sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Até quando...

Não sei até quando, Deus me vai continuar a dar a mão…
Não sei até quando vou poder contar com a Sua doce protecção. Até quando vou poder insistir em cometer os mesmos erros, sem aprender, sem me emendar e mesmo assim ter Deus á minha espera, para me perdoar.
De cada vez que erro, de cada vez que magoo alguém, que me magoo, que desiludo aqueles a quem só devia dar alegrias, de cada uma dessas vezes, choro e bato no peito, descabelo-me e juro solenemente que nunca mais… nunca, nunca mais! E Deus acredita em mim. E Deus dá-me uma nova oportunidade, uma nova chance de fazer melhor, de concertar os estragos. Deus apaga da mente das pessoas as minhas maldades, lava com sabão do Céu as minhas asneiras, dá-me de novo uma tela imaculada para eu recomeçar. Deus põe nos lábios das pessoas a quem magoo, um sorriso aberto e pronto a esquecer. E, pronto, lá vou eu e estrago tudo outra vez. Lá abro a boca para dizer a palavra cínica, o comentário irónico, a piada mordaz. Lá mostro cara feia ao que não me agrada, sem querer saber se é bom para os outros, ou não. Lá me armo eu de novo em juiz da vida e distribuo sentenças, dou opiniões, absolvo, condeno, invejo, tudo, tudo sem mais nem porquê. Aí sigo eu, na minha senda de me julgar melhor que todos, mais esperta, mais inteligente, mais espirituosa, apesar de todas as circunstâncias que o desmentem. Má, mesquinha, egoísta, dissimulada, fingida, parasita dos sentimentos alheios, sempre, sempre eu, a que depois chora e chora… Eu, a que depois se recrimina e jura melhorar. Eu, a que sofre sempre ainda mais do que aqueles a quem magoo. Eu, farrapo amarrotado de tecido ruim, retalho de uma peça defeituosa, peça de um puzzle viciado. Eu, a sem remédio, nem cura, nem absolvição.
Não sei se mereço mais que Deus confie em mim. Não sei se não está na hora de ter que responder por todos os meus disparates, todas as minhas baboseiras, todos os meus desvarios.
Não sei se não será altura de Deus me apear do colo, e me deixar no chão, para magoar os pés nos pedregulhos do caminho.

Tive saudades do meu periquito

Tive saudades do meu periquito, e fui buscá-lo à rua.
Aqui há dias, cansada do barulho ensurdecedor que ele fazia, na cozinha, pu-lo, junto aos outros passarinhos, no quintal. Ele lá ficou, caladinho e murcho, pendurado entre duas gaiolas, a espreitar a medo para os novos vizinhos. Não o ouvi fazer mais barulho, nem o vi a brincar com o sino dele, ficava simplesmente ali, calado, como quem espera…
Em casa, na cozinha, reinou o silêncio e a ordem. Nada de gritaria de madrugada, nada de restos de alpista a precisarem de ser varridos a toda a hora, nada de salpicos de água no espelho, nada de nada. Nada mesmo. Tudo em paz!
Mas, sempre que passava em frente ao sítio que tinha sido da gaiola dele, enchia-me de tristeza. Lembrava-me que ele brincava com o sino de plástico, que ele gostava de se ver no espelho da cozinha por trás da gaiola, que se deixava agarrar na mão, cantarolava e quase assobiava quando ouvia certos barulhos engraçados… Lembrava-me de como ele dava voltas sobre ele próprio e de como fazia acrobacias no poleiro, sempre que nos aproximávamos. Como ele se punha em “posição de combate”, quando o meu filho brincava com ele, pelas grades da gaiola…
Que são afinal uns barulhos mais irritantes, em comparação com tantas coisas lindas? Que importância tem se o periquito irrompe a gritar nas alturas mais inapropriadas? Que mal fazem umas poucas de cascas de alpista espalhadas por cima do armário e pelo chão? Umas quantas de penas esverdeadas a voarem, de vez em quando, quando ele se abana e se sacode? Qual o peso desses inconvenientes, se os comparar com a alegria que dá, só o olhar para ele, todo lindo, a prestar atenção ao que o rodeia? Se os comparar com o bom que é, quando abro a porta, olhar e vê-lo como que a saudar-me, com os seus maneios desajeitados? Não há comparação possível!
O coração ganhou á razão, e fui buscá-lo à rua. Está de novo no seu lugar de sempre, com o espelho por detrás, a ouvir atentamente a televisão e a gritar de vez em quando. É lá que deve estar, é lá que vai ficar!
Porque nem sempre o que parece fazer mais sentido, é o mais certo para fazermos. Nem sempre é melhor ter menos trabalho, nem fazer o que nos facilita a vida. Às vezes, somos mais felizes, se seguirmos a voz do coração, e nos rodearmos das coisas que nos fazem bem à alma, mesmo que tenhamos que ouvir alguns gritos de vez em quando, ou varrer cascas de alpista do chão.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cor-de-laranja

