sala.
Depois, mais tarde, aos onze anos, felicidade, para mim, era poder voltar para casa, para a minha terra tão distante, que só lá podia chegar de avião, para uma terra a que nunca mais retornei e aonde tinham ficado os meus sonhos menos tristes.
Aos quatorze anos, felicidade, para mim, era contar os anos que faltavam para chegarmos a 2000, a data em que o mundo ia acabar, como acreditávamos, eu e a minha mãe. Em acabando o mundo, eu podia voltar para ao pé dela, da minha mãezinha morta, tão morta, e tão querida.
Aos dezassete anos, felicidade, para mim, era fazer as pazes com o principal dos meus inúmeros namorados, enquanto ia curtindo com tantos outros, todos os que aparecessem ou me interessassem. Quem queria saber de diferença de idades, de níveis sociais, ou outras esquisitices desse género? O importante era mostrar a mim e ao mundo, que a minha mãe se tinha enganado. Afinal as pessoas não tinha vontade de me cuspir em cima, e afinal eu não chorava lágrimas de sangue. Era até bem feliz, com todos aqueles rapazes e homens à minha volta, babando e rebolando em cima de mim. Já não sonhava em voltar para casa, até porque já nem tinha casa para onde voltar, só aquele buraco húmido a que chamávamos de caverna, já não havia mãe para estar com, nem bonecas para brincar no chão da sala. Só havia saudades, muitas e tantas, só havia solidão e tristeza! A minha terra, tão linda e cor-de-laranja, estava para sempre perdida, para lá do mar e do pensamento, sempre só no coração e na lembrança daqueles tempos em que queria ficar em casa, só ficar em casa.
Aos dezanove anos, felicidade, para mim, era que o meu filho começasse a andar, pelo menos a gatinhar, quem sabe a falar, como as outras crianças! Felicidade era que me pagassem o ordenado a horas, sempre atrasado, sempre em dúvida. Felicidade era que o meu marido parasse de beber e chegasse a casa à noite sem aquele cheiro horrível de cebolas podres e vinagre. Felicidade era encontrar uma casa para morar, uma casa que pudesse, de alguma forma estranha, substituir ou fazer lembrar a outra, a casa verdadeira, aquela que tinha um chão numa sala e muitas bonecas espalhadas. Aquela aonde havia uma mãe que ralhava e amaldiçoava, um pai que berrava e tinha ataques de loucura, uma irmã pequenina que estava sempre doente, mas que ainda assim era a minha casa, a de sempre, aquela para aonde volto em sonhos e em pesadelos.
Aos vinte e sete anos, felicidade, para mim, era que pelo menos este segundo filho nascesse normal. Que crescesse e fosse feliz. Falasse, andasse, pensasse, aprendesse a ler e a escrever, fosse um menino igual aos outros meninos. Não mais inteligente, não mais bonito, não mais saudável, mas igual aos outros. Pelo menos isso, Meu Deus! Talvez um dia, eu pudesse voltar para lá com ele, quem sabe? Talvez um dia ele olhasse para mim e visse só uma mãe e não aquela pessoa tresloucada e doente que eu via quando olhava para a minha mãe. Talvez um dia se ele soubesse da minha história, tão triste e tão só minha, nem acreditasse, e dissesse:”- O quê? A minha mãe? Não pode ser! Ela sempre foi tão normal, tão sensata, tão presente!” Talvez, só talvez, eu conseguisse, quem sabe, fazer dele uma pessoa feliz, talvez eu conseguisse fazer com que ele acreditasse que as lágrimas não eram lágrimas, as saudades não eram de coisa nenhuma e a dor era só imaginação, e que as alturas em que eu fugia para longe sem sair do lugar eram só alturas, mais nada.
Aos trinta e um anos, felicidade, para mim, era juntar mais um filho normal ao que já tinha! Desta vez uma menina, que seria linda e rechonchuda. Que daria beijinhos e abraços, todos aqueles que nunca me deram, todos aqueles que a minha mãe me negava e que o meu pai simplesmente não sabia que existiam. Todos os beijinhos que procurei na boca de tantos namorados, de tantos amores e desamores, todos os abraços que nunca souberam a abraços, mas a troca injusta de serviços! Uma menina linda e amorosa com nome de Nossa Senhora! As meninas são mais meiguinhas, era bem possível que ela um dia, quisesse ir comigo para casa. Podia mostrá-la à minha mãe e dizer que afinal ela estava enganado:”- Olha só mamã, que linda é a minha filha, e que graciosa, vê como se explica bem, como parece ser feliz! Consegui! Fiz bem. Fiz bem com ela, e fiz bem com o irmão, pelo menos com um dos irmãos. Não sou um monstro como dizias. Monstros não fazem filhos lindos como os meus! Monstros fazem filhos que sofrem tanto que acabam por ser diferentes dos outros, não é? Monstros são as filhas assim como eu fui, que nem se despedem da mãe na hora da morte, que nem pedem perdão, aquele perdão que dizias eu havia de pedir só para mo poderes negar.”
Agora, aos quarenta e três anos, felicidade, para mim é viver devagarinho. Aproveitar cada dia, nas mais pequenas coisas, às vezes bem que é preciso procurar muito para encontrar algo de bom. Felicidade é olhar em volta, ver que ainda cá estou, que me aguentei apesar de tudo, ou por causa de tudo. Que vou andando com cuidado, aprendendo e errando, caindo quase sempre, mas encontrando ainda ânimo para me levantar. Vou tacteando a vida com dedos de cegueira nos olhos, medo de apanhar ainda com a colher de pau da minha mãe, medo de ouvir ainda o ribombar dos berros do meu pai, berros tão parecidos com os da minha filha, gritos tão desumanos e desprovidos de sentimento como os que ela dá. Outra vez e sempre o medo antigo de ver as pessoas olharem e falarem, depois de tudo o que fiz e lutei para me aguentar!
Felicidade, sei lá bem o que é para mim. Era fechar os olhos e quem sabe estar em casa, quem sabe ter a minha terra de volta, o cor-de-laranja do sol mais lindo do mundo, o encarnado das acácias da minha rua, que ainda é a minha rua, apesar de já não ser, o azulão do céu, os milhões de estrelas da noite, o cri-cri dos grilos nas noites de calor, os embrulhos de alegria na árvore da natal gigante! Felicidade era voltar a passear pelas ruas, de mão dada com a minha irmã outra vez pequenina, outra vez de totós nos cabelos e meias dobradas pelo ortelho, sentir atrás de nós os passos dos meus pais, nos dias em que estava tudo bem… Felicidade era nada ter corrido mal, era ter os meus três filhos comigo, até aquele que nunca foi meu, todos os três, lindos e saudáveis.
Felicidade era afinal tão pouca coisa, coisas tão simples, tão comuns e pequenas, que deve ser por isso mesmo que não aconteceram. Quando se pede, deve-se pedir muito, dizia a minha mãe. Eu nunca soube pedir muito, ah, mas isso também foi ela que me ensinou!.

1 comentário:

  1. Cara Maria:
    Quanta tristeza suas palavras encerram...Você, com certeza, é uma mulher muito vivida e inteligente. Eu também tenho muitas lembranças de infância, momentos tristes de doença, outros alegres de saúde e presentes, teho hoje 58 anos e escrevo no meu blog sobre minhas memórias e outros assuntos. Te desejo muita saúde, paz e muuuuiiiita felicidade.

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