sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 1 de março de 2011

Um avô e o neto

Estavam hoje no supermercado. Um velhinho querido, daqueles velhinhos a quem dá vontade de beijar as bochechas e fazer festas no rosto, e um jovem. O jovem estava visivelmente envergonhado com as demonstrações de carinho e afecto do velhinho. Quando chegou a altura de pagarem as compras, na caixa, o senhor de idade, disse todo orgulhoso:”- Hoje venho com o meu neto! Venho sempre sozinho, mas hoje trago o meu neto!” A senhora que registava as compras conversava animada em resposta, e o jovem resmungava: “- Não gosto de palhaçadas. Já disse que não gosto de palhaçadas.” No rosto do avô passou uma sombra, um olhar de desgosto, de tristeza. Tentou gracejar, como quem não dá importância à dureza do neto. Mas a voz embargou-se-lhe, e as palavras saíram sumidas. Pagou e saiu. À frente já tinha ido o jovem, apressado, de cara no chão, como que a fugir de uma alcateia de lobos.
Saí logo atrás, com o meu carrinho de compras a rumo do meu fiel Latinhas. Passei pelo jovem que ainda esperava o avô, do lado de fora de um velho carro branco. Disse-lhe algumas palavras de incentivo a ter mais paciência com o avô, a ser mais gentil com ele, alertei-o de que não teria a sua companhia durante muitos mais anos. O rapaz ouviu-me com toda a educação, para meu espanto. Sorriu e concordou comigo. Só estava envergonhado porque o avô se metia com toda a gente e não ficava calado, todos olhavam sempre para eles aonde quer que fossem. Eu segui o meu caminho e fiquei a pensar.
Há muitos anos, muitos mesmo, também eu ia ás compras com a minha mãe. Quantas vezes chegávamos á caixa para pagar, e ela não tinha dinheiro que chegasse. Quantas vezes a deixei lá sozinha e fugi à frente para a rua, envergonhada, humilhada, revoltada com aquela mãe que não tinha dinheiro. Envergonhada com aquela mãe coberta de roupas fora de moda e desbotadas, com o cabelo mal penteado, sapatos velhos e cambados. Envergonhada com aquela mãe que todos confundiam com minha avó, e que insistia em andar pela rua de braço dado comigo, que insistia em dar-me um beijinho em frente dos meus colegas de escola. Envergonhada com aquela mãe que não era igual às outras mães, sempre bem arranjadas, bem vestidas, bem maquilhadas. Mesmo assim, ela trazia no saquinho uma qualquer goluseima para mim e para a minha irmã. Nunca deixava para trás um miminho para nós. Deixava de comprar a manteiga, ou o café, mas conservava no cestinho de compras um chocolate, umas bolachas, alguma coisa para ficarmos contentes. Ainda assim eu lhe ralhava, ainda assim eu era respondona e mal educada. Querida mãezinha de há tantos anos atrás! Cansada, velhinha sem no entanto ter idade para ser velha, desiludida e amargurada. Mas não se esquecia de nós. Sem dinheiro, sem casa, sem esperança, sem saúde, sem nada de nada. Tantos anos de um casamento infeliz, tantas ilusões esmagadas! Tão longe da rapariga linda e deslumbrante que tinha sido, tão longe da vida activa e atarefada que tinha levado em solteira. Tão longe dos sonhos e das loucas aventuras de amor que a tinham levado para África, a bordo de um avião, sozinha, casada com um desconhecido! E eu tinha vergonha dela…
Como a juventude é dura, maldosa e ridícula na sua falta de experiência! Como é fácil maltratar quem nos quer bem! Mas o pior castigo é depois, lembrarmos tudo e já ser tarde demais. Já não irmos a tempo de pedir perdão, de abraçar ou beijar aquela pessoa tão querida! É um sofrimento horrível! Espero que aquele jovem de hoje, no supermercado, não tenha que passar, um dia, daqui a muitos anos, por isso. Ter vergonha de quê? Para contentar a quem? Ao mundo? Esse mundo que continua a rodar indiferentemente, muito depois de todos nós morrermos? Esse mundo, a quem tanto queremos agradar, quando somos jovens, e que nem dá pela nossa presença, nem sente a nossa falta! Esse mundo, sei-o hoje, não vale uma só lágrima de tristeza de alguém que amamos!

2 comentários:

  1. Glória, é verdade o que você diz, infelizmente a gente só enxerga as coisas depois de uma certa idade, depois de amadurecer.Bjos.

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    1. Desculpa o atraso na resposta, Iolanda:) Já lá vão dois anos!... Só percebemos tarde demais muitas das vezes. Com os nossos filhos vai ser igual. Mas enfim... somos o que somos, talvez possamos melhorar com o tempo.
      Beijinhos, e obrigada pelo comentário

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