sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 31 de maio de 2011

Mon Fils

Mon fils, para quem não saiba, ou para quem já tenha esquecido, quer dizer "meu filho", em francês.
Mon-fils era o nome do cão do meu pai, quando vivemos por uns tempos no Niassa, na altura uma das províncias de Moçambique. O cão era um gigante, um colosso feito de músculos, carne e dentes, muito dentes. Pertencia a uma raça pouco conhecida de cães africanos, os "Leões do Niassa". Pelo seu porte majestoso, pelo tamanho e pela força, haviam pessoas que diziam que estes cães provinham de um antigo cruzamento entre cadelas de grande porte e leões. Provavelmente não passava de folclore popular, mas, em todo o caso, o Mon-fils era um cão de meter respeito.
Foi por causa dele que pela primeira vez senti a pontada da revolta contra a injustiça, que pela primeira vez senti despontar a dúvida sobre a sanidade mental daqueles a quem se devia respeitar e, naqueles tempos, na África colonial, temer.
Na altura, vivíamos numa casa térrea, enorme e arejada. Em volta da casa não havia nenhuma cerca propriamente dita. Os campos e as terras, o mato e o capim circundantes eram quase como que parte integrante do nosso quintal. Ou seja, o nosso quintal era do tamanho da selva que espreitava em volta e quase ninguém passava por lá perto. Por essa razão, e porque o meu pai sempre foi contra o prenderem-se os animais pelo pescoço ou dentro de jaulas de rede, o Mon-fils andava solto e à vontade por onde lhe apetecesse. Era o senhor incontestado de todo aquele mato, e os poucos vizinhos, afastados léguas de nós, sabiam por instinto que era melhor manterem-se afastados da nossa casa, se queriam continuar no pleno uso das suas canelas.
Porém, naquela tarde, um nativo, um negro, ainda novo e robusto ousou atravessar o caminho. Estávamos dentro da casa, a almoçar, um daqueles almoços africanos, que se arrastavam pela tarde, entre conversas e pratos de comida, quando gritos aflitivos nos fizeram correr para fora. Junto a uma das enormes árvores, estava o Mon-fils a ladrar, a rosnar com os seus temíveis dentes descobertos num esgar de raiva e de ódio, tentando desesperadamente trepar pelo tronco acima, numa chuva de lascas de madeira, baba e terra. Lá de cima vinham os gritos: "-Socorro, socorro! Patrão, tira daqui! Já morreu! Nosso já morreu!" O meu pai desesperado tratou de empurrar o cão o melhor que pôde para dentro de casa e apressou-se a fazer descer o homem, que continuava na árvore, gritando e gemendo. Quando finalmente, e com a ajuda de alguns amigos que estavam no almoço, conseguiram colocar o agredido no chão, vimos todos, horrorizados, uma enorme mancha de sangue que se espalhava ameaçadora mente pelo traseiro do homem, ensopando as calças e começando a alastrar pela perna toda. O cão tinha-lhe dilacerado parte de uma das nádegas. As dores que o homem sentia deviam ser horríveis, excruciantes mesmo! Entre todos, levaram-no para o posto médico mais perto. Nós, eu e a minha mãe e as outras mulheres, ficámos para trás, em aflição, temendo as naturais consequências de tão cruel ataque.
Já era de noite quando o meu pai voltou. Do posto médico, depois de desinfectadas as feridas, feitos os curativos, dados os pontos, enfim, depois de estar despachado o que clinicamente era possível fazer-se numa situação daquelas, tinham seguido todos para a esquadra da policia. Era necessário dar conta da ocorrência ás autoridades. Nesta altura da história, a minha mãe aflita perguntou: "-E que disseram? O que é que os policias disseram?" O meu pai contou, para espanto de todos, do meu pai inclusive, que o chefe da policia presente na altura, mandara dar palmatoadas no negro por este ter passado em terrenos privados e ter tentado com certeza assaltar a casa daquele senhor tão piedoso, que ainda por cima o tinha levado ao médico.
Era assim naquele tempo. E não devia ser assim. Estava tudo errado. Anos mais tarde, depois da independência, quando os negros começaram a massacrar e a chacinar brancos por tudo o que era lado, lembrei-me muitas vezes daquele homem, com a nádega quase arrancada, a levar palmatoadas no posto de policia por um furto que supostamente tinha tentado levar a cabo. É desta forma cruel que por vezes se acertam as contas nas páginas da História. E é por isso que é sempre muito difícil, e perigoso, tentar encontrar a razão unicamente num dos lados da questão.
O Mon-fils, esse, continuou solto e livre, até o meu pai ser transferido para outro sítio. No dia em que partimos do Niassa, o cão apareceu morto, envenenado por baixo de uma árvore. Possivelmente, outra tentativa de acertar as contas.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Anúncio de jornal

A minha mãe conheceu o meu pai através de um anúncio de jornal. Nunca se tinham visto antes, nunca se tinham sequer falado. Um não sabia mais do outro do que pelas cartas que trocavam. A minha mãe abandonou o país dela, a família, a profissão, os amigos, e atravessou o oceano dentro de um avião, para ir ao encontro de um marido dez anos mais velho do que ela, e completamente desconhecido.
Ia em busca de um sonho, de um ideal. Ia cheia de certezas, de ilusões. Todos a desaconselharam a ir. Não houve quem não a avisasse de que "África não é para todos. Não vais aguentar aquilo! Olha as doenças, olha as febres, olha o terrorismo... Olha o que é casares assim com um homem que ninguém sabe quem é!" Mas ela não os ouviu. Estava tão convencida de que ia ser feliz! Estava tão certa de que mais cedo ou mais tarde, provaria a todos que estavam enganados! 
