sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tive saudades do meu periquito

Tive saudades do meu periquito, e fui buscá-lo à rua.
Aqui há dias, cansada do barulho ensurdecedor que ele fazia, na cozinha, pu-lo, junto aos outros passarinhos, no quintal. Ele lá ficou, caladinho e murcho, pendurado entre duas gaiolas, a espreitar a medo para os novos vizinhos. Não o ouvi fazer mais barulho, nem o vi a brincar com o sino dele, ficava simplesmente ali, calado, como quem espera…
Em casa, na cozinha, reinou o silêncio e a ordem. Nada de gritaria de madrugada, nada de restos de alpista a precisarem de ser varridos a toda a hora, nada de salpicos de água no espelho, nada de nada. Nada mesmo. Tudo em paz!
Mas, sempre que passava em frente ao sítio que tinha sido da gaiola dele, enchia-me de tristeza. Lembrava-me que ele brincava com o sino de plástico, que ele gostava de se ver no espelho da cozinha por trás da gaiola, que se deixava agarrar na mão, cantarolava e quase assobiava quando ouvia certos barulhos engraçados… Lembrava-me de como ele dava voltas sobre ele próprio e de como fazia acrobacias no poleiro, sempre que nos aproximávamos. Como ele se punha em “posição de combate”, quando o meu filho brincava com ele, pelas grades da gaiola…
Que são afinal uns barulhos mais irritantes, em comparação com tantas coisas lindas? Que importância tem se o periquito irrompe a gritar nas alturas mais inapropriadas? Que mal fazem umas poucas de cascas de alpista espalhadas por cima do armário e pelo chão? Umas quantas de penas esverdeadas a voarem, de vez em quando, quando ele se abana e se sacode? Qual o peso desses inconvenientes, se os comparar com a alegria que dá, só o olhar para ele, todo lindo, a prestar atenção ao que o rodeia? Se os comparar com o bom que é, quando abro a porta, olhar e vê-lo como que a saudar-me, com os seus maneios desajeitados? Não há comparação possível!
O coração ganhou á razão, e fui buscá-lo à rua. Está de novo no seu lugar de sempre, com o espelho por detrás, a ouvir atentamente a televisão e a gritar de vez em quando. É lá que deve estar, é lá que vai ficar!
Porque nem sempre o que parece fazer mais sentido, é o mais certo para fazermos. Nem sempre é melhor ter menos trabalho, nem fazer o que nos facilita a vida. Às vezes, somos mais felizes, se seguirmos a voz do coração, e nos rodearmos das coisas que nos fazem bem à alma, mesmo que tenhamos que ouvir alguns gritos de vez em quando, ou varrer cascas de alpista do chão.

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