sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pela varanda da cozinha

A minha mãe criou-nos, a mim e à minha irmã, a espreitar a vida por detrás do muro da varanda da cozinha.
Lembro-me de que ficávamos as duas, debruçadas a olhar para o terraço do nosso prédio. Lá em baixo brincavam as outras crianças que moravam ao nosso lado, nos andares de cima, de baixo. Raparigas, rapazes, corriam, gritavam, riam, chamavam… Miúdos e miúdas das nossas idades, soltos e felizes na rua. Nós tínhamos instruções expressas de nos retirarmos para o fundo da varanda, se alguma das crianças reparasse em nós. Se levantassem os olhos para cima e nos vissem a espreitar, coisas terríveis poderiam acontecer, sendo que uma das piores era que, à noite, quando o nosso pai chegasse do trabalho, viria a saber, não sei porque que portas e travessas, que tínhamos estado à espreita. Tínhamos estado a ver os outros meninos a brincar! Outra das coisas abomináveis que poderiam acontecer, era chamarem-nos bichos do mato e ficarem a rir-se lá de baixo e a gozar connosco.
Foi há muitos anos, mas sei que ao principio, eu e a minha irmã ficávamos tristes. Não percebíamos porque é que não podíamos ir ter com os outros, não entendíamos o que havia de errado connosco. Comentávamos uma com a outra qual deles é que se calhar ia ganhar no jogo da corda, qual é que devia correr melhor no jogo da apanhada, tínhamos os nossos preferidos e apostávamos para ver qual das crianças era a mais rápida, a mais despachada, a mais esperta. “Marias-rapazes e Cavalonas”, era como a minha mãe chamava ás meninas que se atreviam a brincar com os rapazes. "Mal-educadões e brutamontes", era como chamava aos rapazes que se atreviam a brincar com as meninas. "Miúdos sem um pingo de vergonha nem propósito" eram todos eles.
Com o passar do tempo, acabámos por nos habituar. Tenho a certeza de que se a nossa mãe nos tivesse aberto a porta da rua para sairmos, já não havíamos de querer ir. Já nos custava largar o nosso posto de observação seguro e anónimo. Ficou assim estabelecida a fronteira do espaço que era para nós, e do espaço que era para todos os outros.
Ainda hoje vejo essa fronteira bem delimitada. Ainda sinto o olhar da minha mãe na nuca, a chamar-me de um sítio que não sei aonde é, a avisar-me que não me deixe ver, que não me misture, que fique escondida a observar. De vez em quando tenho uns assomos de rebeldia e revolto-me contra as instruções. De vez em quando, tento falar para os meninos que brincam lá em baixo e esforço-me para que eles me vejam, chego mesmo a desejar que eles me chamem para brincar. Quase me parece possível ser escolhida para entrar numa das equipas das corridas, dos saltos ao elástico. Mas sei bem que não sou capaz de correr tão depressa como eles correm, não sei responder com a mesma desenvoltura com que eles respondem, nem sei saltar de forma tão elástica como eles fazem. Tenho medo de cair, de esfolar os joelhos no cimento do pátio. Tenho medo que o meu pai chegue mais cedo e me veja em plena prevaricação, rindo e correndo com os outros.
E verdade seja dita, ninguém parece muito interessado na minha presença ou ausência. Verdade seja dita, e a minha mãe bem dizia, se eu estiver ou não estiver, não se nota diferença nenhuma. O mundo não pára de rodar, nada se altera ou transforma. Não é por me deixarem brincar lá em baixo que os meus cabelos embranquecem mais devagar, ou as rugas me assaltam com mais elegância. Tudo continua da mesma forma ordeira e determinada comigo, ou sem mim.
Quem sabe se no fundo eles tinham razão, a minha mãe e o meu pai? Talvez deste lado protegido da varanda se esteja melhor. Talvez seja mais seguro ver os outros meninos brincarem, felizes lá em baixo, e escondermo-nos para trás, se algum deles olhar para cima.
