sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Carrinha branca, carrinha amarela

Já se passaram mais de trinta anos, aliás, já se passaram quase quarenta anos, e ainda consigo ver aquela menina pequenina, com uma carinha gorduchinha, cabelos frisados, o cestinho de verga contendo o lanche, na mão. Os olhos perdidos no longe, tão caladinha, tão quietinha no meio do barulho das outras crianças. Todos corriam, brincavam, gritavam, riam, daquela maneira estranha que só as crianças conseguem. Ela não. Estava sentada, sozinha, a rezar a todos os santos do mundo que ninguém olhasse para ela. Que ninguém a visse, que ninguém fosse ter com ela! Nos olhos, as lágrimas teimavam em surgir, apesar dos esforços que ela fazia para as prender: “- Não vou chorar, não vou chorar. Ninguém me vai ver a chorar. Já está a passar. Já quase não estou triste. Não vou chorar!” De vez em quando, algum dos colegas olhava para ela e seguia. Era quase como se ela fosse invisível, e desde que não estivesse sentada num lugar pretendido por alguém, era bem capaz que conseguisse estar sossegada até há hora de entrar para a carrinha.
Para onde ia a carrinha, isso não me lembro. Assim como não me recordo de porque é que era preciso mudar de meio de transporte, antes de chegar à escola. Lembro-me, isso sim, de a menina estar com o pai, á porta do prédio aonde viviam, à espera. Com o coração a bater de ansiedade. Os olhos postos na estrada, uma oração silenciosa: “- Meu Deus, meu querido Menino Jesus! Façam com que o papá se canse de esperar e me leve de volta para casa. Meu Deus, por favor. Só hoje!” Jesus, minha Nossa Senhora, façam por favor que a carrinha não venha!” Pedia sempre só por hoje, mas a verdade é que o mesmo pedido se repetia todos os dias. E quase todos os dias, lá em cima, ao virar da esquina, aparecia a carrinha. Às vezes a branca, outras vezes a amarela. E a menina pequenina lá ia. Com as lágrimas a bailar nos olhos, a boca muda num pedido para fugir. O cestinho do lanche apertado nas mãozitas suadas. Um último olhar para o pai que ficava a acenar no passeio. Uma última esperança, que ele a salvasse, que ele visse que ela estava triste, que ele a puxasse daquela carrinha e a levasse ao colo para casa. Mas nada disso acontecia, e ela lá ia. Muito direitinha no seu lugar, de nariz levantado como a mamã ensinava, “para ninguém fazer pouco de ti”. De nariz levantado mas de lágrimas presas nos olhitos! Pelo menos, era uma menina valente, era uma menina corajosa, não envergonhava os pais, não se portava mal e não fazia fitas na rua.
Havia alturas em que a carrinha não aparecia. Ou fosse porque o motorista se atrasasse, e o pai, que tinha que entrar pontualmente na repartição, se fartasse de esperar, ou fosse porque Deus ouvisse mesmo as preces da menina, ou fosse pelo que fosse, havia dias em que “não havia escola”. Então era uma alegria sem tamanho. Era o voltar para cima, no elevador, era o não ter culpa nenhuma de não haver escola, era o poder ficar todo o dia em casa. Era o poder brincar com as bonecas, ir às compras com a mãe, fazer jogos de faz-de-conta com a irmã pequenina… Como era bom quando a carrinha não vinha! Almoçar em casa, estar tão segura e protegida dentro daquelas paredes, naquele tempo em que tudo ainda era para sempre. Naquele tempo em que havia mãe, e havia pai, e havia irmã. E todos os dias, a menina sabia que acordava no mesmo sítio, e tinha uma rua, e tinha uma família, e tinha um sítio que era seu e ia ser seu para sempre!
Volto por vezes, àquele recreio barulhento, volto por vezes a sentar-me perto daquela menina triste e sozinha. Abraço-a e dou-lhe beijinhos. Digo-lhe baixinho que tudo vai passar. Os anos vão rolar por ela. Ela vai sair daquela escola, até daquele país. Vai crescer, vai ter uma nova vida. Só não lhe conto muito sobre essa nova vida, para ela não ficar ainda mais triste. Prometo-lhe que nunca a vou esquecer, vai ficar sempre no meu coração, nas minhas lembranças. Gosto muito dela, daquela menina tão bem comportada, com as lágrimas presas nos olhos, porque é feio chorar á frente das pessoas. “- Nunca te vou deixar aqui sozinha. Estarei sempre ao teu lado, a segurar-te na mão, a fazer-te companhia, até serem horas de ires para casa.” De vez em quando a menina triste, levanta os olhos na minha direcção e esboça um sorriso intrigado. Nessas alturas, eu sei que ela me ouviu, através do tempo, através do espaço, através dos quase quarenta anos que nos separam. Vou estar sempre lá para ela! Alguém tinha que gostar daquela menina tão sozinha!

