sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 31 de março de 2011

Tios, tias e primos


Sempre soube que tinha vários tios e tias, os tios de Lisboa e os de Moçambique. Sempre soube também que nenhum deles era “persona grata” em casa dos meus pais, ou simplesmente como tema das nossas conversas. Quando era bem pequenita, sabia que não era aconselhável falar de uns em frente do meu pai, de outros, em frente da minha mãe.
O meu pai, por exemplo, odiava todas as irmãs da minha mãe, e por extensão todos os respectivos maridos. Da parte da minha mãe, o ódio era dirigido contra as cunhadas e acima de todos, o seu ódio de estimação contra o meu tio mais velho, o pianista, o preferido do meu pai.
Cresci assim, eu e a minha irmã, andando em pezinhos de lã. Com medo de revelar a um, o que tínhamos ouvido do outro. As irmãs da minha mãe, eram como ela, lisboetas. Viviam todas na “metrópole”, como chamávamos a Lisboa, naquele tempo. Eram quatro, três casadas, uma solteirona. As do meu pai eram duas, casadas, com filhos, viviam todas perto de nós, em Moçambique. O meu tio pianista, esse vivia em muitos lados e antes de desaparecer das nossas vidas, estava um pouco por qualquer bar onde se tocasse piano e se permitisse beber até tarde.
O porquê das desavenças, não o cheguei a saber bem. Penso que haviam ciúmes em exagero de ambas as partes. O meu pai queria a exclusividade do afecto da minha mãe. Não lhe bastava que ela tivesse largado tudo, terra, família, emprego, para se casar com ele e ir viver numa terra estranha. Queria também que ela simplesmente esquecesse qualquer coisa, ou qualquer pessoa, que não dissesse respeito a ele e à sua nova vida. Receava que as irmãs a chamassem de volta, que lhe envenenassem o espírito com intrigas de província, que a persuadissem a sair do “degredo de África” e a retomar a sua vida normal, perto da sua família civilizada.
A minha mãe vingava-se como podia. Financeiramente dependente do meu pai, sem amigos, nem conhecimentos, numa terra desconhecida, entre desconhecidos que a olhavam de lado, a ela e ás suas fatiotas europeias, e aos seus saltos altos debaixo do sol tropical, depressa descobriu que só podia contar consigo própria. Que o príncipe desconhecido não era o que ela tinha idealizado, e que o sol africano queimava mais do que ela podia aguentar. Virou as suas baterias contra as cunhadas e cunhados que a não respeitavam, que lhe corrigiam a maneira afectada de falar, que lhe ensinavam como dirigir a sua casa e como tratar os seus empregados.
De entre todos esses desafectos, um emergiu maior do que todos, mais poderoso e mais doloroso. O ódio contra o meu tio pianista. O mano querido desde sempre do meu pai. O meu pai era o mais novo, o benjamim da família. Tinha tocado viola em solteiro e junto com o irmão mais velho, tinham corrido cafés e bares, em noitadas de música, cigarros, mulheres e álcool. Mas os dois irmãos eram tão amigos que enternecia! Aprenderam a defenderem-se da vida, juntos e á parte dos outros. Eram os “outsiders” da família, como lhes chamavam.
O meu tio desapareceu um dia, pouco antes de fugirmos de Moçambique. Desapareceu simplesmente, ninguém soube mais dele, do que lhe tinha acontecido, para onde tinha ido… Há anos que ele e o meu pai não se falavam. Tive tanta pena no dia em que em segredo, um primo lhe disse, de fugida, sem a minha mãe ouvir, que o “tio” estava desaparecido. O meu pai ficou tão triste, no meio de toda a tristeza em que já andava na altura! O não se ter despedido do irmão, o ter de se ir embora sem saber o que tinha sido feito dele, se estaria vivo ou morto, a certeza de que nunca mais se veriam. Em silêncio, em segredo, sem tempo para mais buscas nem procuras, embarcámos. As minhas tias africanas também fugiram para cá. Perdemo-nos todos uns dos outros, se é que alguma vez nos tínhamos chegado a encontrar. Cada um aterrou em lugares diferentes, cada um viveu o pouco que lhe sobrou de vida de forma diferente. Nunca mais nenhum dos irmãos se falou. Do meu tio pianista, nunca mais nada se soube. Em minha casa, nem uma palavra se disse sobre ele, nem sobre o seu desaparecimento.
Na carteira do meu pai, quando morreu, estava uma fotografia antiga, desbotada, do irmão a tocar piano.
Depois dos meus pais e tios terem todos morrido, encontrei os meus primos. Procurei-os esfaimadamente por tudo o que era sítio possível. Pensava eu, que agora, sem empecilhos, seríamos amigos todos… Mas passou muito tempo, perderam-se muitas coisas que são o cimento da união familiar. Ergueram-se muitos muros de silêncio e de indiferença.
Continuamos cada um na sua vida. Separados por quase tudo e unidos por quase nada. Afinal, na verdade, família é aquela que vamos conseguindo conquistar nos caminhos da vida. Família é quem nos ama e quem nos quer bem. Todos aqueles tios e tias, primos e primas, talvez pudessem ter vindo a ser a minha família, ou talvez não ... Mas não tivemos oportunidade de experimentar, e agora, talvez nunca venhamos a saber.

2 comentários:

  1. Glória, eu também acho que familia é aquelas pessoas que a gente conquista durante o nosso dia a dia.Eu considero minha familia, aqueles que eu tenho contato, que eu visito ou que eu falo por telefone.Minha familia é pequena, pois metade está aí em Portugal, tento ter um bom relacionamento com os que moram aqui, como amo crianças tento curtir cada fase da vida dos nossos sobrinhos e do meu filhote. Beijos. Iolanda

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    1. Iolanda, desculpa... só vi agora o teu comentário, e já se passaram quase dois anos... Mas olha, nada mudou. Família de sangue continua espalhada por aí. A única mudança, feliz mudança, é que a família de coração aumentou. Desde 2011 até agora, conheci amigos novos e maravilhosos. Reencontrei amigos antigos, de há muitos anos. Ou seja, a vida, nesse aspecto, tem sido generosa para comigo.
      Beijinho grande para ti, e que continues sempre a desfrutar dos teus familiares.Os que estão no papel, e os que estão no coração:)
      Obrigada pelo teu comentário.

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