O pior, o pior, antes como agora, é que quando os dois nos levavam ao parque infantil, queriam que por artes mágicas fossemos capazes de brincar com todos. Queriam que fossemos alegres e extrovertidas. Achavam possível que soubéssemos como fazer para sermos aceites, achavam que ninguém ia notar que não sabíamos brincar. Antes como agora, eles e o mundo que veio depois deles, continuam a pedir demais a quem nunca teve ocasião de aprender as regras do jogo. Porque eu acho que se deviam de decidir de uma vez por todas, vamos ou ficamos? Escondemo-nos nas sombras, ou avançamos um passo para a luz? Fugimos ou arriscamos? Mas decidam-se, que assim não é maneira de se viver!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bolachas, simplesmente bolachas


Casei com dezanove anos. Ainda há pouco tempo andava na escola, preocupada com as últimas músicas, com as intriguinhas inconsequentes das melhores amigas, e agora ali estava eu, casada. Casada e a trabalhar. Um filho pequeno. Romântico, não? Não. Difícil e muito!
O meu primeiro emprego foi num museu. Não me pagavam a horas. Não me pagavam sequer todos os meses e ainda a crise financeira não tinha chegado a Portugal. Por vezes ficávamos, eu e os meus colegas de infortúnio a contar tostões até dois, três meses. Logo, não havia dinheiro para nada, sequer para comer. Porque se tinha outros colegas jovens como eu, que ainda moravam em casa dos pais, eu já tinha que me virar sozinha. Para piorar as coisas, o meu marido tinha sido convocado para a tropa. Esteve lá quinze meses, quinze meses em que o pouco dinheiro que ganhava servia apenas para pagar as passagens de barco e comboio para ir e vir. E eu, vivendo de favor em casa dos meus sogros, tendo que pagar hospedagem, tendo um filho pequenino para sustentar… Foram tempos muito complicados! Foi mais ou menos por essa altura que travei conhecimento com os pacotes de bolachas.
A minha chefe da altura, era uma boa senhora. Sempre que podia adiantava-me algum dinheiro a descontar do ordenado, quando ele aparecesse. Mas não podia pensar em gastar dinheiro precioso com almoços. Não, guardava todas as moedas que conseguia e, à hora de almoço, comprava um pacotinho de bolachas. Das mais baratas, um por dia. Eram a minha comida. Para não me transformar em motivo de conversa, para não ser alvo da piedade inútil dos colegas, inventei que tinha uma tia que morava ali perto e que insistia que eu fosse almoçar a sua casa. Então, lá ia eu. Entrava num supermercado, escolhia criteriosamente as bolachas do dia, sentava-me num banco de jardim e com uma garrafa de plástico com água, que trazia de casa, ali passava a minha hora e meia de almoço. Abria o pacote e ia tirando as bolachas, uma a uma, ensopadas em golos de água, até acabar o pacote. De Inverno era pior, devia fazer uma figura estranha, ali sentada num banco de jardim molhado, ao frio, sozinha, encolhida com as minhas preciosas bolachas e a minha garrafinha de água, a lutar contra o vento. Tentando aparentar um ar muito digno, como se fosse a coisa mais natural do mundo estar ali, perdida num jardim no meio da cidade atarefada. No Verão não custava nada, até era agradável dentro do possivel. Havia muito movimento, muitas crianças a brincar, alguns pares de namorados, os inevitáveis velhinhos com os seus jornais, o tempo passava mais depressa e ninguém reparava em mim. Essa era a parte melhor, porque nada mais odioso do que despertar curiosidade quando se está desprotegido.
Desde essa altura, nunca mais me separei das bolachas. Como-as de todos os formatos, de todos os paladares. Ainda tenho em atenção o preço e o tamanho. Talvez hoje, com quarenta e três anos, vários empregos depois, tendo desistido dos empregos a uma certa altura, não precisasse já dessas minhas amigas de antigamente, não fora o caso de sentir uma gratidão enorme por aquelas pequenas iguarias que me mataram a fome durante muito tempo. Raro é o dia em que não me sente, a ver televisão, com um pacote de bolachas no regaço, ouvindo o barulho familiar do plástico a estalar, sentindo o aroma a canela, a chocolate, a baunilha…
Quando olho para trás, para aqueles anos finais da minha juventude, tão atribulados, tão sofridos, tão cheios de sonhos e ilusões desfeitas ou impossíveis de concretizar no mundo real, lembro-me sempre delas! Lembro-me com igual afecto das redondas, quadradas, rectangulares, com passas, com cobertura.  Queridas bolachas de então, de agora e de sempre! Fieis amigas que continuam à minha espera, numa qualquer prateleira de supermercado.