sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Anúncio de jornal

A minha mãe conheceu o meu pai através de um anúncio de jornal. Nunca se tinham visto antes, nunca se tinham sequer falado. Um não sabia mais do outro do que pelas cartas que trocavam. A minha mãe abandonou o país dela, a família, a profissão, os amigos, e atravessou o oceano dentro de um avião, para ir ao encontro de um marido dez anos mais velho do que ela, e completamente desconhecido.
Ia em busca de um sonho, de um ideal. Ia cheia de certezas, de ilusões. Todos a desaconselharam a ir. Não houve quem não a avisasse de que "África não é para todos. Não vais aguentar aquilo! Olha as doenças, olha as febres, olha o terrorismo... Olha o que é casares assim com um homem que ninguém sabe quem é!" Mas ela não os ouviu. Estava tão convencida de que ia ser feliz! Estava tão certa de que mais cedo ou mais tarde, provaria a todos que estavam enganados! 
Chegou à que viria a ser a primeira das muitas casas deles num dia quente, a escaldar, num dia repleto de sol tropical. Não foi recebida por mais ninguém a não ser o meu pai. Foi buscá-la ao aeroporto e sós os dois, entraram numa vida nova. Sem convidados, sem festa, sem amigos, sem familiares, sem nada de nada a não ser as paredes e as mobílias.
Sós os dois, ficaram sempre, mesmo depois dos nascimentos das duas filhas. Não havia mais ninguém entre eles a não ser a multidão de esperanças frustradas, sonhos quebrados, ilusões queimadas. A minha mãe não era feliz. O meu pai muito menos. Degladiavam-se numa luta estranha de forças, influências e poderes. Afastavam-se, reaproximavam-se, mediam-se nas distâncias que os separavam e raramente se reviam nas poucas coisas que os aproximavam.
Eram tão diferentes, e no fundo tão iguais! Duas almas furiosas, primitivas, selvagens, descontroladas, sedentas de afecto, de afeição, carentes de tudo, abandonados pela vida, que fizera deles sobreviventes amargos de um naufrágio em maré-baixa.
O casamento dos meus pais durou dezassete anos, dos quais presenciei os últimos catorze. Nunca se separaram. Continuaram juntos através da guerra , da paz , da fartura e da miséria, da saúde e da doença. Continuaram juntos, pelo menos lado a lado, em todos os dias amargurados da minha meninice.
Só se separaram quando a morte assim o quis. A minha mãe foi a primeira a partir. Arrependeu-se de ter conhecido o meu pai todos os dias da sua vida de casada, pelo menos era o que dizia. Se era verdade, ou não, nunca saberei. Sei que partiu revoltada e amargurada, partiu em guerra com o mundo e com todas as pessoas que faziam parte da sua pequena e limitada vida. Sei que nunca se chegou a descobrir qual a causa da sua morte, porque a tristeza e a solidão não costumam vir nas certidões de óbito de um hospital que se preze.
O meu pai viveu quase mais vinte anos. Morreu solitário e abandonado, numa cama estranha, numa casa de desconhecidos. Perdido na idade e na doença, intoxicado de rancores, raivas e desgostos.
As enfermeiras que cuidaram da minha mãe, até ela falecer, contaram que ela tinha chamado pelo marido, antes de largar o último suspiro. A dona da casa aonde o meu pai vivia, contou que ele tinha nas mãos uma foto antiga da minha mãe e com ela morreu, bem presa entre os dedos magros e cansados.
Nunca se entenderam em vida. Nunca tiveram um pouco de paz. Infernizaram a vida de quem estava perto deles de uma forma que dificilmente se pode sequer imaginar. No entanto, na hora final, partiram um com a recordação do outro. Diz o povo que o que começa mal, tem que acabar mal. Digo eu, que por vezes o que começa mal, pode acabar menos mal, pode acabar com um sopro de esperança. Pode ser que do outro lado do tempo, lá aonde eles estão os dois agora, se tenham finalmente reconciliado e que passeiem pelas ruas de braço dado, como tantas vezes eu pedi a Deus, nos meus sonhos de menina, para acontecer. Pode ser que finalmente eles estejam em paz e que esperem, um dia, por mim à porta de casa, os dois lado a lado, como nunca fizeram. Pode ser que no final de contas a minha mãe tivesse razão, quando dizia que havia de ser feliz.

2 comentários:

  1. Glória,
    Por vezes aqueles de quem mais gostamos, são aqueles que mais magoamos.
    Obrigada por mais um texto maravilhoso,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    É bem verdade. Ás vezes com boas intenções, ás vezes por falta de tacto, outras vezes simplesmente porque nem damos conta.
    Obrigada pelo seu comentário.
    Beijinhos

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