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A mostrar mensagens de Maio, 2011

Mon Fils

Mon fils, para quem não saiba, ou para quem já tenha esquecido, quer dizer "meu filho", em francês. Mon-fils era o nome do cão do meu pai, quando vivemos por uns tempos no Niassa, na altura uma das províncias de Moçambique. O cão era um gigante, um colosso feito de músculos, carne e dentes, muito dentes. Pertencia a uma raça pouco conhecida de cães africanos, os "Leões do Niassa". Pelo seu porte majestoso, pelo tamanho e pela força, haviam pessoas que diziam que estes cães provinham de um antigo cruzamento entre cadelas de grande porte e leões. Provavelmente não passava de folclore popular, mas, em todo o caso, o Mon-fils era um cão de meter respeito. Foi por causa dele que pela primeira vez senti a pontada da revolta contra a injustiça, que pela primeira vez senti despontar a dúvida sobre a sanidade mental daqueles a quem se devia respeitar e, naqueles tempos, na África colonial, temer. Na altura, vivíamos numa casa térrea, enorme e arejada. Em volta da casa não havi…

Anúncio de jornal

A minha mãe conheceu o meu pai através de um anúncio de jornal. Nunca se tinham visto antes, nunca se tinham sequer falado. Um não sabia mais do outro do que pelas cartas que trocavam. A minha mãe abandonou o país dela, a família, a profissão, os amigos, e atravessou o oceano dentro de um avião, para ir ao encontro de um marido dez anos mais velho do que ela, e completamente desconhecido. Ia em busca de um sonho, de um ideal. Ia cheia de certezas, de ilusões. Todos a desaconselharam a ir. Não houve quem não a avisasse de que "África não é para todos. Não vais aguentar aquilo! Olha as doenças, olha as febres, olha o terrorismo... Olha o que é casares assim com um homem que ninguém sabe quem é!" Mas ela não os ouviu. Estava tão convencida de que ia ser feliz! Estava tão certa de que mais cedo ou mais tarde, provaria a todos que estavam enganados!  Chegou à que viria a ser a primeira das muitas casas deles num dia quente, a escaldar, num dia repleto de sol tropical. Não foi receb…

A minha melhor amiga

Se eu nascer de novo

Um dia, se eu voltar a nascer, e se for verdade, como dizem, que regressamos à vida, noutro corpo, noutro destino, não quero mais ser assim. Não vou querer acatar ordens nem comandos de quem é tão desgovernado como eu, não vou querer fazer como esperam que eu faça só porque há muito tempo, alguém disse que tem que ser assim, não vou deixar que moldem o meu corpo e o meu espírito como massa de fazer barro na roda do oleiro.Vou-me recusar a aceitar ser morta em vida, assim desta maneira que eu sou agora, conformada e comportada, cabisbaixa e ordeira.  Hei-de descobrir a minha maneira de perseguir os sonhos que eu quiser sonhar, como eu achar que são mais bonitos de sonhar. Hei-de desbravar os meus caminhos, ou quem sabe, aprender a viver entre espinhos se preciso for,de forma a que a vida não seja um fardo, uma saca pesada e mal atada cheia de regras, leis, regulamentos, horários. Não vou voltar a desistir de concretizar planos, nem de seguir ilusões só por me dizerem que não devo sonhar…

Não chamusquei as barbas...

Sempre me disseram para ter cuidado com as más companhias. Fui muito bem avisada e muito bem instruída, desde o berço, acho eu, para manter uma distância considerável daqueles a quem chamavam "maus elementos". Desde os meus quinze anos até aos meus dezoito, dezanove anos, estive cercada por essas ditas más companhias, e foi bom demais! O nosso grupo não devia exceder os dez elementos. Falo dos fixos, daqueles que marcavam ponto todos os dias. Depois haviam os simpatizantes, que iam e vinham apareciam e desapareciam ao sabor do vento e das marés. Lembro-me perfeitamente do B..., descarado, atrevido, reguila. Não era simplesmente capaz de proferir uma frase, sem dizer uma asneira. Todos os substantivos dele eram adjectivados por um forte palavrão, "de fazer corar carroceiros", como diria o meu pai. Era muito engraçado, sempre a contar anedotas, a dizer gracinhas. Escanzelado e magricelas, mal penteado e pior vestido, mas amigo do seu amigo, companheiro e à sua maneir…

Olhos verdes, caracois ruivos e brincalhões

Eu tinha-lhe dado a alma, se ele ma tivesse pedido. Mas desconfio bem que a minha alma, não fosse o que mais lhe interessava durante aquele tempo que durou o nosso namoro. Era alto, bem constituido, ombros largos, peito aconchegante, ruivo, olhos verdes luminosos. Tinha uns caracois brincalhões que lhe bailavam à frente dos olhos travessos. O rosto um pouco sardento, uma boca linda! Era o rapaz mais bonito que eu conhecia! Além do mais bonito, era o que tinha mais charme, estilo, palavra sempre pronta na ponta da lingua... Sabia abraçar tão bem! Bem, sabia outras coisas que agora não são necessárias contar. Todas as minhas colegas da secundária se mordiam de inveja, quando ele me vinha buscar à escola. A moto encostada de lado, os capacetes pendurados displicentemente. Blusão de ganga desbotado, um sorriso malandro. Sentado à espera, cigarro na boca, semblante despreocupado de quem se sabe admirado e consegue lidar muito bem com isso. Eu tinha dezassete anos, ele vinte e quatro. O que…

