sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Fugi de mim




Foi naquele dia que ficou decidido o resto da história da minha vida. Não quando escolhi o namorado mais fixo do momento, não quando escolhi o curso na secundária, nem quando resolvi que só ia usar minissaias e decotes grandes. Foi ali, ao virar daquela esquina tão familiar de todos os dias, que tudo se decidiu, para o bem e para o mal. Quando olhei para o meu pai e lhe disse adeus.”- Eu depois telefono. Tenho que ir!” E corri, corri, corri como se não sentisse as pernas! Como se aquele homem de quase setenta anos, me pudesse alcançar, a mim, com os meus dezoito. Corri como se não estivesse a fugir do meu paizinho, o mesmo com quem bebia Coca-Colas desde sempre, o mesmo que me levava pela mão nas ruas movimentadas, o mesmo que me contava histórias e filmes de terror. Corri como se não o conhecesse mais, ou como se o conhecesse demais. Hoje sei que a minha corrida não durou mais de uns metros pela rua fora, mas na altura pareceu-me que já tinha corrido quilómetros. Via o rosto da minha mãe morta, via o rosto da minha maninha pequena que ficara para trás. Via a “caverna”, agora para sempre perdida. As bonecas, os livros, os cadernos da escola. Via os anos de tristeza, de solidão, o peso na alma e o medo no coração. O bolor nas paredes, os montes de roupa pelos cantos, a minha caixinha dos brincos e das pulseiras… Corri até me convencer que ele me estava quase a apanhar e então entrei num prédio qualquer. Não seria capaz hoje de reconhecer o edifício. Era um igual a tantos, mas tinha a porta aberta. Subi as escadas e bati a uma porta desconhecida, o olhar preso nas escadas, o coração a sair pela boca, as lágrimas presas quase a rebentarem, a voz da minha mãe a gritar-me na cabeça:”- Não fales com desconhecidos. Não confies em ninguém!”. Deixaram-me entrar, perguntaram-me o que era. Contei que tinha fugido do meu pai. Contei que ele era mau, mesmo quando sabia que ele não era mau. Era só ele, do mesmo jeito que sempre tinha sido. Louco, talvez. Doente, talvez. Furioso, ciumento, estranho, intratável, talvez. Mas mau, não. Não era mau. Era o meu papá! Mas eles acreditaram em mim. Eram bondosos. Deixaram-me descansar um pouco, convidaram-me para almoçar, a dona da casa ofereceu a companhia do filho para me levar aonde eu precisasse.
Quando saí de lá, não estava ninguém à porta. Ele não me tinha seguido, claro que não! Com toda a certeza perdeu-me de vista logo lá, ao princípio. Estava livre! Estava livre e estava sozinha no mundo. Não podia contar com ninguém. Tinha o namorado, o que já era namorado há uns tempos. O mais sério dos meus namoros até à data, o que conseguira ultrapassar a semana de namoro e não tinha sido despachado como os demais. Fui procurá-lo. Ficámos juntos desde então. Já lá vão vinte e cinco anos. Se era o que eu queria? Eu só queria fugir. Só queria que o meu pai fosse um pai igual aos outros. Só queria uma casa igual às outras. Só queria uma vida normal, sem berros, sem gritos, sem ataques de loucura, nem medos, nem vergonhas. Só queria que as coisas tivessem sido diferentes e mais bonitas. Só queria não ter chorado tanto como chorei, nem ter-me sentido tão triste e abandonada como sempre me senti. Só queria que o meu papá, onde quer que esteja agora, soubesse que nunca deixei de o amar, nem mesmo naquele dia, sobretudo naquele dia!

5 comentários:

  1. Que engraçado! Postei o comentário e sumiu tudo! O problema está persistindo...Adorei seu novo texto, é uma poesia em prosa.Seus textos parecem páginas extraídas de romances consagrados, pérolas esparsas ao sabor do vento, amei!Mas essa nostalgia q vc demonstra ao relembrar o passado é bom por um lado, pois ativa a criação, porém por outro lado gera muita tristeza para vc, não?
    Recebi seu amável e-mail com as fotos. Aqui os naprons chamam-se toalhas de mesa ou caminhos de mesa quando são maiores. São muito bonitos, assim como os arranjos.Beijinhos e abraço com desejos de muitas felicidades para vc e todos os seus. Cristina.