6 comentários:

  1. Oi, Maria da Glória. É incrível como a tecnologia pode aproximar as pessoas, por esse motivo nunca podemos deixar de aceitar as mudanças, por mais desvantagens que elas tragam! Fiquei imensamente feliz de ter vc como seguidora do meu blog. Obrigada. O que acontece com meu endereço, é q exatamente como vc eu não sou muito familiarizada no assunto e quando criei o blog não sei o q fiz que surgiram dois endereços, porém estou escrevendo no litteraeart.blogspot.com pq neste endereço consegui colocar fotos, assim, penso em extinguir o outro blog que não me oferece muitas condições.
    Mudando de assunto, li sua última postagem, como sempre maravilhosa, vc é de uma elegância e romantismo ao escrever q toca o coração da gente. Fico feliz de ter te conhecido e parabéns pelos textos.Até mais!

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  2. Pois é, Glória. Não recebi a primeira mensagem que vc disse ter mandado, deve ter extraviado. Se vc tiver primos aqui no Brasil,em São Paulo onde resido e se quiser q eu os procure posso tentar...
    Vc viu no último texto que escrevi sobre as eleições, aqui no Brasil elas estão próximas, mas o nível dos candidatos é muito ruim. A situação econômica tb não está grande coisa e aí em Portugal?Como está a situação política?Qual a cidade em que moras?
    Outra coisa: o que quer dizer "Carrinha" no teu texto (é um tipo de carro)? Apesar de falarmos a mesma língua tem certos vocábulos que desconheço, o mesmo deve acontecer com você, se tiver dúvidas me pergunte.Beijos,Cristina.

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  3. Obrigada pela resposta, Glória. Sei que vc assim como eu, é dona de casa tb, além de ter outras atividades. Agradeço a atenção. Quanto a seus primos, qdo puder me diga o nome deles, o sobrenome, pq às vezes a gente pode se cruzar por esta cidade imensa que é São Paulo e nem saber que pode ser um parente de alguém com quem a gente se corresponde.Pela net tb já encontrei uma prima q há 30 anos não via, foi muito bom resgatar a convivência com ela, que é minha prima em 1º grau e através dela encontrei minha tia (irmã do meu falecido pai)o que me deixou bastante feliz.Em uma determinada fase de nossa vida como é esta em que me encontro, ficamos ansiosos por rever aqueles que amamos e dos quais perdemos o contato.
    Deve ser muito bom viver numa aldeia portuguesa,meu avô se chamava José Ferreira Santos e a mãe dele tb morou em uma aldeia portuguesa antes de vir para o Rio de Janeiro.Meu avô contava de seus passeios por aí e da hospitalidade deste povo magnífico das aldeias de Portugal.
    Eu nasci e já morei em cidades do interior do estado, mas acabei voltando para São Paulo por causa de estudo dos filhos, a gente vive por eles, não é?
    Mas morar em uma cidade grande tb tem suas vantagens, como encontrar tudo o que se precisa.Vc já esteve no Brasil?
    Da minha parte viajo muito pouco.Quando meus filhos eram menores viajava de caminhão, meu marido é caminhoneiro, hoje não está mais trabalhando nisso. Tenho medo de avião e de navio e o dinheiro está curto para viajar.Outro dia falamos mais, amiga.
    Beijinhos pra vc. Cristina.