Chegou à que viria a ser a primeira das muitas casas deles num dia quente, a escaldar, num dia repleto de sol tropical. Não foi recebida por mais ninguém a não ser o meu pai. Foi buscá-la ao aeroporto e sós os dois, entraram numa vida nova. Sem convidados, sem festa, sem amigos, sem familiares, sem nada de nada a não ser as paredes e as mobílias.
Sós os dois, ficaram sempre, mesmo depois dos nascimentos das duas filhas. Não havia mais ninguém entre eles a não ser a multidão de esperanças frustradas, sonhos quebrados, ilusões queimadas. A minha mãe não era feliz. O meu pai muito menos. Degladiavam-se numa luta estranha de forças, influências e poderes. Afastavam-se, reaproximavam-se, mediam-se nas distâncias que os separavam e raramente se reviam nas poucas coisas que os aproximavam.
Eram tão diferentes, e no fundo tão iguais! Duas almas furiosas, primitivas, selvagens, descontroladas, sedentas de afecto, de afeição, carentes de tudo, abandonados pela vida, que fizera deles sobreviventes amargos de um naufrágio em maré-baixa.
O casamento dos meus pais durou dezassete anos, dos quais presenciei os últimos catorze. Nunca se separaram. Continuaram juntos através da guerra , da paz , da fartura e da miséria, da saúde e da doença. Continuaram juntos, pelo menos lado a lado, em todos os dias amargurados da minha meninice.
Só se separaram quando a morte assim o quis. A minha mãe foi a primeira a partir. Arrependeu-se de ter conhecido o meu pai todos os dias da sua vida de casada, pelo menos era o que dizia. Se era verdade, ou não, nunca saberei. Sei que partiu revoltada e amargurada, partiu em guerra com o mundo e com todas as pessoas que faziam parte da sua pequena e limitada vida. Sei que nunca se chegou a descobrir qual a causa da sua morte, porque a tristeza e a solidão não costumam vir nas certidões de óbito de um hospital que se preze.
O meu pai viveu quase mais vinte anos. Morreu solitário e abandonado, numa cama estranha, numa casa de desconhecidos. Perdido na idade e na doença, intoxicado de rancores, raivas e desgostos.
As enfermeiras que cuidaram da minha mãe, até ela falecer, contaram que ela tinha chamado pelo marido, antes de largar o último suspiro. A dona da casa aonde o meu pai vivia, contou que ele tinha nas mãos uma foto antiga da minha mãe e com ela morreu, bem presa entre os dedos magros e cansados.
Nunca se entenderam em vida. Nunca tiveram um pouco de paz. Infernizaram a vida de quem estava perto deles de uma forma que dificilmente se pode sequer imaginar. No entanto, na hora final, partiram um com a recordação do outro. Diz o povo que o que começa mal, tem que acabar mal. Digo eu, que por vezes o que começa mal, pode acabar menos mal, pode acabar com um sopro de esperança. Pode ser que do outro lado do tempo, lá aonde eles estão os dois agora, se tenham finalmente reconciliado e que passeiem pelas ruas de braço dado, como tantas vezes eu pedi a Deus, nos meus sonhos de menina, para acontecer. Pode ser que finalmente eles estejam em paz e que esperem, um dia, por mim à porta de casa, os dois lado a lado, como nunca fizeram. Pode ser que no final de contas a minha mãe tivesse razão, quando dizia que havia de ser feliz.

A minha melhor amiga


Há uns dias, passados quase trinta anos, falei de novo com a minha melhor amiga dos tempos de adolescente.
Fomos amigas na escola, desde o 7º até ao 9º ano. Depois ela mudou de escola, eu continuei aonde estava. Ela foi em busca de outros saberes que lhe possibilitassem tirar depois um curso superior, arranjar uma boa carreira. Eu fiquei, porque, como sempre, desde que me lembro de ter memória da minha pessoa, não sabia bem o que queria, só sabia que não queria ter matemática e que enfrentar outra vez uma escola desconhecida e um batalhão de rostos hostis, era sacrifício demais para mim.
Foi muito bom voltar a conversar com ela! Por uns breves momentos quase parecia possível voltarmos a ser aquelas duas meninas de antigamente. Falámos de tantas coisas! Falámos dos nossos primeiros amores, inocentes, platónicos, amores daqueles que se satisfaziam com um olhar, um sorriso envergonhado, que nos faziam sonhar acordadas de noite e de dia. Falámos dos nossos pais, de como ela ainda conheceu a minha mãe tirana e exigente, o meu pai de voz de trovão, com o seu fato bem engomado, engravatado e de chapéu na cabeça. Falámos dos pais dela que eu não cheguei a conhecer, porque ao contrário das minhas colegas, nunca tinha autorização para ir à casa de ninguém. Falámos dos nossos irmãos, dos antigos colegas, das nossas ruas por onde andávamos com os livros da escola presos em baixo do braço, autocarros que apanhávamos de um lado para o outro, lembranças, segredos, coscuvilhices e intrigas de amigas esquecidas, tantas, tantas lembranças!
