sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 2 de maio de 2011

"Ela há-de casar cedo"

A minha menina… Era tão bonita! Tinha cabelos louros enroladinhos em canudos, compridos e sedosos. Olhos verdes, grandes, em bebé tinha olhos azuis, quase transparentes. A pele do rosto era rosada e sedosa. Tão linda! Sempre sorridente, sempre feliz, traquinas, desobediente, meiguinha, carinhosa, ternurenta…
As nossas vizinhas diziam que havia de casar cedo, tão linda era! No jardim infantil parecia uma bonequinha, angelical com os seus cabelos compridos, o seu riso fácil.
Depois tudo mudou. Começou a chorar, a gritar, a pedir para ficar em casa, a não querer estar sozinha. A minha princesa loura não conseguia aprender as matérias na escola, não era capaz de ler, nem escrever, nem contar. Ficou cada vez mais distanciada dos coleguinhas que iam avançando e progredindo nos estudos e nas brincadeiras. Ela ficou sempre a mesma pequenina, a mesma bebésinha sorridente. Só crescia de corpo, o espírito mantinha-se inalterado.
Tanto gritou, tanto chorou, esperneou, tanto perturbou o natural desenvolvimento da escola e da vida do mundo implacável, que a encheram de remédios. Anti psicóticos, calmantes, tranquilizantes, anti depressivos. Ela foi-se aguentando heroicamente. Ao principio não apresentava efeitos colaterais do uso de tantas drogas. Aumentou de peso, ficou com colesterol, mas continuava a mesma cara de anjo, sorridente, meiguinha.
Há pouco tempo a carinha linda da minha filha começou finalmente a apresentar mudanças. O queixinho treme-lhe, a testa enruga-se continuamente, a cara abana de um lado para o outro como se fosse uma velhinha senil. Ás vezes, quando grita ou chora, fica lá em pé, a escorrer lágrimas redondas. A carinha a abanar e a tremer no meio de uma tão grande tristeza e desolação, que tenho que a abraçar e mandar ás urtigas todas as regras de “não compensar o mau comportamento” que supostamente devia observar.
Minha querida pequenina! Será que ela se dá conta? Será que ela sente a cara a mexer, as bochechas a franzirem-se, a testa a subir e a descer? Será que sabe porquê? O que se passará na cabecinha dela? O que pensará? Estará submersa num banco de nevoeiro, desorientada, perdida? Porque grita? Porque chora? Que demónios a perseguem em todos os sítios, a todas as horas? Qual o bicho papão que saiu do armário sem darmos conta? Quais as canções de espantar-medos que lhe devia cantar? Quais os amuletos que lhe devia pôr como protecção? Quais os deuses ou entidades a quem devia acender velas? Aonde, aonde estão as respostas? Em que livro, em que consultório, em que mundo?
Minha menina tão bonita! Querida, meiguinha, carinhosa. Perdoa-me por saber tão pouco, por ser capaz de tão pouco, por te poder ajudar tão pouco. E nunca me deixes de sorrir, nunca deixes de me dar abracinhos e beijinhos, ainda que eu não os mereça lá muito e não seja de grande utilidade como mãe.
Não precisas de aprender a ler, nem a escrever, nem a fazer contas. Fica só feliz. Fica só bem. Fica em paz. Não é preciso mais nada. Num mundo mais justo isso devia bastar, num mundo mais justo ias poder ser para sempre a linda menina de canudinhos nos cabelos e traquinices prontas. Num mundo mais justo não se ia pedir ás crianças mais do que aquilo que elas podem dar.

2 comentários:

  1. Boa amiga:
    Seu texto reflete todo o drama de uma mãe maravilhosa e presente como vc é, q nunca abandona a filha e se desespera por não poder curá-la ou ajudá-la como queria. Sinto na pele este seu desespero, pois sei o que é ser mãe e muito mais; o que é ser uma boa mãe. Fico muito desconfortável com os problemas com os quais não posso ajudar e coloco-me sempre em seu lugar e o de outras mães como problemas parecidos ou até piores do que os seus.Sei o que é a ação desses remédios, pois tomei-os durante 30 anos de minha vida e as consequências foram lastimáveis, porém , pouco a pouco vai se aprendendo a viver novamente, pois graças a Deus o meu problema não foi tão grave como o da sua filhinha, mas já bastou para envelhecer e acabar com alguns anos de minha querida mãe e pai.
    Você já experimentou procurar ajuda de outro profissional mais naturalista que use outros meios alternativos para o tratamento de sua filhinha? Vc deveria procurar pq como vc está dizendo esta medicação começa a prejudicá-la seriamente e os danos podem ser irreversíveis. Sei que é muito difícil para vc, mas procure escrever para algum órgão público pedindo ajuda nesse sentido, vale a pena para conseguir deter esses efeitos indesejáveis da medicação pesada. Por vezes, apenas apoio psicológico pesado pode resolver, não sei, mas vale a pena tentar, Esta semana vou te enviar o livro, pq nas últimas páginas dele, há endereços de entidades de apoio a crianças e adultos que se tornaram autistas pelas vacinas que tomaram, o livro diz-se q é obra de ficção, mas não é tanto assim, o caso é sério, é lógico que o médico que o escreveu não poderá falar abertamente dos laboratórios poderosos, mas tente, tente muito, além de suas forças conseguir algo melhor, alguma mudança p/a melhora da sua vida. Desejo de coração que consiga, torço muito por vc.Um grande bj, da amiga:Cristina
    PS:
    Se eu puder fazer alguma coisa aqui no Brasil para ajudá-la, não se acanhe, pode pedir que eu te ajudo.

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  2. Olá Cristina,
    Que bom que está por aí! Mandei-lhe um mail.
    Beijinhos,
    Gloria

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