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  4. Pois é Glória, a vida nos reserva tanta coisa, passamos por tantos acontecimentos e todos eles se vão, tanto as coisas boas como as ruins, ainda bem, não? Como diz o velho ditado: "Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe".
    Também tive muitos transtornos e complicações em minha vida, mas quem não tem? São acontecimentos transitórios, só que as tristezas calam mais fundo, deixam cicatrizes, mas é melhor deixar pra lá.
    Que bom q vc deixou o nome de seus parentes, se conseguir algum contato te aviso, pode acontecer que sim, o mundo não é tão pequeno hoje em dia, veja, vc me diz que há muitos brasileiros aí, a globalização faz isso, as pessoas se aventuram, mudam para outros países, por um lado pode ser bom, mas por outro perdem seus vínculos familiares, e de cultura e acabam estragando a cultura de outros países mudando-a, penso eu.
    A vida da aldeia vc diz que é divertida, acredito que sim, deve ser maravilhosa, se algum dia fosse a Portugal tenha a certeza que o primeiro lugar que visitaria seriam as aldeias portuguesas para ver as plantações de uvas e olivas que acho fantásticas.
    Eu já viajei muito de caminhão ( o dele era daqueles grandes, carreta)quando não tinha filhos e quando eles ainda não frequentavam a escola, já fiz muita comida na cozinha de caminhão na estrada. Uma vez dona de casa...
    Tenho dois filhos;um de 30 anos casado e com una netinha linda de 4 meses e uma filha de 27 que é bailarina. Moramos todos na mesma casa bem aqui no centro da cidade. O meu filho tem um pizzaria de pizza em cone, não sei se vc já viu falar, mas ele está no começo e enfrenta muitas dificuldades. Eu e meu marido o ajudamos no que podemos.
    O seu marido é pintor.Belo trabalho, mas muito cansativo.Certa vez tivemos que pintar e fazer alguns consertos em uma casa que tínhamos no interior de São Paulo (uma cidade chamada Rio Claro) e quase morremos, ficamos mais de 15 dias na casa até terminarmos. Fizemos o serviço pq a casa estava horrível, um inquilino que lá morava havia acabado com ela e precisávamos vendê-la, pois já morávamos aqui em são Paulo e não tínhamos dinheiro para pagar a reforma,no fim tudo deu certo, conseguimos vender, mas é um serviço muito pesado.
    Atualmente estou aposentada, faz 5 anos que deixei de lecionar na escola pública, lecionava Português, Inglês e Literaturas, hoje apesar de não mais trabalhar fora, não paro um minuto, vc sabe como é esta lida.
    Como hobby escrevo no blog e toco piano, mas estou sempre precisando estudar muito pq não tenho tempo.
    É muito bom termos nos encontrado para confidenciar, vc não acha?
    Até outra vez, um grande abraço. Cristina.