Éramos, naquela altura, as duas muito diferentes. Ela, alta, linda, de cabelos sedosos, roupas boas e modernas. Lembro-me que ficava sempre nos primeiros lugares dos “concursos de beleza” da nossa turma. Tinha uma forma simpática de falar, de se expressar, era daquele género de pessoa que cativa logo ao primeiro olhar, e de quem depois, quanto mais se conhece, mais se gosta. Eu, pelo contrário, um patinho feio. Todas as minhas roupas eram antiquadas, escolhidas criteriosamente pela minha mãe, para que não ficasse igual a uma “ordinária”, o meu cabelo severamente embrulhado num rabo-de-cavalo preso com elásticos para não se despentear e não parecer uma “cavalona”. A minha falta de à-vontade para começar conversas, a minha timidez face a todos os obstáculos da vida, a minha constante vontade de fugir para casa; mesmo sem ter casa nenhuma para onde fugir, porque a gente quando quer fugir para casa, não é por causa das paredes e da protecção do tecto, é porque queremos correr para um abraço protector, um olhar de carinho e compreensão; tudo isso fazia com que fossemos as duas tão diferentes uma da outra como a água do vinho. Mas mesmo assim fomos as duas melhores amigas, como só o sabem ser as raparigas, na idade das promessas e dos sonhos.
A vida, implacável e impiedosa, não foi muito delicada com nenhuma de nós duas. Ambas tivemos amores e desamores, aventuras e desventuras, sabores e dissabores. Mas a minha amiga permaneceu com a mesma doçura na voz, a mesma ternura nas conversas, que tinha dantes quando falávamos horas a fio sobre tudo, e o tudo era quase nada, se bem que visto a esta distância no tempo, aquele quase nada era mesmo um tudo do tamanho do mundo. Ela permaneceu com uma vivacidade invejável e uma alegria de viver maravilhosa. Agora, como então, senti-me de novo invadir por aquela sensação de orgulho e de alegria por ter uma amiga assim como ela.
E agora que já não tenho nenhuma mãe para me escolher as roupas e me prender os cabelos, nenhum pai para me impor hora de recolher e sítios por onde andar, quem sabe se agora, na plena posse de toda a minha ridícula liberdade, conquistada e batalhada a tão duras penas, quem sabe se agora posso telefonar para ela e marcar um dia para nos encontrarmos? Quem sabe se já posso ir ter com ela à hora que for, no lugar que for, conversar durante o tempo em que houver conversa para falar? Ou quem sabe se agora, tal como dantes, não continuo a ter grilhões nos pés e correntes nas mãos? Quem sabe se, embora de outra forma, embora de outra maneira, não continuamos na mesma: ela, alta, linda, simpática, com todo o tempo do mundo, e eu, de novo sem me poder demorar, sem poder ficar mais que um pouco.
A única diferença é talvez que dantes os meus caminhos eram cheios de incógnitas, de segredos e desafios, mas todos eles iam dar a algum sítio, ainda que fosse misterioso e incerto. E agora, passados tantos anos, todos os caminhos que eu possa seguir, vão sempre dar a lugar nenhum. E todas as certezas que consegui amealhar sofregamente durante este tempo, não valem uma só das incertezas e das expectativas que eram minhas naquela altura.
A melhor amiga dos meus quinze anos… Que saudades danadas de nós duas…Meninas inocentes no principio da vida.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Se eu nascer de novo

Um dia, se eu voltar a nascer, e se for verdade, como dizem, que regressamos à vida, noutro corpo, noutro destino, não quero mais ser assim.
Não vou querer acatar ordens nem comandos de quem é tão desgovernado como eu, não vou querer fazer como esperam que eu faça só porque há muito tempo, alguém disse que tem que ser assim, não vou deixar que moldem o meu corpo e o meu espírito como massa de fazer barro na roda do oleiro.Vou-me recusar a aceitar ser morta em vida, assim desta maneira que eu sou agora, conformada e comportada, cabisbaixa e ordeira.  Hei-de descobrir a minha maneira de perseguir os sonhos que eu quiser sonhar, como eu achar que são mais bonitos de sonhar. Hei-de desbravar os meus caminhos, ou quem sabe, aprender a viver entre espinhos se preciso for,de forma a que a vida não seja um fardo, uma saca pesada e mal atada cheia de regras, leis, regulamentos, horários. Não vou voltar a desistir de concretizar planos, nem de seguir ilusões só por me dizerem que não devo sonhar assim, nem desejar assim.
Um dia, se eu voltar a nascer, vou ter a coragem de seguir pelas ruelas desconhecidas,  de me aventurar estrada fora, sem mapa, nem guia, nem sicerone, nem paladino. E vou abrir os braços ao sol, ao vento, à chuva, vou rebolar na lama se me apetecer, sujar os sapatos e descoser os vestidos. Vou correr até cair de cansaço e só me levantar quando bem me apetecer, beber em todas as fontes, tomar banho em todos os mares. Vou amar quem eu quiser, na hora que eu quiser, durante o tempo que der para ser. Vou  dar a mão e o abraço, o afecto e a amizade, o amor e a paixão a quem for de minha vontade. Vou ser capaz de fazer finca-pé com quem me quiser demover de correr riscos, e vou virar a cara a quem me prometer o mundo numa bandeja para melhor me prender e dominar.
Um dia, se eu voltar a nascer, vou preferir sentir a boca cortada pelo freio apertado, os flancos rasgados pelas esporas impiedosas, a desistir de cavalgar solta na pradaria. Porque pelo menos assim, vou ter a certeza de que não sou domesticada e nenhum cavaleiro, por mais andante que seja,  me consegue pôr a sela e conduzir a passo miúdo por um caminho que não era o que eu queria escolher para mim.
Porque não há segurança, nem estabilidade, nem nada neste mundo que valha um só dia de liberdade. E porque ninguém dá nada a ninguém de graça. Ás vezes paga-se o preço de uma vida. Ás vezes dá-se a vida em troca de um preço. Ás vezes o preço não vale a nossa vida. Mas um dia, se eu nascer de novo, não quero mais ser assim.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Não chamusquei as barbas...

Sempre me disseram para ter cuidado com as más companhias. Fui muito bem avisada e muito bem instruída, desde o berço, acho eu, para manter uma distância considerável daqueles a quem chamavam "maus elementos". Desde os meus quinze anos até aos meus dezoito, dezanove anos, estive cercada por essas ditas más companhias, e foi bom demais!
