sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Minha querida filha:



Para ti, minha querida do coração, que não és capaz de ler estas palavras, todo o meu amor.
Espero que me perdoes por todas as vezes em que te obrigo a ir à escola, e tu não queres ir, e ficas a chorar, e eu não posso fazer nada. Por todas as vezes em que pedes beijinhos e abraços e eu tenho que fazer o jantar, em que queres companhia no sofá e eu tenho que aspirar o chão e arrumar a casa. Perdoa sempre que te mando calar, quando fazes a mesma pergunta pela milésima primeira vez. Perdoa quando às vezes, respondo sem atenção às tuas conversas sempre tão iguais e tão queridas. Perdoa quando não me apetece cantar a Machadinha, ou o Jardim da Celeste e finjo que não te estou a ouvir Perdoa sempre que queres o jogo das lutas, e eu digo que está estragado, porque já não consigo ficar horas a carregar no mesmo botão e fingir que estamos a jogar. Perdoa quando estendes os bracinhos para um abraço e eu te faço só uma festinha na mão, porque estou cansada, tão cansada…
E tu nunca me pedes mais nada. Nem brinquedos, nem roupas, nem revistas, nem jogos, nem nada. Só pedes beijinhos, abraços, colinho, e mesmo assim, são tantas as vezes em que te digo não! O teu irmão zanga-se comigo quando não lhe compro o que ele quer, quando não lhe faço as coisas como ele gosta; tu, minha querida, nunca te zangas comigo por nada. Nunca me desafias, nem refilas comigo, nem me respondes mal. Só ficas triste e choras.
Perdoa, meu amor. Perdoa porque não sei sempre o que fazer, nem o que dizer. Perdoa por todas as vezes em que te desiludi, porque fiz escolhas erradas, pensando que era melhor para ti. Perdoa todos aqueles médicos, todos aqueles exames, análises, perdoa, meu amor, perdoa. Pensei que eles te podiam ajudar. Pensei que te podiam transformar numa menina igual às outras, quando tu és tão querida assim, do jeitinho que és, minha princesa loura de olhos verdes.
Peço também que me perdoes por um dia, quando eu já cá não estiver para ti. Quando já não te poder abraçar, nem dar beijinhos, nem esconder os rebuçados para não estragares os dentes. Quem te porá para dormir e te dirá que amanhã é um novo lindo dia? Quem aprenderá as canções que mais gostas, quem cantará contigo e baterá palmas quando disseres as palavras certas?
Queria muito saber como explicar-te que sempre que me procurares, sempre que precisares de mim, eu estarei contigo. Mesmo que já não me vejas, mesmo que já não me ouças, mesmo assim eu estarei contigo. Sempre, todos os dias da tua vida. Até que te venha buscar para ao pé de mim, como faço agora, quando chegas da escola e vamos para casa.
Gosto muito de ti, meu amorzinho, minha filha querida.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Queria ser grande



Queria ser grande e poder escolher. 
Queria ser grande e fazer as coisas á minha maneira. Não queria mais obedecer cegamente, nem calar a tudo. Queria ser grande e poder chegar a casa às horas que quisesse. Ir aonde me apetecesse, sem precisar de autorização ou permissão. Ter os amigos que escolhesse, mesmo os mais duvidosos, mesmo os que assustavam ao principio e depois passava. Vestir as roupas que achava estarem na moda e andar pelas ruas que achasse convidativas. 
Queria ser grande e mostrar que não me tinham feito falta nenhuma os beijinhos, nem os miminhos que não me tinham querido dar. Que não me tinham feito falta as palavras bonitas de incentivo que não escutei. Que não me tinham feito falta os carinhos, as conversas calmas, o colo que não tive. Queria ter a oportunidade de mostrar que era capaz. Capaz de fazer bem, capaz de encontrar os meus caminhos sem ter de ir pela mão. 
Quando olhava a vida, do outro lado da minha varanda, tudo me parecia tão bonito! Tudo tão fácil! As escolhas eram tão certas, tão impossível errar. Era só fazer tudo da maneira certa, não fazer mal a ninguém, pagar as contas em dia, ser amável, ser prestável… 
O que podia dar errado? Não era eu nova, não era eu saudável? Não tinha instrução, educação, um “palminho de cara”, como diziam? Não tinha até eu um amor, um amor daqueles de conto de fadas? Um amor que vencera dragões, bruxas e saltara do inferno sem chamuscar as asas? Que mais, mas que mais, em nome de Deus, seria preciso para ser feliz? O que me poderia faltar para dar certo na vida?
Mas quando a vida me fez grande, nada foi como devia ter sido. Quando fiquei grande, as promessas não se cumpriram. As promessas feitas a mim própria, na solidão da minha tristeza, no desespero do meu abandono. Apesar de ter feito tudo como devia ter sido feito, apesar de ter sido simpática, amável, prestável, apesar de ter pago as minhas contas em dia, apesar do amor bonito de conto de fadas, apesar de tudo e apesar de muito mais… as coisas não foram como eu estava à espera.
E agora? Já sou grande. O que é que falhou?Aonde é que errei?
A menos que ainda não tenha acontecido. A não ser que ainda esteja a acontecer, e que tudo esteja por ser e nada seja perdido ainda. A não ser que haja tempo para encontrar a esperança perdida por aí, nalgum caminho escondido. E quem sabe eu consiga ainda ser muito, muito feliz! Era tão bonito!