sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Para ti, minha maninha linda...

Lembras-te? Não foi assim há tanto tempo! Éramos as duas pequenitas e assustadas. Fugíamos para o nosso quarto, quando eles gritavam lá dentro. Quando ele berrava e os gritos saiam pelas janelas podres, para a rua. Para a varanda que também era da vizinha, para o pátio grande que era de todos.
Lembras-te de quando a cadela da vizinha, malvada cadela aquela, ladrava furiosamente por baixo das nossas janelas? E quando ele saía para a varanda a gritar e a berrar, a mandar o “cão dos infernos”calar-se? E quando a vizinha fingia que não ouvia e corria para casa, com a cadela nos calcanhares?
Lembras-te de como fazíamos desenhos e conversávamos baixinho, sem fazer barulho, para ele não nos ouvir? E tínhamos tanto medo do que se podia estar a passar na cozinha, e tínhamos tanta vergonha depois de sair para a rua, e todos olharem para nós, e comentarem e falarem sobre “esses que vieram de África e têm uma vida tão esquisita!”…
Lembras-te de tantas vezes em que ela lhe respondia, e discutia e nós tremíamos por dentro, a pedir que ela fechasse a boca, que não lhe respondesse? E ela não se calava, e falava sempre, e insistia nas suas razões que não nos interessavam nada, só queríamos que ela se calasse, e nós chorávamos as duas, mãos dadas por baixo da mesa desconjuntada, de olhos enxutos e soluços encolhidos?
Lembras-te, minha maninha querida, do que conversávamos, das brincadeiras que tínhamos? Éramos princesas e rainhas, caçadoras e policias, vivíamos no nosso mundo de faz-de-conta de cima das camas, rodeadas das bonecas, que eram as nossas únicas amigas, cercadas dos sacos de roupa bolorenta e das paredes carcomidas de humidade!
E os desenhos que ela tinha feito, em cartolinas grandes, e que estavam colados para tapar as manchas de bolor… As molas que saiam pelo colchão estragado, que nos furavam as costelas de noite… O chá de tangerina com torradas à noite… Aquela esperança triste de que acontecesse um milagre, de que ela tivesse coragem e nos levasse dali para fora… A alegria dos dias sem gritos, o terror dos dias de inferno… A televisão avariada, muda e calada, sem “vomitar noticias da fossa”…
Como foi que a vida nos separou, querida maninha? Como foi que ficámos assim tão afastadas, tão perdidas na vida, tão longe uma da outra? Quando foi que deixámos de fugir juntas, para longe do barulho? Quando foi que uma de nós chorou pela primeira vez, e a outra não esteve lá para ajudar? Não era para ser assim, pois não? Era para termos sido sempre as melhores amigas do mundo. Chorámos, rimos, trememos, sonhámos juntas. E agora estamos assim tão… tão normalmente cada uma na sua vida. Não era para sermos normais, era para continuarmos juntas, amigas, inseparáveis, unidas contra o mundo, não era?
Querida maninha, gosto muito de ti! Desculpa se te tenho desapontado. Sinto a tua falta, sinto muitas saudades de quando éramos nós duas. O quarto para onde fujo ainda, de vez em quando, está muito sozinho sem ti.

4 comentários:

  1. Glória, como é bom recordar a nossa infância, mesmo ela tendo sido difícil, vc, eu e muitas pessoas, tivemos problemas, mas tudo passa e ficam as lembranças boas e ruins. Agora que crescemos, pensamos diferentes uns dos outros e por isso nos afastamos das pessoas que amamos, temos que ter paciência e jogo de cintura para voltarmos a nos relacionar com eles. Espero que vc consiga novamente conquistar a amizade da sua mana. Bjos

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    1. consegui, Iolanda. Agora de forma diferente da que era dantes, como se nos estivéssemos a descobrir uma á outra de novo. Porque em meninas éramos irmãs de carne, de sangue, e agora somos irmãs também de coração. Escolhemos continuar uma na vida da outra. Mesmo sem medos, sem aflições. Talvez seja isso de facto o inicio de uma verdadeira relação...
      Beijinho

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  2. Olá, sou Arione. Seu blog é lindo. Estou seguindo o blog. Segue o meu?
    http://arionetorrres.blogspot.com
    Tchau... Um abraço.

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  3. Oi amiga. Estou passando aqui para agradecer a sua visita ao meu blog. Sua amizade é muito importante para mim.
    Fica com Deus. Volte sempre ao meu blog. Bjus...

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