sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Um "obrigada" perfeito

Hoje quero agradecer a algumas pessoas que atravessaram o meu caminho, que se cruzaram comigo em algum momento, e que se calhar nem se aperceberam da importância que estavam a ter.
Quero agradecer àquele senhor motorista de autocarro, que sempre que passava por mim e pelo meu marido, de madrugada, naquela estrada escura e deserta, nos dava boleia. Nós íamos andando, na esperança de ouvir o barulho do motor dele. A estrada era comprida, sinuosa, sem fim e tão deserta, éramos os únicos a andar àquelas horas. O escuro era muito e misterioso, fazia tanto frio e vento que as mãos gelavam! E nós seguíamos por ali fora, sempre de ouvido atento, passo após passo, á espera. Ele passava, parava, abria a porta para entrarmos e muito simpaticamente, sem dar a ideia de que nos estava a fazer um favor, convidava-nos para entrar! Muito e muito obrigada por isso. Obrigada por nos levar, por nos tirar do escuro e do frio, obrigada ainda mais por fazer tudo isso com um sorriso simpático no rosto, como se fosse a coisa mais natural do mundo!
Quero agradecer àqueles vizinhos nossos, que durante muitos fins-de-semana, chamaram o meu marido para trabalhar. Eles não chegaram a saber, mas muitas vezes, foi o dinheiro que ele ganhava nesses fins-de-semana, que nos permitiu chegar até ao fim do mês! Quantas vezes eu não contava as últimas moedas e desesperava a olhar para a lonjura do s dias, para a enorme quantidade de dias que faltava para receber o próximo ordenado (os meses dos pobres têm tantos dias, e esses tantos dias têm tantas longas horas!). Então eles telefonavam, pediam para o meu marido ir naquele fim-de-semana, e a esperança acendia-se de novo para nós. Muito e muito obrigada, porque além do dinheiro, eles deram-nos a sensação de equilíbrio, de certeza que dias melhores podem chegar, de que nem sempre que o telefone toca, são más noticias.
Muito obrigada também às terapeutas e doutoras que trataram da minha menina, mesmo sabendo das dificuldades em que se estavam a meter, mesmo sabendo da situação horrível em que estávamos. Um mesmo muito obrigada às professoras da escola nova dela, que a receberam, estando a par dos problemas que vinham junto com ela! E que mesmo assim, nos fizeram sentir à vontade, nos sorriram e nos disseram palavras de apoio e encorajamento! Bem-haja por nos terem estendido a mão no meio do inferno de desespero que era a nossa vida!
Tantos e tantos muito obrigadas…
Muito obrigada àquela minha distante no tempo, mas nunca no coração, professora de francês e português, que me deu o meu primeiro emprego! Que durante aqueles tempos tão confusos e conturbados da minha juventude, me deu as únicas refeições do dia, que me pagava por eu fazer pequenos serviços, que me deu roupas e mais, muito mais do que isso, me proporcionou o único porto de abrigo que tinha. Aos meus dezoito anos! Tanta tristeza! Tanto medo, tanta solidão! E ela lá estava, minha salvadora, minha empregadora, minha psicóloga, minha esperança! Muito obrigada aonde quer que esteja, querida professora. Gostava tanto de a encontrar de novo, não me esqueci de si!
Quantos muitos obrigadas ficam por dizer nas nossas vidas! Uns por falta de ocasião, outros por falta de coragem, outros por falta de nem sei o quê. A todas as pessoas que fizeram da minha vida, um lugar um pouquinho melhor, o meu sentido obrigada para sempre.
E claro, ao meu pai, ao meu herói de tantas aventuras, ao meu primeiro grande amor, muito e muito obrigada por ter sido o meu papá, naquela cozinha escura e húmida, aonde me contava filmes de terror e de policias. Paizinho, amo-te muito, aonde quer que estejas.

2 comentários:

  1. Querida Maria da Glória, entrei no seu blog por acaso, eu também tenho um blogue aqui no Brasil, pois sou brasileira e você tem um gosto por literatura parecido com o meu (um deles é O crime do padre Amaro) magnífica obra de Eça de Queiroz, coisa que já não aparece mais em nossos dias. Apreciei seu artigo e sua simplicidade, o que para mim é o essencial na vida. Também tenho descendência portuguesa por parte do meu saudoso avô materno já falecido. Poucas são as pessoas que sabem agradecer na hora certa ou até mesmo depois como vc fez. Podemos nos tornar amigas e trocar confidências através dos nossos blogues. Boa-sorte e até mais!

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  2. Querida Glória:
    Fico às vezes indignada com as pessoas que tem perfeita saúde e nunca estão satisfeitas: Ah! Porque meu nariz é feio, ah! Eu sou muito gorda e etc. Elas se esquecem de quem tem a saúde perfeita quando muitos queriam apenas isto e nada mais. Tive uma infância e adolescência difíceis, em tratamento constante, meus pais lutando para conseguir dinheiro para pagar médicos particulares muito caros para conseguirem me dar uma vida melhor. E é por essa razão que os amo infinitamente, porque deixaram de viver para cuidar bem de seus filhos, cumprindo seus papéis de pai e mãe.Felizmente eu acompanhava bem os estudos, tinha bom aproveitamento, mas muitas faltas que quase me valeram repetência em determinados anos.
    Eu só vim parar de tomar os remédios por volta dos 35 anos, não sei se por incompetência dos médicos, ou porque o problema era realmente sério. O último médico com quem fiz o tratamento me disse que eu havia tomado remédios demais, por muito tempo e isto iria me trazer muitas dificuldades de adaptação a uma nova vida sem eles. E isto realmente aconteceu. Meus exames de EEG (eletroencefalografia) se normalizaram e quando parei com a medicação passei a ter muita depressão, porém optei por não tomar medicamento algum, sofri muito, mas consegui superar essa crise, graças a Deus. Quanto a meu pai ficou muito feliz. Tanto é que quando o meu filho mais velho foi embora para os Estados Unidos e por lá ficou durante oito meses, eu passei muita angústia e tristeza. Um dia estava na casa de minha mãe, muito triste e ele me pediu, por favor, para que não me preocupasse tanto, porque ele tinha chorado inúmeras vezes quando estive doente e temia que eu ficasse doente de novo. Fiquei com tanta pena dele que procurei me alegrar, para que ele se tranqüilizasse .Nessa época ele já estava doente, havia sofrido um acidente de trânsito muito grave ( um motorista irresponsável que dirigia embriagado e sem carteira de habilitação batera no carro dele). No hospital onde se internou além das fraturas, teve que fazer cirurgia para extrair o baço, precisou de transfusão de sangue e nesta adquiriu o vírus de hepatite C que evoluiu para cirrose hepática, ele faleceu em 99.
    As minhas alterações de comportamento eram no sentido de estar sempre passando mal, com medo constante de crise e muita melancolia.Era uma criança triste, que ao contrário das outras meninas só pensava em morte.
    Porém, hoje são águas passadas, mas que calaram fundo.
    Pode deixar que vou mandar algumas fotos por e-mail, agora que já sei. O meu e-mail é:
    m.crisbv@yahoo.com.br
    Se quiseres mandar algo será muito bem-vinda. Abraços e muita fé que dias melhores hão de chegar.
    Cristina.

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