O nosso grupo não devia exceder os dez elementos. Falo dos fixos, daqueles que marcavam ponto todos os dias. Depois haviam os simpatizantes, que iam e vinham apareciam e desapareciam ao sabor do vento e das marés.
Lembro-me perfeitamente do B..., descarado, atrevido, reguila. Não era simplesmente capaz de proferir uma frase, sem dizer uma asneira. Todos os substantivos dele eram adjectivados por um forte palavrão, "de fazer corar carroceiros", como diria o meu pai. Era muito engraçado, sempre a contar anedotas, a dizer gracinhas. Escanzelado e magricelas, mal penteado e pior vestido, mas amigo do seu amigo, companheiro e à sua maneira peculiar, "fiel" a quem o tratava bem.
O C... A..., que foi primeiro namorado da minha irmã, antes de reparar em mim e provocar a primeira zanga séria entre nós duas. Com ares de conquistador, voz grave, olhos entornados, sorriso aberto. Envergonhado ás vezes, simples e melancólico a maior parte do tempo. Bonito, não sei bem se bonito, se com aquela outra coisa que fazia com que as raparigas olhassem duas vezes para ele. Especial, pronto, especial e diferente.
O P..., de alcunha "cigano", cabelos compridos, cara de menino, maneiras infantis. Conversas simples, cheio de sonhos e planos, olhar perdido sempre nalgum plano lá mais à frente. Corpo esguio e flexível, movimentos elásticos, arraçado de bode montanhês e galgo campeão. Ninguém era capaz de lhe ganhar nas corridas de bicicletas.
O Z..., terrível e temido. Com tatuagens ameaçadoras no rosto, nos braços. Um passado escuro e proibido. Braços grossos como toneis, cabelos ruivos de rato dos canos. Sempre a cuidar de não deixar esmorecer a sua fama de perigoso, sempre a conspirar e a maquinar ideias escusas, que nunca passavam disso mesmo, ideias só. Que estava sempre pronto a dar uma mão aos mais novos, a ficar para trás para esperar por quem se atrasasse.
O M..., irmão mais velho do A..., cabelos lisos como os de um índio pele-vermelha, pele oleosa e brilhante. Animado, bem disposto, brincalhão, de movimentos rápidos e inesperados.
E ainda o D..., o P.... meu primeiro namorado a sério, o G... com a sua moto barulhenta... Mais alguns de quem agora não me lembro.
No fundo, no fundo, não traziam grande dano à sociedade. Os males que faziam eram muito mais contra eles próprios do que contra os outros. Mas eram olhados de lado, com medo e suspeitas. É verdade que entre eles se consumiam coisas que não ficava bem consumir, se praticavam acções que não eram bonitas de se praticar, se ganhava dinheiro de formas que não eram lícitas de ganhar. Mas nunca me incitaram a fumar um mísero cigarro sequer. Nunca me desafiaram a fazer nada proibido, a quebrar nenhuma regra. Nunca me impuseram condições para fazer parte deles. Aceitaram-me como eu era, cheia de complicações, inseguranças, medos e ansiedades. Ofereceram-me o que tinham de melhor: a sua amizade desinteressada, o seu companheirismo. Deixavam-me contrariar os seus planos, meter o bedelho nas suas tramoias. Ouviam-me e ficavam em silêncio quando eu precisava que ficassem. Confiavam em mim. Deram-me a sensação de segurança e de pertencer a algum lado, como eu nunca tinha tido até então.
De vez em quando tenho noticias deles. Muitos dos que simplesmente conhecíamos, ou que acompanhavam connosco, morreram. A droga levou alguns, a doença levou outros. Todos da minha idade, outros pouco mais velhos. Os que sobraram, estão espalhados por aí, em sítios incertos, tão incertos como era incerta a nossa juventude.
Nunca me fizeram mal, nunca me tiraram nada. Protegeram-me e cerraram fileiras em volta de mim, quando precisei. Passaram pela minha vida e deixaram uma marca bonita. Gosto muito de ter as lembranças que tenho, quando penso neles. Gosto de guardar comigo esta recordação picante e atrevida de ter tido um grupo de amigos tão diferentes e tão marginais à sociedade. Nem sempre os perigos reais estão nas companhias que temos. Muitas das vezes são mais de recear os perigos que espreitam dentro de nós, do que aqueles que nos podem chegar através daqueles com quem acompanhamos. Eu sei disso, porque passei pelo inferno e não chamusquei as barbas.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Olhos verdes, caracois ruivos e brincalhões

Eu tinha-lhe dado a alma, se ele ma tivesse pedido. Mas desconfio bem que a minha alma, não fosse o que mais lhe interessava durante aquele tempo que durou o nosso namoro.
Era alto, bem constituido, ombros largos, peito aconchegante, ruivo, olhos verdes luminosos. Tinha uns caracois brincalhões que lhe bailavam à frente dos olhos travessos. O rosto um pouco sardento, uma boca linda! Era o rapaz mais bonito que eu conhecia! Além do mais bonito, era o que tinha mais charme, estilo, palavra sempre pronta na ponta da lingua... Sabia abraçar tão bem! Bem, sabia outras coisas que agora não são necessárias contar. Todas as minhas colegas da secundária se mordiam de inveja, quando ele me vinha buscar à escola. A moto encostada de lado, os capacetes pendurados displicentemente. Blusão de ganga desbotado, um sorriso malandro. Sentado à espera, cigarro na boca, semblante despreocupado de quem se sabe admirado e consegue lidar muito bem com isso.