Cor de laranja, é a cor que me vem sempre à memória, quando me lembro da minha terra. O sol de lá brilhava tanto, era tão lindo! O céu, aquele nosso céu, tinha um azulão forte e gostoso. O calor fazia o alcatrão peganhento debaixo das sandálias, ou dos chinelos abertos. As trovoadas eram fortes como ralhetes de um Deus enraivecido. E os relâmpagos? Que coisa mais linda! Cruzavam a noite dos céus como faíscas de luz, iluminavam as estradas, os campos, entravam pelas vidraças adentro! A chuva torrencial que caía sem piedade por sobre todas as coisas, e por sobre todas as pessoas, lavando a jacto as poeiras, as maleitas, as moscas. Mas o mais espantoso eram as noites!… Quem nunca viu uma noite tropical, não sabe o que é um céu estrelado. Estrelado a sério. As estrelas eram tantas, mas tantas, que quase tapavam o negro aveludado do céu. Eu ficava, pela varanda da sala, a olhar em adoração aquele espectáculo tão belo! Já para não falar nas acácias. As acácias eram uma coisa! De ambos os lados dos passeios, nas ruas, acácias floridas, vermelhas como sangue. Era simplesmente divinal, a sombra, a frescura dos ramos, o aroma das flores, o silêncio do calor! Ai, que saudades!
Quem morará hoje no prédio onde vivíamos? No “barra de sabão”, tão alto e esbelto, com os seus quinze andares orgulhosos? Quem serão as crianças que frequentam a escola que eu frequentava? Que riem nos recreios aonde eu ri, que trepam os muros virados para a padaria, como eu trepava? E o edifício das Finanças? Quem lá trabalhará agora? Quem se sentará na secretária que era do meu pai, quem escreverá nos velhos livros de contas e balanços, em que ele escrevia? Quem atravessará aqueles corredores imensos, cheios de eco e de sombras, como os viam os meus olhos de pequenita? Os eucaliptos, as palmeiras, a avenida marginal, com bancos de pedra, com o mar ao fundo… Bem, o mar era outra beleza sem igual! Ao fundo de cada rua, víamos sempre o mar, azul, lindo, tão lindo! O mar como uma certeza de que estávamos em casa. A praia, com o mar tão baixo que nos dava pelos tornozelos. Podíamos andar, andar, caminhar mar dentro, que a água não subia além dos tornozelos.
Falo, escrevo, vejo e penso tudo isto, com os olhos cheios de lágrimas, com o peito a estalar de saudades! Minha querida e distante terra cor-de-laranja! Quantos anos se passaram desde que entrei naquele avião! Nunca mais, nunca mais voltei. E o meu pai morreu sem voltar. E a minha mãe morreu sem voltar. Todos mortos, tios, tias, todos perdidos, espalhados, esquecidos… Que saudades, meu Deus, que saudades!
Será ainda da mesma cor, a minha terra? Reconhecer-me-ia se lá voltasse? Abraçar-me-ia com o mesma à-vontade de antes? Seria ainda minha, ou negar-me-ia? Tantos anos! É possível, que já não me conheça. É possível que se tenha esquecido de mim, e dos meus sonhos, e das minhas ilusões e medos. É possível que me negue a entrada e me vire as costas. Se assim for, então é bem melhor que eu não vá. É bem melhor que ela continue, para sempre a viver nas minhas recordações, e nas minhas saudades. É bem melhor que fique para sempre comigo, minha querida e saudosa terra cor-de-laranja!…

