sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Querido Pai Natal:



Lê, por favor esta minha cartinha, para saberes que não me esqueci de ti.
Estamos quase a chegar ao Natal. As montras começam a estar enfeitadas e está tudo a ficar muito bonito! Já ando a pensar nos bolos e doces que vou fazer para a Consoada, a imaginar como decorar a árvore, que luzes pendurar no quintal e nas janelas…
Penso ainda muitas vezes nos Natais de dantes, de há muitos anos, de lá longe, do outro lado do mar. Quando a nossa árvore de Natal era tão grande e com tantos ramos farfalhudos, que não conseguia chegar-lhe à agulha mais alta. O meu pai pendurava a estrela do presépio lá bem em cima, enrolava as luzinhas, “gambiarras”, como nós lhes chamávamos, e eu olhava fascinada cá de baixo, da altura dos meus poucos anos. Lembro-me da sala grande e espaçosa, as janelas protegidas com rede de mosquitos, as cortinas encarnadas, o presépio, as fitas coloridas que abraçavam a árvore com afecto de plástico! Fazia tanto calor! Era tão bom estar à espera, sempre com tanta esperança, com vontade de ser feliz! A casa ficava cheia de sol durante o dia, enquanto a minha mãe andava às voltas na cozinha, a bater massas, a fritar sonhos, a decorar os bolos, a praguejar com a sua triste vida que a obrigava a passar o Natal na cozinha, a amaldiçoar a hora em que abandonara tudo por um sonho tolo… E à noite, quando vinha finalmente a Noite Santa, e nos reuníamos na sala em volta do presépio e das luzinhas piscantes, em volta da mesa bem guarnecida e tão cheirosa a canela, aí começava o inferno. Estalava a discussão por um motivo qualquer, ou por motivo nenhum, amarguras e ressentimentos do ano inteiro, eram ali desembrulhados e despidos dos seus laçarotes garridos. Sem piedade, sem consideração, sem carinho, só amargura e frustração! E nós, as duas pequenitas, tristes e de água nos olhos, o coração a bater depressa mas sem fazer barulho, a olhar para o relógio grande de parede, à espera ansiosamente que a noite passasse, a pedir ao Menino Jesus que se calassem, que ficassem todos amigos, que fizessem as pazes. Por fim decidiam-se, o Natal estava acabado, íamos deitar porque era tarde, a minha mãe estava cansada de trabalhar todo o dia na cozinha, cheirava a fritos e a assados, e o meu pai, estava cansado de fingir que gostava do Natal e das festas, estava cansado de brincar às casinhas numa idade em que já não se acha graça a essa brincadeira. E nós, as crianças, as rainhas da festa? Eu e a minha maninha pequenina, estávamos tristes, com sono, com medo, mas agradecidas a Deus porque afinal já estava tudo despachado! Agora era só ir deitar e esperar pelas prendas de manhãzinha! Eram sempre assim, todos os Natais da minha meninice… Depois cresci e todos os que eram crescidos naqueles Natais lá longe, morreram. Com eles morreu o medo das discussões na Noite de Consoada, o medo do barulho que os vizinhos ouviam “até no Natal!”. Com eles, morreu a magia das prendas para desembrulhar no dia seguinte, o mistério de imaginar o que estaria lá dentro, a obrigação de brincar com os “brinquedos do Natal” até quase ao ano seguinte, para o Menino Jesus não se zangar.
Mas, querido Pai Natal, uma coisa não morreu. Continuo a acreditar em ti, e a esperar que me deixes uma prenda no sapatinho. Sei que estás na tua casa de neve do Pólo Norte, que fica dentro dos nossos corações, a ler listas de brinquedos e a destinar presentes. Lembra-te de nós, este Natal, querido velhinho das barbas brancas. Faz com que a vida nos corra pelo melhor, sempre com saúde, paz e amor. Não deixes que um dia, quando as minhas crianças crescerem, se lembrem de coisas tristes e chorem com raiva de si próprias, por terem saudades de tantas coisas que não foram boas! E continua, ano após ano, a fazer com que aconteça o milagre de Natal que é eu olhar para o rosto cansado do meu marido, depois de mais um dia de trabalho, e vê-lo ainda assim com vontade para festejar, com prazer na companhia da família, a conversar, bem-disposto e feliz na simplicidade que caracteriza as pessoas de bom coração. Ver os meus filhotes contentes e animados à volta da árvore de Natal, a rir e a brincar como se ainda fossem pequeninos. Perceber que este é o Natal dos meus sonhos, com menos dinheiro, menos luzes e menos iguarias na mesa, mas com tanta paz, com tanto amor! Claro que foste tu, meu querido Pai Natal, que deixaste esta prenda no sapatinho daquela menina triste e pequenina, que se deitava com medo de respirar alto, todos os Natais. Como é possível que alguém consiga deixar de acreditar no Pai Natal?

