sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cor-de-laranja

Cor de laranja, é a cor que me vem sempre à memória, quando me lembro da minha terra. O sol de lá brilhava tanto, era tão lindo! O céu, aquele nosso céu, tinha um azulão forte e gostoso. O calor fazia o alcatrão peganhento debaixo das sandálias, ou dos chinelos abertos. As trovoadas eram fortes como ralhetes de um Deus enraivecido. E os relâmpagos? Que coisa mais linda! Cruzavam a noite dos céus como faíscas de luz, iluminavam as estradas, os campos, entravam pelas vidraças adentro! A chuva torrencial que caía sem piedade por sobre todas as coisas, e por sobre todas as pessoas, lavando a jacto as poeiras, as maleitas, as moscas. Mas o mais espantoso eram as noites!… Quem nunca viu uma noite tropical, não sabe o que é um céu estrelado. Estrelado a sério. As estrelas eram tantas, mas tantas, que quase tapavam o negro aveludado do céu. Eu ficava, pela varanda da sala, a olhar em adoração aquele espectáculo tão belo! Já para não falar nas acácias. As acácias eram uma coisa! De ambos os lados dos passeios, nas ruas, acácias floridas, vermelhas como sangue. Era simplesmente divinal, a sombra, a frescura dos ramos, o aroma das flores, o silêncio do calor! Ai, que saudades!
Quem morará hoje no prédio onde vivíamos? No “barra de sabão”, tão alto e esbelto, com os seus quinze andares orgulhosos? Quem serão as crianças que frequentam a escola que eu frequentava? Que riem nos recreios aonde eu ri, que trepam os muros virados para a padaria, como eu trepava? E o edifício das Finanças? Quem lá trabalhará agora? Quem se sentará na secretária que era do meu pai, quem escreverá nos velhos livros de contas e balanços, em que ele escrevia? Quem atravessará aqueles corredores imensos, cheios de eco e de sombras, como os viam os meus olhos de pequenita? Os eucaliptos, as palmeiras, a avenida marginal, com bancos de pedra, com o mar ao fundo… Bem, o mar era outra beleza sem igual! Ao fundo de cada rua, víamos sempre o mar, azul, lindo, tão lindo! O mar como uma certeza de que estávamos em casa. A praia, com o mar tão baixo que nos dava pelos tornozelos. Podíamos andar, andar, caminhar mar dentro, que a água não subia além dos tornozelos.
Falo, escrevo, vejo e penso tudo isto, com os olhos cheios de lágrimas, com o peito a estalar de saudades! Minha querida e distante terra cor-de-laranja! Quantos anos se passaram desde que entrei naquele avião! Nunca mais, nunca mais voltei. E o meu pai morreu sem voltar. E a minha mãe morreu sem voltar. Todos mortos, tios, tias, todos perdidos, espalhados, esquecidos… Que saudades, meu Deus, que saudades!
Será ainda da mesma cor, a minha terra? Reconhecer-me-ia se lá voltasse? Abraçar-me-ia com o mesma à-vontade de antes? Seria ainda minha, ou negar-me-ia? Tantos anos! É possível, que já não me conheça. É possível que se tenha esquecido de mim, e dos meus sonhos, e das minhas ilusões e medos. É possível que me negue a entrada e me vire as costas. Se assim for, então é bem melhor que eu não vá. É bem melhor que ela continue, para sempre a viver nas minhas recordações, e nas minhas saudades. É bem melhor que fique para sempre comigo, minha querida e saudosa terra cor-de-laranja!…

2 comentários:

  1. Olá Glória! Apesar da distância e do tempo, tenho a certeza de que a sua terra cor de laranja, permanecerá eternamente essa terra cor de laranja. Espero que um dia lá possa voltar, para recordar e para fazer novas recordações. A vida renova-se, ainda que nós, em certos aspectos da nossa vida fiquemos "vidrados" num determinado local espaço-temporal. Desejo-lhe que se encontre dentro dessa terra cor de laranja, e que consiga ultrapassar a saudade e a desilusão que lhe sinto quando fala do seu passado, em relação ao presente. Aqui, ou longe, todos nós um dia tivemos uma terra cor de laranja, que é ainda o local para onde fugimos quando a nossa realidade se torna demasiado dura. É um local a que chamamos memória, e lá moram eternamente as nossas recordações.

    Um grande beijinho,

    Anabela

    ResponderEliminar
  2. Querida, eu sinto pelas suas palavras escritas, que você deve sofrer bastante com esse tempo de chuva e de frio que tem que viver ai em Portugal, pois vocês devem estar no inverno. Enquanto que onde você nasceu, tem um sol maravilhoso. É verdade que o tempo influência na personalidade das pessoas, quando acordamos com um dia de sol, o nosso humor fica melhor, ficamos animados para enfrentarmos os problemas do dia a dia. Quando chegar o verão você vai poder sair mais de casa e passear, com isso vai se sentir melhor.
    Espero que um dia você, seu marido e seus filhos possam ir na sua terra natal e matar a saudade que você tanto sente dela!!!! Bjos

    ResponderEliminar