sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Tanto caminho na estrada

Houve alturas em que andava perdida e queria encontrar nos outros a razão de viver. Houve alturas em que oferecia ao mundo a face chorosa em busca de algum consolo e amizade. Tempos houve em que saia à rua, de manhã, com a esperança secreta de encontrar o “salvador”, o príncipe do cavalo branco, o benfeitor… Tempos houve em que me dei inteira, em troca de nada.
Olhava o rosto de tantas pessoas desconhecidas, atarefadas, animadas ou sérias, e achava impossível que nenhum deles detivesse os olhos em mim. Achava que mais dia, menos dia, ia aparecer alguém para me descobrir, para me proteger, para me ajudar. Quantas vezes esmolei em silêncio alguma palavra de carinho, de compreensão! Quanto esperei confiante primeiro, desconsolada depois, por algum acontecimento milagroso. Podia ser uma carta, um telefonema, uma visita, qualquer coisa podia ser. Desde que parasse o sofrimento, a solidão, qualquer remédio era bom. Mas para espanto meu, ninguém veio, ninguém reparou nas minhas lágrimas, ninguém pôs os braços à minha volta para me proteger. Ninguém pareceu sequer dar pela minha existência.
Segui pelo meu caminho, tropeçando, caindo, esfolando o rosto no chão, esfolando os joelhos nas pedras. Sem mapa, sem guia de estradas, sem meta, nem destino. Segui, nem sei como, nem sei porquê. No meio da minha escuridão fui encontrando forças para me levantar, ou para rastejar, nem sei bem. Porque há alturas em que não sabemos se andamos, rastejamos, ou flutuamos. Há alturas em que a tristeza é tanta que a alma já não sabe bem se ainda somos vivos, ou se somos já espíritos errantes De tombo em tombo, de engano em engano, fui indo para a frente, ás vezes para trás, ás vezes sem saber aonde era a frente, ás vezes sem saber aonde era atrás, às vezes, tantas vezes, dando voltas sobre mim mesma, girando num corrupio infernal, passageira presa num carrossel descontrolado sem travão de emergência.
Quando cheguei ao sitio aonde me encontro agora, cheguei para ficar. Exausta e cansada, se não fosse aqui, não seria em mais lado nenhum. Era impossível continuar mais. Parei e descansei, mais morta do que viva, uma pálida imagem da caminhante do princípio. Olhei à volta e vi que mesmo sem o “salvador”, o príncipe do cavalo branco ou o benfeitor, tinha descoberto um cantinho para mim. Mesmo sem mapas, nem roteiros, tinha conquistado o meu pedacinho neste mundo. Se outros caminhantes houverem na estrada que percorri, à procura de rumo, como eu andei, caindo e sofrendo como eu fiz, digo-lhes apenas que acabamos por conseguir. Se formos capazes de aguentar as durezas da estrada, acabamos por chegar a algum lado. Quem chega lá, não é bem a mesma pessoa que se pôs a caminho, mas é o resultado possível e milagroso de tanta estrada andada.
E quando quisermos, de novo, fazer uma visita ás costumeiras lágrimas, por hábito, ou por fidelidade, veremos que os nossos olhos de tanto chorarem, estão secos. Veremos que, no fim de tanto caminho percorrido, ganhámos muita coisa, aprendemos muito, crescemos tanto mas, perdemos o direito de chorar.

4 comentários:

  1. Olá Glória! E cá nos encontramos, a meio de nada, e entre coisa nenhuma, falando de coisas que só nossos corações percebem, e só nossas Almas identificam. Adoro a sua escrita, pois consegue pôr de forma tão bonita, aquilo que jamais consegui sequer exprimir a mim mesma. É uma escritora fantástica e um Espírito Iluminado. Fico muito feliz por ter surgido no meu Caminho, e por, daqui em diante, saber que a sua presença ilumina a minha existência.

    Um grande beijinho

    Anabela

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  2. Querida amiga, que bom sabermos que conseguimos um objetivo no final da estrada, uma pequenina centelha de luz no fim da escuridão! Por minúscula que seja sempre é algo que conseguimos, é uma vitória após a derrota, é um ganho sobre a perda.E poderia te dizer tantas coisas mais...Realmente a nossa jornada neste planeta é feita de tanto sofrimento para que consigamos algum conforto espiritual.Mas não podemos nunca desistir da luta por um lugar ao sol.Que sua vida seja cada vez mais iluminada, cada vez mais feliz! Parabéns pelo texto. Cristina

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  3. Oi, Glória tudo bem c/ vc? Acabo de ler seu post no meu blog. Então foi boa a festa de halloween aí em Portugal? Por aqui nem ouvi nada a respeito, pq fico perdida com meus afazeres domésticos e aqui não há o costume de enfeitar casas a caráter neste dia. Minha filha às vezes vai a festas (baladas) com esse motivo mas desta vez nada comentou comigo, acho que não foi.
    Vc diz que dia 11 é festa por aí. Que bom, castanhas e carne de porco deve ser muito bom, não? Aproveita bastante, só cuidado com a bebida, hein? A propósito minha cunhada Iolanda (aquela que comentei com vc q é da Ilha da Madeira) entrou em seu blog e postou um comentário.
    O que são "magustos"?Fiquei curiosa por saber. Bjos e boa festa de São Martinho! É isso mesmo?

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  4. Oi, Glória, q bom ler seus comentários no meu blog! Sempre aprendo muito com eles principalmente sobre a cultura de seu país. Acho que ambas pois estamos trocando boas informações. Se quiser saber algo daqui é só perguntar. Quanto a Iolanda, minha cunhada, realmente ela não tem blog.Ela é uma pessoa muito legal, é psicóloga, estamos sempre nos encontrando. Se vc quiser responder o post que ela te deixou pode entrar por e-mail que é:
    iolandabelo@gmail.com.Tenho certeza de que ela ficará muito feliz. Beijinhos, Cristina.

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