sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bolachas, simplesmente bolachas


Casei com dezanove anos. Ainda há pouco tempo andava na escola, preocupada com as últimas músicas, com as intriguinhas inconsequentes das melhores amigas, e agora ali estava eu, casada. Casada e a trabalhar. Um filho pequeno. Romântico, não? Não. Difícil e muito!
O meu primeiro emprego foi num museu. Não me pagavam a horas. Não me pagavam sequer todos os meses e ainda a crise financeira não tinha chegado a Portugal. Por vezes ficávamos, eu e os meus colegas de infortúnio a contar tostões até dois, três meses. Logo, não havia dinheiro para nada, sequer para comer. Porque se tinha outros colegas jovens como eu, que ainda moravam em casa dos pais, eu já tinha que me virar sozinha. Para piorar as coisas, o meu marido tinha sido convocado para a tropa. Esteve lá quinze meses, quinze meses em que o pouco dinheiro que ganhava servia apenas para pagar as passagens de barco e comboio para ir e vir. E eu, vivendo de favor em casa dos meus sogros, tendo que pagar hospedagem, tendo um filho pequenino para sustentar… Foram tempos muito complicados! Foi mais ou menos por essa altura que travei conhecimento com os pacotes de bolachas.
A minha chefe da altura, era uma boa senhora. Sempre que podia adiantava-me algum dinheiro a descontar do ordenado, quando ele aparecesse. Mas não podia pensar em gastar dinheiro precioso com almoços. Não, guardava todas as moedas que conseguia e, à hora de almoço, comprava um pacotinho de bolachas. Das mais baratas, um por dia. Eram a minha comida. Para não me transformar em motivo de conversa, para não ser alvo da piedade inútil dos colegas, inventei que tinha uma tia que morava ali perto e que insistia que eu fosse almoçar a sua casa. Então, lá ia eu. Entrava num supermercado, escolhia criteriosamente as bolachas do dia, sentava-me num banco de jardim e com uma garrafa de plástico com água, que trazia de casa, ali passava a minha hora e meia de almoço. Abria o pacote e ia tirando as bolachas, uma a uma, ensopadas em golos de água, até acabar o pacote. De Inverno era pior, devia fazer uma figura estranha, ali sentada num banco de jardim molhado, ao frio, sozinha, encolhida com as minhas preciosas bolachas e a minha garrafinha de água, a lutar contra o vento. Tentando aparentar um ar muito digno, como se fosse a coisa mais natural do mundo estar ali, perdida num jardim no meio da cidade atarefada. No Verão não custava nada, até era agradável dentro do possivel. Havia muito movimento, muitas crianças a brincar, alguns pares de namorados, os inevitáveis velhinhos com os seus jornais, o tempo passava mais depressa e ninguém reparava em mim. Essa era a parte melhor, porque nada mais odioso do que despertar curiosidade quando se está desprotegido.
Desde essa altura, nunca mais me separei das bolachas. Como-as de todos os formatos, de todos os paladares. Ainda tenho em atenção o preço e o tamanho. Talvez hoje, com quarenta e três anos, vários empregos depois, tendo desistido dos empregos a uma certa altura, não precisasse já dessas minhas amigas de antigamente, não fora o caso de sentir uma gratidão enorme por aquelas pequenas iguarias que me mataram a fome durante muito tempo. Raro é o dia em que não me sente, a ver televisão, com um pacote de bolachas no regaço, ouvindo o barulho familiar do plástico a estalar, sentindo o aroma a canela, a chocolate, a baunilha…
Quando olho para trás, para aqueles anos finais da minha juventude, tão atribulados, tão sofridos, tão cheios de sonhos e ilusões desfeitas ou impossíveis de concretizar no mundo real, lembro-me sempre delas! Lembro-me com igual afecto das redondas, quadradas, rectangulares, com passas, com cobertura.  Queridas bolachas de então, de agora e de sempre! Fieis amigas que continuam à minha espera, numa qualquer prateleira de supermercado.

3 comentários:

  1. Glória, que história triste e tão real, não é fácil superar essas coisas, mas nada como um dia após o outro, hoje em dia você lembra dessa época e sente que as coisas melhoraram, que foi apenas uma fase na sua vida.Que Deus ilume seu caminho ao lado de seus familiares. Beijos. Iolanda

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  2. Querida amiga:
    Ainda estou viva, mas tão distante da cidade, estou aqui perdida no meio de uma fazenda tendo por vizinhos bois, cavalos e vacas apartada dos filhos,pois cada qual ficou em um canto da cidade grande, estou a correr atrás de documentos que não se desentranham nunca, por esse motivo até hoje não pude mandar o seu livro, pois o seu endereço, salvei-o em uma pasta do meu computador q agora está encostado dentro de uma das caixas de mudança.Aqui onde estou é maravilhosa a paisagem bucólica, mas um pouco triste por estar longe de todos, interessante, criamos os filhos, para depois deles nos apartarmos como pessoas estranhas, é a vida! Sempre q vou a uma lan house, agora com menos frequência, leio seus textos maravilhosos, textos q agora no momento estou impossibilitada de postar, mas aguardo ansiosamente que tudo isto acabe em breve e eu volte para a rotina de minha vida. Ainda outro dia desses, eu li todos os seus textos e mandei um comentário, só que qdo postei ele não saiu,assim estou hoje aqui na casa do meu irmão e da Iolanda e aproveito para te mandar este recado: seus textos continuam lindos como sempre, vc é uma artista nata. Muitos bjs e abraços a vc e aos seus. Te desejo toda a felicidade do mundo q vc merece.Cristina.

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  3. Olá Cristina,
    Mandei-lhe um mail. Obrigada pelos comentários.
    Fique bem, tudo passa e além disso a Cristina deve de estar a viver num sítio lindo!!! Aproveite, descanse e tente aproveitar ao máximo.
    Feliz Páscoa. Muitos beijinhos da amiga,
    Glória

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