Eu tinha dezassete anos, ele vinte e quatro. O que eu gostava dele! Pensava muitas vezes que bem teria feito na minha curta vida, para que um rapaz como aquele, lindo, cheio de raparigas à volta, se tivesse interessado por mim! Eu, que ainda há pouco tempo era uma patinha feia, gorducha, sem formas, desageitada... Ele podia ter qualquer uma que quisesse, mas escolheu-me a mim e isso enchia-me de orgulho. Eu bem sabia da concorrência que havia e era muita. Não só rapariguinhas como eu, mas mulheres já feitas, independentes, modernas e liberadas, muitas pareciam estar dispostas a partilhar os seus afectos com ele. Sem dúvida, podia pedir-me o que quisesse. Estava disposta a pagar o preço que fosse preciso, se preço houvesse a pagar, para poder continuar a ter a meu lado aquele rapaz lindo e apetitoso.
Andei com ele quase dois anos. "Só?" Dirão alguns. "Tanto!" Digo eu. Naquela altura, na altura da minha juventude, agora não sei como é, namoro que passasse os quinze dias era já um namoro com fortes probabilidades de se tranformar em "coisa séria". Quanto mais dois anos! Foram os dois anos mais loucos da minha vida! Os que deixaram mais saudades! Os mais insensatos, saborosos, despreocupados, atrevidos, selvagens! Com ele aprendi que a liberdade não é só o podermos sair e entrar ás horas que queremos, como eu julgava até então. É também poder pensar o que queremos, sentir o que queremos, fazer o que queremos, sem planos, sem cobranças, sem contrapartidas. Liberdade é termos o poder de escolher viver agora, e não amanhã. è podermos sentir o sol na pele, o calor no rosto, a chuva nos cabelos. Sem culpa, sem medo.  Íamos a todos os lados juntos, viamos tudo o que havia para ver, faziamos tudo o que havia para fazer, passeávamos, namorávamos, saboreávamos o prazer de simplesmente estar com alguém de quem gostávamos. Não importava se era para sempre, se era para só mais um dia. Era naquela altura, e só isso justificava tudo.
Depois fomos ficando mais distantes. Eu obrigada a escolher um rumo na vida, um caminho. Obrigada a pôr de lado as minhas loucuras e os meus desejos. Ele, sempre o mesmo rapaz livre e solto, sem necessidade de âncora, nem de alicerces. Ele livre, belo, solto, eu, presa na minha realidade patética e complicada.
Quando ele me pediu para ficar, naquele fim de tarde fria e chuvosa, eu não fiz como costumava. Não me atirei para o seu abraço e mandei o mundo ás urtigas. Não tive coragem de lutar nem de resistir. Fui-me simplesmente embora, cobardemente, devagarinho, os olhos cheios de lágrimas perante a perplexidade confusa dele. Não podia, não podia continuar a viver só de fantasias e de sonhos. Ele ainda me disse que se um dia precisasse dele, sabia aonde o encontrar, que tudo podia empre voltar a ser como sempre tinha sido, que o meu lugar estaria sempre guardado, acontecesse o que acontecesse, viesse quem viesse depois de mim.
Nunca mais o vi desde aquela tarde. Quando penso que agora ele tem cinquenta anos, mal consigo acreditar... Como estará, aonde, com quem? Quem acariciará aqueles caracois ruivos e sedosos que eram tão meus? Quem ganhou o direito de chamar "seu" àquele abraço forte, áquele beijo quente? Quem teve a coragem que eu não tive e ficou quando eu me vim embora? Quem acorda com aqueles  olhos verdes, tão verdes, ao lado? A quem é que ele ama e quer agora? E se ele ainda se lembrasse de mim?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Jacob

Jacob era o nome de um amigo que tive, por volta de 1986. O Jacob era judeu, hippie, tocador de viola, adepto da meditação. Era sem dúvida de todos os meus amigos, o mais intrigante e surpreendente. Devia ter mais uns dez anos do que eu.
Tinha um temperamento calmo, como as águas de um rio manso. Um sorriso franco e sincero, vindo da alma e não apenas dos lábios. Os cabelos e a barba, que usava ambos compridos, eram de um tom dourado-mel a condizer com os olhos castanhos mais doces que já encontrei.
Quando chegávamos de manhã, eu, as minhas amigas e amigos, já ele estava lá, na Mata, que era o nosso refúgio certo nas férias de Verão. Acompanhado com o seu violão, os cabelos a esvoaçarem ao vento, tocava, cantava, não percebia, ou não se importava com as ironias que os outros faziam acerca da sua bondade, da sua disponibilidade para partilhar tudo com todos, cigarros, cerveja, o que quer que tivesse e alguém ambicionasse.
O que eu adorava ouvi-lo falar! Sabia tantas coisas, de países distantes, de costumes diferentes, tinha viajado imenso, de boleia, com a mochila ás costas, sem um tostão no bolso, mas sempre armado com o seu sorriso doce e o seu violão. As conversas dele eram diferentes em tudo das conversas a que eu estava habituada entre o meu grupo de amigos, que se compunham geralmente por mais disparates e palavrões do que por palavras acertadas e coerentes.
Lembro-me que nos sentávamos os dois, eu e ele, numa das mesas da esplanada, com o sol a brilhar por cima de nós, dois copos de alguma bebida fresca, e conversávamos sobre o mundo. Tudo o que eu lhe perguntava ele sabia, e tudo o que ele sabia eram coisas que me interessavam. Boas tardes e manhãs aquelas...
Os outros não percebiam para que é que eu queria acompanhar com um tipo tão esquisito, com roupas largas e floridas, sempre por barbear, sempre com um olhar perdido na distância, sempre com um sorriso tolo no rosto. "Se nem sequer são namorados, não curtem nem nada..." replicavam intrigados.