5 comentários:

  1. Belíssimas palavras de um realismo triste e ao mesmo tempo natural! Você, realmente é uma arquiteta das palavras. E com que sinceridade brotam do fundo d'alma os seus sentimentos.Acontece que o Natal é mágico apenas para os pequenos que fantasiam tudo, qdo crescemos e descobrimos que o laço é feito de plástico, as bolas são daquele material, Papai Noel não existe (aí vcs dizem Pai Natal?)é q tudo começa a desmoronar... e qdo não temos uma infância tão maravilhosa, tudo se desfaz muito cedo.
    Mas vamos nos encher de vida e celebrar a nossa vida! A nossa saúde! A nossa capacidade de poder criar e imaginar!
    Um grande beijo desejando muita força para que vivamos o mais lindo Natal de todos os tempos. Cristina

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  2. Obrigada, Glória pela visita e pelo comentário em meu blog.É q estou indignada com essa falta de qualidade nos alimentos e toda esta desgraça trazida pela modernidade! Muitos, como vc diz, falam que é a idade responsável por essa revolta que os mais velhos sentem. Mas, calma q eles ainda chegam lá! O que deveriam fazer é se unir na luta em prol de uma vida de qualidade,porém, jovens, eu já fui, vc tb o foi, vivem a sonhar num outro mundo e assim todos deixam passar boas chances de mudar o que está errado. Lembro-me de qdo começaram a plantar a soja transgênica aqui no sul do Brasil, logo este presidente, que como todos só visa lucro e dinheiro, aprovou e a população e os próprios agricultores que deveriam ter mais raciocínio e ética só decidiram pelos lucros.Grupos minoritários não têm voz, não só no Brasil,porém em todos os países.Andei traduzindo uns textos do inglês para o português sobre os animais geneticamente modificados e fiquei horrorizada com tanta maldade: pra exemplificar estão criando perus que não coseguem mais se suster em pé, pela modificação que sofreram, vacas com tumores nos úberes, frangos carregados de hormônio, enfim, é tristeza que não tem fim...
    Ainda vamos aos supermercados e não temos mais como não comprar os tais transgênicos! Estamos nas mãos do diabo, me perdoe a expressão.Ainda a tal de Vigilância Sanitária não serve pra nada, a não ser multar quem não precisa. Vou tentar encontrar algo que não seja desta maldita linha de transgênico, mas está difícil.E por aí, tb está assim?
    Beijos, Cristina.

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  3. Que bom saber q aí em seu país as mentes ainda não foram totalmente dominadas pelos efeitos da globalização!Era preciso que as pessoas pudessem se organizar, se associarem para que isso não mudasse como aconteceu por aqui, onde o povo é totalmente teleguiado e robotizado pela ideologia dos Estados Unidos. Por aqui não há preocupação alguma em sequer ler ou conhecer algo sobre estas mudanças terríveis que estão ocorrendo em todos os setores da vida. O lema é
    "pão e circo" (carnaval e futebol)garantidos e nada mais é importante...Uma tristeza e tanto! Ver que nada mais poderá ser mudado.Que nada mais resta áqueles que pensam com coerência e inteligência. Mas...Como diz o velho ditado: o que não tem remédio, remediado está!
    Bjos, Cristina.

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  4. Glória, recebi seu comentário e através dele verifico que a história se repete, digo a história da dominação do mais rico sobre o mais pobre, do poderoso sobre o humilde.O jogo de interesses realmente não tem fim e não pondera, oprime, submete o povo a humilhações de toda a sorte. É msm um fato revoltante, ver a fome e a necessidade batendo à porta dos menos favorecidos que também são seres humanos,ser ignorada pelos homens do poder. Mas, infelizmente já não nos resta mais esperança, todos nós fomos condenados a apenas observar essa injustiça sem nada poder fazer, pois não nos é mais possível organizar-nos ...a não ser greves que a nada levam como esta que seu país fez.Aí ainda se faz alguma coisa, por aqui, creio que as paralisações que ocorrem são totalmente artificiais comandadas por sindicatos manipulados pelo governo.Esta semana está um horror por aqui, o nosso belo Rio de Janeiro, vc deve ter visto nos noticiários, está sendo nota das principais manchetes do mundo todo! Uma verdadeira guerra civil se instaurou por lá, até tanques de guerra há pelas ruas das favelas. Eu q já estou dominada pelo ceticismo incurável custo a acreditar que o q dizem seja verdade, penso q talvez possa ser algum outro tipo de revolução no país, dada a miséria econômica e cultural que aqui se implantaram. Também depois q os meios de comunicação, todos eles sem exceção,serviram apenas para fazer lavagem cerebral na população e a educação deixou de existir nas escolas e instituições, nada mais se pode esperar ou fazer de concreto.O jeito é ir remando para chegarmos a algum lugar espero que melhor que este em que estamos.
    Te desejo boa sorte a ti e a todos os seus. Beijos, Cristina.

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  5. Olá, Glória! Até hoje ainda não consegui de terminar a leitura do livro que vou te mandar, mas estou chegando lá. Quanto aos traficantes do Rio de Janeiro, acho tudo isso uma bela piada com consequências negras para a população! Todo o mundo já está careca de saber que o tráfico comanda e manda muito mais do que a polícia que nesse caso está servindo de bucha de canhão para uma história sem solução e quantos policiais não perdem sua vida, sem contar com aqueles que levam sequelas emocionais para o resto de suas vidas por conta do medo que passam. O poder político tenta mostrá-los como super-heróis, produzindo reportagens e filmes como Tropa de Elite (não sei se vc já assistiu a esse filme, tem 2 deles)para firmar suas imagens que na verdade não é nada daquilo que pintam. Acontece que foram anos de Educação jogada no lixo, anos de constantes migrações em massa para as grandes capitais sem a estrutura necessária, anos sem um controle de natalidade e nem creches de qualidade suficientes e tantas outras coisas mais que acabaram nisso daí! E acredito que no mundo inteiro há mazelas como essas.
    Não sabia que aí em Portugal havia tb disso! Mas são pessoas de fora, não são? Que traficam e corrompem as pessoas da terra, não?
    Já falei demais, vc deve ter afazeres e estou te prendendo,estou com as fotos para te mandar, só estou esperando minha nora me enviar pq está no computador dela.Muitos beijos e paz. Cristina

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