sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quando me comecei a ir embora

Comecei a ir-me embora… não me consigo lembrar quando.
Comecei a ir-me embora, quando o meu marido, namorado, na altura, disse:”-Tens de voltar para casa. Isto nunca vai dar certo.” Eu não voltei para casa, fiquei, teimosa, assustada, perdida, mesmo assim fiquei, mas fui-me embora um pouco.
Quando o meu pai foi trabalhar e me deixou sozinha, sem conseguir fazer o problema da escola, sem mais ninguém para ajudar, também fui embora um pouco. E quando os meus tios da Ilha de Moçambique se despediam na sala, entre lágrimas e cumprimentos, e eu sabia que não nos veríamos mais, nenhum de nós se veria de novo; e quando o avião levantou voo e as luzes foram ficando cada vez mais longe, e o meu pai, que nunca chorava, chorou, e todos choraram, e eu chorei porque queria ir de volta para casa, para a minha rua, para o meu sol cor de laranja, fui-me embora um pouco.
Naquele dia em que a minha mãe não fez o almoço, como costumava fazer, e se foi deitar, como nunca fazia de dia, e não acordou nunca mais; quando íamos para o enterro dela, e ninguém reparava em nós no autocarro, e eu vi que ninguém se importava, que podíamos desaparecer e ninguém daria pela nossa falta, e que não havia mais mãe, nem mais família, nem mais nada do que era costume haver, continuei a ir-me embora um pouco.
Daquela vez em que deixei de acreditar no Pai Natal, para muito tempo depois voltar a acreditar; na outra vez, em que deixei mais um namorado porque ele me aborrecia com as suas constantes demonstrações de afecto; e naquela altura em que corri meio bairro, sempre a desviar-me das ruas em que tinha um rapaz à espera aqui, outro mais abaixo, um outro de plantão na esquina, e eu não queria ver nenhum deles, não queria que me secassem, não queria que pensassem que podiam destinar as minhas horas e as minhas ruas; naquela manhã em que disse adeus à minha irmã e ela me pediu para não ir embora, e eu fui na mesma, porque tinha de escolher ou eu ou ela; no dia em que prometi ao meu pai que ele podia vir viver na minha casa quando saísse do hospital e depois mudei de ideias, porque eu sou mesmo assim, cobarde e muito cobarde, fraca e cobarde até fazer raiva; em todas essas vezes, fui-me embora mais um pouco.
De todas as vezes em que desisti de um sonho, ou de uma ilusão, sempre que me sentei sozinha a considerar como eram inúteis os meus esforços, nas alturas em que a realidade me esmagou com o seu peso, escarnecendo das minhas lutas, das minhas tentativas, naquelas ocasiões em que ninguém ouviu o meu choro, ninguém pôs os braços à roda dos meus ombros, em todas essas alturas fui-me embora um pouco.
E há poucos dias, quando alguém me perguntava:”-Porque não te vais embora?”, eu respondi o óbvio:”- Há muito tempo que fui embora, só que ninguém notou!”
Em boa verdade, acho que comecei a ir-me embora, quando o médico disse ao meu pai, naquela sala branca de hospital:”- Oh Vilbro, a tua miúda está com pouca vontade de nascer. Tem o cordão à volta do pescoço!” Eles obrigaram-me a nascer, fizeram uma cesariana à minha mãe, mas fui-me embora um pouco.