Mas eu adorava o meu amigo Jacob. A calma, a beleza do todo nas feições, a boa educação, a sabedoria, o requinte nas maneiras, até os momentos em que se calava e ficava como que hipnotizado, olhando o nada, com um ar extasiado.
Era o meu hippie, o único amigo que não me tentava namorar, nem agarrar, nem espreitar disfarçadamente por cima do meu decote. É verdade que dávamos as mãos, é verdade que ele me passava o braço pelos ombros, mas isso era tudo o que ele queria de mim. O mesmo que eu queria dele: amizade, companheirismo, um porto seguro para as atribulações da vida Parecia divertir-se imenso com as palermices que os outros faziam e diziam, como se todos estivessem a jogar um jogo antigo que a ele já não interessava.
Um dia, o Jacob não apareceu pela manhãzinha. Perguntei por ele e ninguém sabia. Achei estranho. A Mata não foi a mesma sem a sua música, sem as suas conversas, sem o brilho sossegado dos seus olhos quando me via. Depois chegou a noticia. Terrível e inesperada. O meu Jacob, o meu amigo baladeiro tinha morrido na noite passada. No meu grupo contava-se como tinham sido os últimos momentos dele. Tinha-se posto a andar pela linha do comboio fora, como se fosse para mais uma das suas viagens de pé-descalço pelo mundo. O comboio veio por trás, ele andava calmamente como se não o ouvisse. Alguém lhe gritou que tivesse cuidado, que vinha lá o comboio, que fugisse! Mas ele não ligou, encolheu os ombros, olhou para a pessoa e sorriu. Continuou a andar, até que foi apanhado pelas costas. O comboio trucidou-o. Foi um caso muito falado, lá para os nossos lados, durante todo o resto do Verão.
Saudades sem fim dele! Nunca percebi o porquê daquilo ter acontecido! Nunca me tinha dado conta de que algo de errado se passava com ele. Sempre tão calmo, tão cordato, tão tranquilo. Durante anos culpei-me pela minha cegueira e pelo meu egoísmo, por não ter entendido que não era normal um rapaz de vinte e tal anos, comportar-se daquela forma ajuizada e calma. Ele era tão perfeito, que tinha de estar alguma coisa mal com ele, era simplesmente bom demais para ser verdadeiro! Mas eu, nos meus dezasseis anos, não percebi e por isso não fui capaz de o ajudar.
Hoje, passados quase trinta anos sobre aquele Verão, entendo que existem assuntos que guardamos connosco, não por falta de confiança nos outros, mas porque simplesmente não adiantaria contá-los. Hoje, passados quase trinta anos, entendo que o meu querido amigo judeu e hippie escolheu partir deste mundo, como sempre tinha vivido nele: com o seu passo calmo, tranquilo, a caminho do desconhecido com um sorriso doce no rosto.
Aonde ele estiver, espero que esteja bem. E que saiba que nunca o esqueci, nem ao seu olhar doce, á sua voz tranquila. Quando vejo o meu filho tocar guitarra, segurar na guitarra da mesma forma como ele segurava na viola, com a cara de lado, o cabelo comprido a tapar-lhe parte do rosto, sinto sempre um arrepio. É como se qualquer coisa dele tivesse voltado e estivesse por perto.
Se ainda andas por aí, querido Jacob, adoro-te muito. Espera por mim.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O meu Deus


Deus nunca me faltou. É a verdade! O Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o Deus que está nos Céus. Mesmo que o meu Deus tenha atravessado a minha vida sob diferentes aspectos, mesmo que se tenha vindo a transformar durante todo este tempo, nunca me faltou.
Esteve comigo quando eu chorava em pequenita, porque não queria ir para a escola. Esteve comigo quando fugimos da nossa terra e viemos para cá. Esteve também comigo quando nos chamavam "exploradores de negros que vieram roubar o nosso pão", e quando os miúdos pequenos na escola primária se riam do meu cabelo encrespado e das minhas roupas pobres. E quando os anos passavam e tudo ia piorando, as ilusões iam secando, os cabelos grisalhos do meu pai iam embranquecendo mais, a minha mãe ia enlouquecendo devagarinho, como quem não tem pressa de acabar, e a realidade nos ia envolvendo com o seu abraço gelado e íamos percebendo que afinal o que nos cercava era tudo o que conseguiríamos obter para nós. Depois, quando a minha mãe morreu, Deus esteve lá comigo. Quando apanhámos o autocarro para ir dar a noticia à minha tia, e eu pequenita chorava, e ninguém reparava, e quando tive a certeza de que não havia mais ninguém no mundo, agora que ela se fora.
Deus também esteve comigo quando comecei a namorar, quando comecei a escolher, ou melhor, a não escolher as minhas companhias, a aceitar qualquer afecto que me aparecesse e que pudesse contrariar as profecias de que ninguém nunca me ia querer, de que eu era um monstro sem serventia. Deus esteve lá enquanto eu andava a estudar e faltava ao maior número de aulas que podia, e me divertia e passeava, ia aos cafés, aos cinemas, e batia as ruas num festival de decotes e mini-saias, com a cabeça nas nuvens, bem longe, muito longe dos livros e dos cadernos.
Quando fugi de casa, quando fui viver com o que hoje é meu marido, quando encontrei o primeiro emprego, quando descobri que estava grávida pela primeira vez. E como precisei de Deus nessa altura! E como chorei e arrepelei os cabelos, e gritei e gemi, e me debati contra o mundo cinzento e indiferente!