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Vi-me ao espelho

Ontem vi-me ao espelho, e encontrei mais uma ruga. Ainda não tinha dado conta desta. Ao lado do olho direito, fina, comprida, mais visível quando estou séria do que quando sorrio.
Os meus olhos perderam-se dentro da imagem que me fitava do outro lado do vidro brilhante. Vi, como se naquele instante, a menina pequenina e gorducha. Sempre triste com o cabelo crespo, sempre com saudades de alguma coisa ou de alguém. Depois, já maiorzinha, enredada nos conflitos próprios da escola, das melhores amigas e dos resultados das provas, da aprovação de ano, dos deveres para entregar, dos apontamentos para decorar. Ainda mais para a frente, adolescente já, toda ocupada com as músicas da moda, com as roupas que ficavam bem, com os posters de cantores, com os sapatos, os penteados. Reconheci a imagem da moça bonita, bem feita de corpo, rodeada de rapazes, de namorados, doutros que não eram namorados oficiais, mas eram quase. Sempre ás voltas com algum amor do passado, do presente, sempre atarefada a conquistar alguém, a escolher alguém. A seguir, mulher feita, jovem ainda, o trabalho, o marido, os filhos, a casa. Depois, já não tão jovem, cheia de problemas e complicações, sempre a medir forças com a vida, sempre a enfrentar algum vendaval de emoções.
Só o sorriso se manteve igual ao longo dos anos. O mesmo sorriso, franco ,aberto. O meu melhor cartão de visitas, como alguém me disse um dia. Os cabelos continuam crespos, mas muitos embranqueceram. As saudades, essas são tantas e de tantas coisas, que é já impossível descortinar aonde começam e acabam. As amigas da escola, as melhores e as assim-assim, desapareceram, perderam-se ou fui eu que me perdi delas. Tornaram-se invisíveis nos caminhos tortuosos da vida. A escola, a célebre escola, ficou tão esquecida, como esquecidas ficaram as matérias sensaboronas que aprendi. Tudo se resumiu num certificado de avaliação que tenho guardado, algures numa gaveta. As músicas que eram da moda, são hoje músicas antigas, carregadas de nostalgia e de pó. Os cantores que adorava, arrastam-se num declínio próprio de fim de carreira, numa luta constante contra o esquecimento. As roupas, que faziam os rapazes virarem a cabeça á minha passagem, as mini-saias, as blusas com decotes ousados, os calções curtos, os sapatos de salto, as calças de ganga tão apertadas que quase descosiam, tudo se esfumou como num sonho. Tudo foi sendo devidamente substituído por outras peças mais adequadas à minha idade, e ao meu respeitável estado de matrona casada e mãe de filhos. Os namorados, ah!, esses sumiram do mundo real, mas ficaram no coração e na saudade. Alguns casados, com filhos, outros submersos no mundo marginal que ameaçava as nossas juventudes incertas, outros espalhados por aqui e por ali. Anónimos, com paradeiro incerto, aborrecidos e enjoados, até aqueles mais especiais, aqueles que eram mais “a sério” do que os outros. O trabalho, o emprego, a carreira profissional, também despachados, acabados e arrumados no arquivo. O marido e os filhos, bem esses ainda andam por cá. O marido, como eu, mais velho. Como eu, com muitos sonhos a menos, muitas ilusões a menos. Os filhos mais crescidos, longe dos bebés amorosos e desprotegidos de outros tempos.
Só o sorriso é o mesmo. E foi com um sorriso que me afastei do espelho e retornei a mim mesma, mergulhando todas as que foram eu, numa só, e esquecendo as rugas por um instante.