sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Vi-me ao espelho

Ontem vi-me ao espelho, e encontrei mais uma ruga. Ainda não tinha dado conta desta. Ao lado do olho direito, fina, comprida, mais visível quando estou séria do que quando sorrio.
Os meus olhos perderam-se dentro da imagem que me fitava do outro lado do vidro brilhante. Vi, como se naquele instante, a menina pequenina e gorducha. Sempre triste com o cabelo crespo, sempre com saudades de alguma coisa ou de alguém. Depois, já maiorzinha, enredada nos conflitos próprios da escola, das melhores amigas e dos resultados das provas, da aprovação de ano, dos deveres para entregar, dos apontamentos para decorar. Ainda mais para a frente, adolescente já, toda ocupada com as músicas da moda, com as roupas que ficavam bem, com os posters de cantores, com os sapatos, os penteados. Reconheci a imagem da moça bonita, bem feita de corpo, rodeada de rapazes, de namorados, doutros que não eram namorados oficiais, mas eram quase. Sempre ás voltas com algum amor do passado, do presente, sempre atarefada a conquistar alguém, a escolher alguém. A seguir, mulher feita, jovem ainda, o trabalho, o marido, os filhos, a casa. Depois, já não tão jovem, cheia de problemas e complicações, sempre a medir forças com a vida, sempre a enfrentar algum vendaval de emoções.
Só o sorriso se manteve igual ao longo dos anos. O mesmo sorriso, franco ,aberto. O meu melhor cartão de visitas, como alguém me disse um dia. Os cabelos continuam crespos, mas muitos embranqueceram. As saudades, essas são tantas e de tantas coisas, que é já impossível descortinar aonde começam e acabam. As amigas da escola, as melhores e as assim-assim, desapareceram, perderam-se ou fui eu que me perdi delas. Tornaram-se invisíveis nos caminhos tortuosos da vida. A escola, a célebre escola, ficou tão esquecida, como esquecidas ficaram as matérias sensaboronas que aprendi. Tudo se resumiu num certificado de avaliação que tenho guardado, algures numa gaveta. As músicas que eram da moda, são hoje músicas antigas, carregadas de nostalgia e de pó. Os cantores que adorava, arrastam-se num declínio próprio de fim de carreira, numa luta constante contra o esquecimento. As roupas, que faziam os rapazes virarem a cabeça á minha passagem, as mini-saias, as blusas com decotes ousados, os calções curtos, os sapatos de salto, as calças de ganga tão apertadas que quase descosiam, tudo se esfumou como num sonho. Tudo foi sendo devidamente substituído por outras peças mais adequadas à minha idade, e ao meu respeitável estado de matrona casada e mãe de filhos. Os namorados, ah!, esses sumiram do mundo real, mas ficaram no coração e na saudade. Alguns casados, com filhos, outros submersos no mundo marginal que ameaçava as nossas juventudes incertas, outros espalhados por aqui e por ali. Anónimos, com paradeiro incerto, aborrecidos e enjoados, até aqueles mais especiais, aqueles que eram mais “a sério” do que os outros. O trabalho, o emprego, a carreira profissional, também despachados, acabados e arrumados no arquivo. O marido e os filhos, bem esses ainda andam por cá. O marido, como eu, mais velho. Como eu, com muitos sonhos a menos, muitas ilusões a menos. Os filhos mais crescidos, longe dos bebés amorosos e desprotegidos de outros tempos.
Só o sorriso é o mesmo. E foi com um sorriso que me afastei do espelho e retornei a mim mesma, mergulhando todas as que foram eu, numa só, e esquecendo as rugas por um instante.

2 comentários:

  1. Querida Glória, acho bom quando a gente consegue lembrar do passado e sente saudade, sem tentar fugir dele. As vezes deixamos de fazer algumas coisa ou nos arrependemos de ter feito outras, o que não altera em nada, pois não temos o poder de voltar no tempo. Parabéns por continuar a sorrir, apesar de ter que enfrentar vários obstáculos. Assim eles parecem mais fáceis quando se está de bom humor, não é verdade !!! Bjos. Iolanda

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  2. Gostei muito do seu blog! e espero que nunca deixe de escrever! :D
    Peço desculpa pela invasão, mas nao pude deixar de reparar que tinha "autismo" nos seus interesses!
    eu estou a desenvolver um trabalho acerca do tema e pedia-lhe ajuda (se o puder e quizer fazer ficaria-lhe muito agradecida)!
    Peço-lhe que entre em contacto comigo atraves do blog ou atraves do mail: dinhah.clarinetista@gmail.com
    A sua colaboração é muito importante para o cumprimento do meu objectivo que é ajudar os autistas em Portugal e desenvolver um bom trabalho!
    Deste já, muito obrigada pela atenção,
    Espero ansiosamente por uma resposta,
    com os melhores cumprimentos,
    Denise Zacarias

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