Quando o meu pai morreu, o meu herói, o meu companheiro de batatas fritas e Coca-Colas geladas, o meu contador de histórias querido! Amado e odiado em iguais partes, temido e adorado. Meu amigo triste e solitário até mesmo no fim, até na forma como morreu. Até nessa altura Deus estava lá, comigo, a segurar-me na mão e a olhar-me com amor.
Quando o diagnóstico da minha filha se confirmou, quando a tristeza desceu sobre mim como uma cortina de nevoeiro, quando os fantasmas do medo, da raiva, do desânimo saíram das suas covas e me assombraram de novo.
E ainda assim eu sei que Ele nunca me abandonou. Porque eu soube sempre encontrar forças para me erguer de novo, para continuar em frente, ou para os lados, não sei bem, mas continuar. Eu sei que Deus não me abandonou porque ainda cá estou, e ainda canto e sonho, e vibro e tenho esperanças. Apesar de tudo, continuo a existir, dia após dia, e a encontrar coragem para não parar.
E Deus continua, pacientemente, a pôr uma cenoura em frente ao meu nariz todos os dias, para me fazer andar. Ás vezes a cenoura é uma amiga antiga que se vislumbra ao longe, às vezes a cenoura é uma melhoria repentina na saúde da minha filha, um trabalho do meu marido que corre muito bem, uma carta que chega com noticias de outro mundo, um email amigo com palavras de carinho. E lá vou eu, atrás da minha cenoura do dia, de boca aberta, quase a chegar, mas sem nunca conseguir, mas sem parar, nem desistir. Esta é a maior prova de que Deus nunca me faltou. Mesmo que o meu Deus seja um Deus que não é muito comum. Porque é meu, não é aquele Deus que castiga, que vigia atentamente para punir depois, que envia almas para o inferno, nem que condena criancinhas a viver doentes, nem velhinhos a morrer sozinhos. Não, o meu Deus é especial e existe no meu mundo de sonhos e desilusões. O meu Deus é tudo o que me restou daquele tempo de infância, de juventude, é a herança perdida dos meus desejos, dos meus amores, dos meus afectos. O meu Deus é e sempre foi o meu melhor amigo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Não vás!"

Sonhei com o meu pai. Sonhei que ele estava de pé, na nossa sala de visitas. Lá, longe, na nossa terra. Estava preocupado, o semblante carregado. Nas mãos um documento qualquer, cheio de carimbos, cheio daquilo que no sonho eu sabia serem assinaturas autenticadas pelo notário, despachos alfandegários. Eram os últimos papeis para a nossa fuga, para a debandada geral, para o descalabro das nossas vidas.
No sonho eu acerquei-me dele. Conseguia falar-lhe, e ele conseguia-me ouvir, mas não me via. Não tinha noção de quem lhe falava. Era como se estivesse a ouvir a voz do seu pensamento.
Aproximei-me de mansinho e entrei na sua cabeça."-Não vás! Não vás! Rasga esses papeis! Rasga-os e desiste de tudo. Não nos leves daqui. Não vás, por favor, não vás!"
Ouvi os seus pensamentos confusos que se misturavam entre gritos de raiva e de impotência. Vi as imagens fugazes que lhe atravessavam o espírito e a horrivel certeza do "nunca mais". Nunca mais o pôr-do-sol visto da marginal, nunca mais as manhãs cedo na praia, nunca mais o Scala, nunca mais o Marialva, a Fazenda, nunca, nunca mais, nunca mais nada! Nunca mais o ter uma terra! Para sempre proscrito, para sempre fugitivo, para sempre perdido.
E eu de novo:"- Não vás papá! Por favor, não vás! Vamos sofrer tanto! Não vamos ter dinheiro para comer, não vais ter emprego durante muito tempo, a nossa casa vai ser um barracão imundo e bolorento, não vão gostar de nós na escola, ninguém nos quer por lá. Não vás, não vás!"
Ele pensava, a mão nervosa ia amachucando devagar o papel, o documento que tanto tinha custado a obter. Noites sem dormir, a marcar lugar nas filas do consulado, da embaixada. Vários outros dias de filas intermináveis, de esperas, de papeis errados, de certidões, de fotocópias, de tudo o que era infernal e nos estava a acontecer ao mesmo tempo. Ele sentia que não podia ficar, que era preciso fugir como todos os outros, colegas, vizinhos, amigos, familiares."- Porque não? Porque seria eu poupado? Todos vão. Tenho duas filhas pequenas para proteger. Uma mulher com pouca saúde. Se não for agora não poderei ir mais. A metrópole pode cancelar as viagens, podem desistir de nos repatriar, podem, podem, podem..."
No sonho, a mobilia da sala era exactamente igual á que tinhamos lá. De pau escuro, envernizada, bonita, feita para durar. Já faltavam algumas peças, outras estavam à venda. Não nos deixavam levar nada, quase nada. O meu pai e a minha mãe tinham feito a lista do que podiamos e do que não podiamos fazer embarcar. Dentro do contendor de madeira que esperava lá em baixo, no terraço do prédio, não havia espaço para muito. Também não nos era autorizado levar mais nada do que o estritamente necessário. O resto tinha que ficar, era para ser vendido ou dado, ou partido. Lembro-me do meu pai a partir vidros, louças, rádios, gravadores, com as lágrimas a escorrer pela cara. Lembro-me da minha mãe a rasgar revistas, livros, romances, a queimar cartas antigas. Lembro-me de como estávamos todos tão tristes! Vendemos o que pudemos, mas não nos deixaram trazer o dinheiro, ficou depositado para um dia, quando "quiser voltar".