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  5. Acabei esquecendo de te perguntar o que é a expressão: “as pessoas se guardam umas às outras”,.
    Não sei se as mudanças são muito boas. Aqui mesmo dentro do Brasil, houve uma região do país, o nordeste, que migrou em massa para São Paulo, outras capitais e interior e a cultura deles absorveu a nossa por completo,e não é que não gostássemos de nossos costumes. Por exemplo, lembro-me das festas juninas de quando eu era criança, ela era à moda das quadrilhas portuguesas, bem divertidas e bonitas, hoje não as vemos mais, a dança típica da região nordeste do país, tomou seu lugar e as novas gerações nunca as verão.
    Que beleza deve ser o seu quintal, oliva é azeitona sim, só que aqui só se usa o termo azeitona. Imagine que aqui em São Paulo raras são as casas que tem um quintal por mais exíguo que seja. Moro em um sobrado antigo que fica em cima da loja de meu filho e só tenho plantas nos vasos. Já meu irmão, que mora numa cidadezinha próxima daqui chamada Arujá, tem um pouco de quintal e ele também tem um sitiozinho em outra cidade. A propósito a mulher dele é da Ilha da Madeira, o nome dela é Iolanda Belo de Andrade.
    Que pena que seu filho se foi! Como é triste pra gente que é mãe ver isso acontecer! Certa vez, meu filho, o Leonardo, foi embora para os Estados Unidos, queria porque queria viver lá. Passei um ano muito triste, fiquei até doente, mas graças a Deus ele acordou em tempo, terminou o Ensino Médio e veio embora e eu não sei se foi de tanto eu rezar, que ele nunca mais quis saber de sair de casa. Mas peça a Deus, vai pedindo que um dia ele ouve. Ainda bem que Deus te compensou com um filho artista que deve te alegrar bastante.
    Quanto à menina Fátima, você deve sofrer muito com o problema dela, não? Por que será que esse problema se manifesta? Eu sei que eles criam um mundo particular e se isolam nele, não é? Ela faz tratamento com psicólogo? O jeito é tentar entrar no mundo dela para poder ajudá-la. Os problemas neurológicos são muito complicados e desgastantes para os pais,quando pequena também tive problemas de disritmia cerebral e tratei por muitos anos, hoje estou curada, mas não foi fácil. Por isto te digo, confie que dias melhores hão de vir.
    Quanto a minha filha é bailarina clássica, mas também dança balé moderno, essa nasceu para dançar desde os 6, já participou de muitas competições, já dançou na televisão, no programa do Sílvio Santos (não sei se já ouviu falar) e ganhou prêmio em dinheiro e hoje trabalha na São Paulo Companhia de Dança. Hoje mesmo ela está dançando num teatro aqui, só que não pude ir vê-la, estava tomando conta da minha netinha, porque minha nora tinha saído.
    Aqui no Brasil, a lei de aposentadoria para professores é especial, no meu tempo eram 25 anos de trabalho para mulheres e 48 anos de idade, Se vc chegasse na idade e não tivesse os 25 anos não poderia aposentar. Foi o que aconteceu comigo, quando completei 48 anos de idade ainda não tinha os 25 anos de serviço, além do que quando me mudei para o interior fiquei dois anos afastada, sem trabalhar, o que me atrapalhou bastante. Mas no final aposentei-me em 25 de janeiro de 2005 (dia do aniversário de São Paulo), com 53 anos.
    Sempre gostei de lecionar e desenvolver muitos projetos de teatro, trabalhei muito, mas professor não ganha bem e se desgasta muito, as leis da Educação mudaram muito e pra pior, não há mais autoridade do professor, os alunos não são mais reprovados.
    Para terminar o jornal que estou escrevendo, me desculpa, não sei se você tem tempo de ler tanta coisa, a melhor coisa que você fez foi ficar em casa e dar atenção a sua filha, não há dinheiro que pague o amor de mãe, me arrependo muito hoje de não ter podido ficar com meus filhos me dedicando como eles mereciam.
    Que Deus te abençoe por você cumprir com sua missão de mãe aqui na Terra.
    Muitos beijos, até mais. Cristina.

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  6. Boa-noite,Glória.Desculpe não responder antes é que ontem tive que ir ao aniversário de 10 anos do meu sobrinho de é numa cidade próxima daqui, Arujá, onde meu irmão reside com a mulher, o filho e minha mãe. JÁ aproveitei para fazer uma visita para minha mãe que já fazia um tempinho que não via. É tão bom contar com a presença dela, me sinto muito feliz em vê-la com saúde.
    Fiquei surpresa ao saber que a Educação aí também está caminhando para o caos como aconteceu aqui, os únicos prejudicados são os alunos que nunca conseguirão aprender o que precisam para serem bons profissionais,aliás todos serão prejudicados no futuro com esta irresponsabilidade dos nossos políticos, porque breve não teremos médicos, engenheiros, professores competentes e ficaremos à mercê de um bando de maus profissionais que não são culpados da situação.
    Seu quintal é realmente invejável como eu imaginava, cuide bem dele, vc tem um tesouro aí.
    Gostaria de mandar uma foto da minha filha para vc ter uma idéia de como ela fica quando dança, mas acho que no blog não dá pra colocar, posso te mandar por e-mail,vou ver se consigo te mandar, tá? Na busca do Google vc também poderá ver no nome de Artemis Bastos que é o nome dela.
    E a sua filhinha, está melhorando, frequenta escola especial ou não? Ela consegue acompanhar?
    Espero que ela fique boa muito em breve, se Deus quiser.
    Hoje vou postar um novo texto no meu blog, escrevo semanalmente e já está na hora.
    Um grande abraço, desejando-lhe tudo de bom e muita sorte!
    Vou aguardar um novo texto seu.Bjos. Cristina.

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