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A mostrar mensagens de Março, 2011

Tios, tias e primos

Sempre soube que tinha vários tios e tias, os tios de Lisboa e os de Moçambique. Sempre soube também que nenhum deles era “persona grata” em casa dos meus pais, ou simplesmente como tema das nossas conversas. Quando era bem pequenita, sabia que não era aconselhável falar de uns em frente do meu pai, de outros, em frente da minha mãe. O meu pai, por exemplo, odiava todas as irmãs da minha mãe, e por extensão todos os respectivos maridos. Da parte da minha mãe, o ódio era dirigido contra as cunhadas e acima de todos, o seu ódio de estimação contra o meu tio mais velho, o pianista, o preferido do meu pai. Cresci assim, eu e a minha irmã, andando em pezinhos de lã. Com medo de revelar a um, o que tínhamos ouvido do outro. As irmãs da minha mãe, eram como ela, lisboetas. Viviam todas na “metrópole”, como chamávamos a Lisboa, naquele tempo. Eram quatro, três casadas, uma solteirona. As do meu pai eram duas, casadas, com filhos, viviam todas perto de nós, em Moçambique. O meu tio pianista, ess…

Acredito sempre

Quando me dizem: Crê!, eu creio e quando me dizem: Vai ser!, eu espero que seja. No fundo, ainda muito do que está dentro de mim continua como sempre foi. Intocado e por desbravar, à espera. Sou incapaz de não acreditar quando alguém me promete uma coisa. Fico à espera com toda a confiança, nem me passa pela cabeça que a pessoa pode estar só a ser simpática, pode estar só a jogar o costumeiro jogo social do “fica bem dizer que sim”. Às vezes espero uma carta, às vezes um telefonema, às vezes uma foto, uma prenda atrasada de anos, uma visita que nunca acontece… Tantos anos se passaram por mim, tantos desenganos, tantas desilusões e mesmo assim, quando me prometem alguma coisa, nem me passa pela cabeça não acreditar! Depois espero e espero e volto a esperar. Primeiro com firmeza, com confiança, com a certeza que é só minha e que me vem de não conseguir deixar de acreditar. Depois, à medida que o tempo vai rolando, espero com uma certa tristeza, com um certo receio de que afinal talvez nã…

Eu já não estou aqui

Então, é porque eu já não estou aqui. E se vires pó nos meus livros, e desarrumação na minha sala, e se encontrares lágrimas secas à pressa, Então, é porque eu já não estou aqui. E se não me ouvires rir das coisas que sempre me ri, e se não me vires chorar da forma como costumo chorar, Então, é porque eu já não estou aqui. E se nascer a manhã, e eu estiver ainda a dormir, e se o dia acabar e eu não tiver pressa de partir, e se me pedires para ir contigo à aventura por essa estrada, e eu não quiser ir, Então, é porque eu já não estou aqui. E se tiveres saudades minhas, mesmo sem o sentires, e se mo disseres e eu não perceber, E se formos calados por onde gostamos tanto de ir, Então, é porque eu já não estou aqui. Despede-te de mim, que já não te posso ouvir. Deixa-me uma flor, assim como que perdida à beira do mármore, Não te esqueças de quem fui, mas não te demores a partir, Deixa-me quieta na minha paz, E não te preocupes mais comigo, Porque finalmente eu já não estou aqui.

Meu amigo

Não são da minha autoria, mas desde que ouvi estes versos, nunca mais os esqueci:                          “Todos os que me abraçaram,                            todos os que me beijaram,                            foram tantos que não sei.                            Porém, por contraste,                           Tu que nunca me beijaste,                           Tu a quem nunca abracei,                           Foste o único que ficaste                           No meu coração,                           De todos a quem amei.” Tive há muitos anos, aquilo a que se chama um amigo de verdade. Andámos juntos na escola primária, na mesma classe. Mudámos de escola e continuámos juntos no ciclo preparatório, seguimos os dois para a secundária. Nunca nos perdemos um do outro. Até mesmo quando acabámos os estudos, ainda éramos amigos. Por onde anda ele? Lembro-me que, enquanto criança, o meu sonho sempre foi ter um irmão mais velho, para me proteger dos outros miúdos, para me defender das ameaças do r…

Um avô e o neto

Estavam hoje no supermercado. Um velhinho querido, daqueles velhinhos a quem dá vontade de beijar as bochechas e fazer festas no rosto, e um jovem. O jovem estava visivelmente envergonhado com as demonstrações de carinho e afecto do velhinho. Quando chegou a altura de pagarem as compras, na caixa, o senhor de idade, disse todo orgulhoso:”- Hoje venho com o meu neto! Venho sempre sozinho, mas hoje trago o meu neto!” A senhora que registava as compras conversava animada em resposta, e o jovem resmungava: “- Não gosto de palhaçadas. Já disse que não gosto de palhaçadas.” No rosto do avô passou uma sombra, um olhar de desgosto, de tristeza. Tentou gracejar, como quem não dá importância à dureza do neto. Mas a voz embargou-se-lhe, e as palavras saíram sumidas. Pagou e saiu. À frente já tinha ido o jovem, apressado, de cara no chão, como que a fugir de uma alcateia de lobos. Saí logo atrás, com o meu carrinho de compras a rumo do meu fiel Latinhas. Passei pelo jovem que ainda esperava o avô,…