Mas mesmo assim eu pedia de mansinho:"- Não vás! Não vás! A mamã vai sofrer muito, vai ficar muito doente, vai morrer no meio dos trapos amontoados e das paredes húmidas. Tu vais morrer também, só, abandonado, doente, infeliz, desgraçado! A mana vai ter uma vida tão má, tão má! E eu, eu muitas vezes te vou amaldiçoar por nos teres levado daqui, por me teres arrancado ao meu lugar, por me teres atirado para um inferno incalculável, numa terra estranha! Não vás, não vás! Desiste! Ainda vais a tempo! Por favor, não vás!"
No sonho eu sabia que os meus esforços eram inúteis. No sonho eu sentia que ele já estava resolvido e que não havia nada que eu podesse fazer, ou dizer, que o demovesse. No sonho senti que mais uma vez tinha fracassado nos meus intentos.
Quantas vezes tive esse mesmo sonho! Quantas e quantas vezes roguei ao meu pai que desistisse, que reconsiderasse, que reavaliasse. Mas sempre soube que era escusado. Já está! Já foi feito! Há muitos anos que não há nada a fazer.
Naquela altura, há trinta e tal anos, fora do sonho, quando estávamos mesmo ainda lá, quando a sala era sala a sério e não lembrança, o meu pai ficou um momento parado. Eu pequenita olhei para ele e perguntei-lhe: "- O que foi papá? Sente-se mal?" Recordo-me perfeitamente que ele me olhou a direito nos olhos e disse: "- Nada filha. Pareceu-me ter ouvido qualquer coisa. Mas foi ao longe, não deu para perceber." Era eu, não era? Era eu dali a muitos anos a tentar falar com ele. Era eu vinda do futuro a pedir-lhe para ficar em casa. Mas ele não me percebeu, não me conseguiu ouvir bem. Falhei pois. Mas vou continuar a tentar. Quem sabe um dia consigo, quem sabe um dia ele me ouve e rasga o papel, e chama a minha mãe e manda desfazer as malas? E nesse dia ficaremos os quatro na sala, rodeados do que nos restou da mobilia,  rindo e abraçados, felizes sem saber porquê! Felizes porque teremos escapado à armadilha do destino! Felizes porque se é para morrer, vale mais morrer em casa. E se é para sofrer, vale mais sofrer em casa. Lá fora há muita escuridão e faz muito frio.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

"Ela há-de casar cedo"

A minha menina… Era tão bonita! Tinha cabelos louros enroladinhos em canudos, compridos e sedosos. Olhos verdes, grandes, em bebé tinha olhos azuis, quase transparentes. A pele do rosto era rosada e sedosa. Tão linda! Sempre sorridente, sempre feliz, traquinas, desobediente, meiguinha, carinhosa, ternurenta…
As nossas vizinhas diziam que havia de casar cedo, tão linda era! No jardim infantil parecia uma bonequinha, angelical com os seus cabelos compridos, o seu riso fácil.
Depois tudo mudou. Começou a chorar, a gritar, a pedir para ficar em casa, a não querer estar sozinha. A minha princesa loura não conseguia aprender as matérias na escola, não era capaz de ler, nem escrever, nem contar. Ficou cada vez mais distanciada dos coleguinhas que iam avançando e progredindo nos estudos e nas brincadeiras. Ela ficou sempre a mesma pequenina, a mesma bebésinha sorridente. Só crescia de corpo, o espírito mantinha-se inalterado.
Tanto gritou, tanto chorou, esperneou, tanto perturbou o natural desenvolvimento da escola e da vida do mundo implacável, que a encheram de remédios. Anti psicóticos, calmantes, tranquilizantes, anti depressivos. Ela foi-se aguentando heroicamente. Ao principio não apresentava efeitos colaterais do uso de tantas drogas. Aumentou de peso, ficou com colesterol, mas continuava a mesma cara de anjo, sorridente, meiguinha.
Há pouco tempo a carinha linda da minha filha começou finalmente a apresentar mudanças. O queixinho treme-lhe, a testa enruga-se continuamente, a cara abana de um lado para o outro como se fosse uma velhinha senil. Ás vezes, quando grita ou chora, fica lá em pé, a escorrer lágrimas redondas. A carinha a abanar e a tremer no meio de uma tão grande tristeza e desolação, que tenho que a abraçar e mandar ás urtigas todas as regras de “não compensar o mau comportamento” que supostamente devia observar.
Minha querida pequenina! Será que ela se dá conta? Será que ela sente a cara a mexer, as bochechas a franzirem-se, a testa a subir e a descer? Será que sabe porquê? O que se passará na cabecinha dela? O que pensará? Estará submersa num banco de nevoeiro, desorientada, perdida? Porque grita? Porque chora? Que demónios a perseguem em todos os sítios, a todas as horas? Qual o bicho papão que saiu do armário sem darmos conta? Quais as canções de espantar-medos que lhe devia cantar? Quais os amuletos que lhe devia pôr como protecção? Quais os deuses ou entidades a quem devia acender velas? Aonde, aonde estão as respostas? Em que livro, em que consultório, em que mundo?
Minha menina tão bonita! Querida, meiguinha, carinhosa. Perdoa-me por saber tão pouco, por ser capaz de tão pouco, por te poder ajudar tão pouco. E nunca me deixes de sorrir, nunca deixes de me dar abracinhos e beijinhos, ainda que eu não os mereça lá muito e não seja de grande utilidade como mãe.
Não precisas de aprender a ler, nem a escrever, nem a fazer contas. Fica só feliz. Fica só bem. Fica em paz. Não é preciso mais nada. Num mundo mais justo isso devia bastar, num mundo mais justo ias poder ser para sempre a linda menina de canudinhos nos cabelos e traquinices prontas. Num mundo mais justo não se ia pedir ás crianças mais do que aquilo que elas podem dar.