sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 14 de março de 2011

Meu amigo

Não são da minha autoria, mas desde que ouvi estes versos, nunca mais os esqueci:
                         “Todos os que me abraçaram,
                           todos os que me beijaram,
                           foram tantos que não sei.
                           Porém, por contraste,
                          Tu que nunca me beijaste,
                          Tu a quem nunca abracei,
                          Foste o único que ficaste
                          No meu coração,
                          De todos a quem amei.”
Tive há muitos anos, aquilo a que se chama um amigo de verdade. Andámos juntos na escola primária, na mesma classe. Mudámos de escola e continuámos juntos no ciclo preparatório, seguimos os dois para a secundária. Nunca nos perdemos um do outro. Até mesmo quando acabámos os estudos, ainda éramos amigos. Por onde anda ele?
Lembro-me que, enquanto criança, o meu sonho sempre foi ter um irmão mais velho, para me proteger dos outros miúdos, para me defender das ameaças do recreio da escola, para impor respeito aos mais rufias e atrevidos. Alturas houveram em que esse meu amigo me protegeu dos inevitáveis apalpões nos corredores, se pôs à frente dos que levantavam as saias ás miúdas, travou no ar os balões de água e os ovos de Carnaval dizendo sempre “Essa não, essa é minha amiga.” Era tão reconfortante ouvir isso! Era tão bom! Fazia com que a vida valesse a pena de novo! Eu que nunca tive ninguém que me defendesse, que se importasse comigo e com as minhas lutas, tinha ali, naquele rapazinho o carinho e a amizade que me faltavam.
Quando crescemos, e ficámos jovens, veio a idade dos namoros, das loucuras, a idade em que se tenta encontrar a felicidade a qualquer custo, em qualquer lugar, mesmo nos mais improváveis. Tive dezenas de namorados, nunca me perdi dele. Nunca namorei com ele. Nunca o beijei sequer. Éramos amigos. Ele assistiu sereno ao meu corrupio de amores, á minha troca incessante de par, ao meu esvoaçar desesperado contra a vidraça em busca da liberdade. Continuou meu amigo, tratou-me sempre com o mesmo respeito com que me tratara desde que nos conhecemos e eu era a melhor aluna da classe, a que ganhava prémios de aproveitamento, a que ensinava aos outros colegas as matérias mais difíceis. Sorria sempre que me via, e o seu sorriso enchia-me o coração! Nunca mais ninguém me sorriu assim! Tenho tantas saudades dele!
As únicas vezes em que fui a uma discoteca, foi com ele. Apresentava-me aos amigos, ficava perto, sempre presente, sempre carinhoso. Íamos ao café, ele vinha-me pôr a casa, a horas certas para o meu pai não ralhar. Dois beijinhos na cara, nada mais. O braço pelos ombros, nada mais. Perto dele sentia-me como uma rainha, sentia que o tempo não tinha passado e ainda éramos os mesmos garotos sonhadores de outros tempos, de bata branca e os dedos sujos de tinta.
Quando há pouco tempo, entrei para o facebook, fi-lo pensando que o podia encontrar. Há tantos anos que o procuro. Tenho tantas saudades dele, dos olhos, da linha firme do maxilar, do sorriso, do abraço, da amizade. Mais ninguém tomou conta de mim, desinteressadamente, como ele fazia. Mais ninguém se pôs entre mim e o mundo, para aparar os golpes do destino. Quem me dera encontrá-lo outra vez! Carlos, era o seu nome. Era meu amigo.

2 comentários:

  1. Tenho a certeza de que o Carlos vai aparecer e que irás chegar ao outro lado do arco-iris...
    Que bem escreves e quanta sensiblidade!
    Estou neste momento em Maputo e irei tentar mandar um foto do "tal" prédio.
    Cordiais saudações

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  2. Glória, espero que consigas encontrar o seu amigo no facebook, eu também tento achar alguns colegas da época do ginásio e do colegial, mas é dificil, pois não lembro do nome completo. Bjos.

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