Jacob

Jacob era o nome de um amigo que tive, por volta de 1986. O Jacob era judeu, hippie, tocador de viola, adepto da meditação. Era sem dúvida de todos os meus amigos, o mais intrigante e surpreendente. Devia ter mais uns dez anos do que eu. Tinha um temperamento calmo, como as águas de um rio manso. Um sorriso franco e sincero, vindo da alma e não apenas dos lábios. Os cabelos e a barba, que usava ambos compridos, eram de um tom dourado-mel a condizer com os olhos castanhos mais doces que já encontrei.
Quando chegávamos de manhã, eu, as minhas amigas e amigos, já ele estava lá, na Mata, que era o nosso refúgio certo nas férias de Verão. Acompanhado com o seu violão, os cabelos a esvoaçarem ao vento, tocava, cantava, não percebia, ou não se importava com as ironias que os outros faziam acerca da sua bondade, da sua disponibilidade para partilhar tudo com todos, cigarros, cerveja, o que quer que tivesse e alguém ambicionasse.
O que eu adorava ouvi-lo falar! Sabia tantas coisas, de países di…

O meu Deus

Deus nunca me faltou. É a verdade! O Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o Deus que está nos Céus. Mesmo que o meu Deus tenha atravessado a minha vida sob diferentes aspectos, mesmo que se tenha vindo a transformar durante todo este tempo, nunca me faltou. Esteve comigo quando eu chorava em pequenita, porque não queria ir para a escola. Esteve comigo quando fugimos da nossa terra e viemos para cá. Esteve também comigo quando nos chamavam "exploradores de negros que vieram roubar o nosso pão", e quando os miúdos pequenos na escola primária se riam do meu cabelo encrespado e das minhas roupas pobres. E quando os anos passavam e tudo ia piorando, as ilusões iam secando, os cabelos grisalhos do meu pai iam embranquecendo mais, a minha mãe ia enlouquecendo devagarinho, como quem não tem pressa de acabar, e a realidade nos ia envolvendo com o seu abraço gelado e íamos percebendo que afinal o que nos cercava era tudo o que conseguiríamos obter para nós. Depois, qu…

"Não vás!"

Sonhei com o meu pai. Sonhei que ele estava de pé, na nossa sala de visitas. Lá, longe, na nossa terra. Estava preocupado, o semblante carregado. Nas mãos um documento qualquer, cheio de carimbos, cheio daquilo que no sonho eu sabia serem assinaturas autenticadas pelo notário, despachos alfandegários. Eram os últimos papeis para a nossa fuga, para a debandada geral, para o descalabro das nossas vidas. No sonho eu acerquei-me dele. Conseguia falar-lhe, e ele conseguia-me ouvir, mas não me via. Não tinha noção de quem lhe falava. Era como se estivesse a ouvir a voz do seu pensamento. Aproximei-me de mansinho e entrei na sua cabeça."-Não vás! Não vás! Rasga esses papeis! Rasga-os e desiste de tudo. Não nos leves daqui. Não vás, por favor, não vás!" Ouvi os seus pensamentos confusos que se misturavam entre gritos de raiva e de impotência. Vi as imagens fugazes que lhe atravessavam o espírito e a horrivel certeza do "nunca mais". Nunca mais o pôr-do-sol visto da marginal, …

"Ela há-de casar cedo"

A minha menina… Era tão bonita! Tinha cabelos louros enroladinhos em canudos, compridos e sedosos. Olhos verdes, grandes, em bebé tinha olhos azuis, quase transparentes. A pele do rosto era rosada e sedosa. Tão linda! Sempre sorridente, sempre feliz, traquinas, desobediente, meiguinha, carinhosa, ternurenta… As nossas vizinhas diziam que havia de casar cedo, tão linda era! No jardim infantil parecia uma bonequinha, angelical com os seus cabelos compridos, o seu riso fácil. Depois tudo mudou. Começou a chorar, a gritar, a pedir para ficar em casa, a não querer estar sozinha. A minha princesa loura não conseguia aprender as matérias na escola, não era capaz de ler, nem escrever, nem contar. Ficou cada vez mais distanciada dos coleguinhas que iam avançando e progredindo nos estudos e nas brincadeiras. Ela ficou sempre a mesma pequenina, a mesma bebésinha sorridente. Só crescia de corpo, o espírito mantinha-se inalterado. Tanto gritou, tanto chorou, esperneou, tanto perturbou o natural desen…