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  2. Oi, Glória.Olha eu aqui de novo. Li seu comentário no meu novo texto Elo Partido e fiquei pensando o que seria a expressão "de copo d'água" a que vc se refere quando fala da festa.Vc fez um casamento mais moderno, à moda dos dias atuais onde ninguém casa na igreja, ou no civil, apenas "junta os trapos" como se usa dizer por aqui. É bem mais prático e se o casamento não der certo, tb não teve tanto preparo para o casar. No fundo, reconheço hoje que tudo isso é bobagem, o que importa realmente é o amor. Mas não deixa de ser romântico uma cerimônia religiosa e todo o seu aparato, não?
    E quanto a sua participação na revista, já conseguiu alguma resposta? Eu não sei aí, mas por aqui quando se quer mandar algum trabalho para competições ou concursos o aconselhável é o registro da obra, temos a FUNARTE aqui em São Paulo que remete a obra para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para que seja efetuado o devido registro para evitar roubos de autoria tão comuns hoje em dia... E aí, existe algum órgão com este fim?
    Bjos, Cristina.

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  3. Recebi seu amável comentário em meu texto. Aqui hoje, o tempo está terrível, um frio de 15 graus o que dá um desânimo danado. Estou sarando de uma gripe horrível que tive estes dias atrás, por essa razão não respondi antes o teu comentário. Achei interessante o nome que vcs dão aí para as festas de casamento,aqui se diz recepção, festa de casamento mesmo, onde os mais ricos alugam salão, buffet e capricham na decoração e em tudo para impressionar os convidados, o que não aconteceu no meu casamento que como já disse ocorreu com muita simplicidade.As campanhas eleitorais para o 2º turno já começaram nos meios de comunicação e debates entre os candidatos já estão ocorrendo. Quanto ao presidente Lula não está bem cotado por uma grande parte da população que acusa a sua candidata de guerrilheira, de formadora de quadrilha etc. Só que nunca sabemos em quem acreditar, existem pessoas que acreditam plenamente nos meios de comunicação,eu, particularmente já há muito saí desta fase de acreditar em jornais e revistas consagradas, sei q por detrás de tudo isto existe muita sujeira e manipulação política e o atual presidente não se mostra muito satisfeito com a política norte-americana tão poderosa no mundo todo. Assim...Nunca se sabe! E aí vão haver eleições tb? Bjos e muita saúde a todos. Da amiga Cristina.

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  4. Oi, Glória. Que bom que gostou dos textos. Fiquei muito feliz em saber q sua filhinha está melhorando com o tratamento alternativo da acupuntura,é uma técnica oriental bastante antiga e julgada muito eficiente. Sempre devemos tentar uma medicina alternativa. A propósito eu estou lendo um livro (faz um século q comecei e estou no finalzinho) chamado Fatal do autor americano Michael Palmer. Este escritor é médico há 25 anos e por mais que este seu livro seja uma obra de ficção, acredito que muitos fatos ele deve retirar do seu dia a dia em hospitais americanos. Nesse livro, há o problema das vacinas para crianças que adquirem a doença do autismo após tomarem serem vacinadas, essas crianças que são 3% da população envolvida, entram boas antes da vacina e já saem com o problema. É um caso para se pensar, não? Estou gostando muito deste livro pq ele abre nossos olhos para a bandalheira que é a política que envolve as campanhas de vacinação. Se vc vir esse livro por aí, leia q vc vai gostar, por vezes em alguma biblioteca ou até mesmo pela net.
    Quanto à candidatura do palhaço Tiririca novamente há muita coisa por detrás dela. Não se trata simplesmente da candidatura de um palhaço talvez analfabeto ou semi-analfabeto: a imagem dele é muito forte e puxa votos. Ele é filiado a um partido político intitulado PR (Partido da República) que é uma coligação do partido do governo, o PT. Sendo assim, como o governo pretende eleger sua candidata em meio à grande pressão, lança mão de candidaturas que consigam maioria no Senado. Mas a candidatura dele (Tiririca) está tentando ser impugnada por suspeita de analfabetismo, ou por outro motivo, sabe-se lá....Há uma grande parte poderosa que quer tirar o partido do governo de qualquer forma, o que não será nada bom também, pq não são forças nacionais.Vamos ver no que dá, pq o povo é marionete, não tem conhecimento de nada, são uns verdadeiros robôs dominados pela mídia.
    Aqui tb, a exemplo de Portugal, segue o msm período para o mandato de presidente. A economia e a situação financeira tiveram uma estabilizada com este governo, só q a pressão é grande sobre ele.
    Vcs têm muito frio aí! Se estivesse a curtir esse frio de 5 graus com certeza morreria! Com 15 já estamos a bater os queixos. Num país tropical como o Brasil a gente sente muito estas frentes frias que se tornaram rotineiras por aqui.
    Continue perseverando naquilo em que acredita e muita sorte para vcs. Beijinhos. Cristina.

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  5. Olá Glória! Não sei se os seus textos são retalhos da sua Via, mas presumindo que o são, tem uma maneira tão especial de os contar, que fico sempre com lágrimas nos olhos ao lê-los. Escrever assim, é um dom. Devia aproveitá-los, pois a seu percurso pode e deve ter sido muito difícil, mas através dos seus olhos e do seu coração, só vemos a beleza romântica daquilo por que passou. Um grande beijinho. É uma querida!

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