sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Jacob

Jacob era o nome de um amigo que tive, por volta de 1986. O Jacob era judeu, hippie, tocador de viola, adepto da meditação. Era sem dúvida de todos os meus amigos, o mais intrigante e surpreendente. Devia ter mais uns dez anos do que eu.
Tinha um temperamento calmo, como as águas de um rio manso. Um sorriso franco e sincero, vindo da alma e não apenas dos lábios. Os cabelos e a barba, que usava ambos compridos, eram de um tom dourado-mel a condizer com os olhos castanhos mais doces que já encontrei.
Quando chegávamos de manhã, eu, as minhas amigas e amigos, já ele estava lá, na Mata, que era o nosso refúgio certo nas férias de Verão. Acompanhado com o seu violão, os cabelos a esvoaçarem ao vento, tocava, cantava, não percebia, ou não se importava com as ironias que os outros faziam acerca da sua bondade, da sua disponibilidade para partilhar tudo com todos, cigarros, cerveja, o que quer que tivesse e alguém ambicionasse.
O que eu adorava ouvi-lo falar! Sabia tantas coisas, de países distantes, de costumes diferentes, tinha viajado imenso, de boleia, com a mochila ás costas, sem um tostão no bolso, mas sempre armado com o seu sorriso doce e o seu violão. As conversas dele eram diferentes em tudo das conversas a que eu estava habituada entre o meu grupo de amigos, que se compunham geralmente por mais disparates e palavrões do que por palavras acertadas e coerentes.
Lembro-me que nos sentávamos os dois, eu e ele, numa das mesas da esplanada, com o sol a brilhar por cima de nós, dois copos de alguma bebida fresca, e conversávamos sobre o mundo. Tudo o que eu lhe perguntava ele sabia, e tudo o que ele sabia eram coisas que me interessavam. Boas tardes e manhãs aquelas...
Os outros não percebiam para que é que eu queria acompanhar com um tipo tão esquisito, com roupas largas e floridas, sempre por barbear, sempre com um olhar perdido na distância, sempre com um sorriso tolo no rosto. "Se nem sequer são namorados, não curtem nem nada..." replicavam intrigados.
Mas eu adorava o meu amigo Jacob. A calma, a beleza do todo nas feições, a boa educação, a sabedoria, o requinte nas maneiras, até os momentos em que se calava e ficava como que hipnotizado, olhando o nada, com um ar extasiado.
Era o meu hippie, o único amigo que não me tentava namorar, nem agarrar, nem espreitar disfarçadamente por cima do meu decote. É verdade que dávamos as mãos, é verdade que ele me passava o braço pelos ombros, mas isso era tudo o que ele queria de mim. O mesmo que eu queria dele: amizade, companheirismo, um porto seguro para as atribulações da vida Parecia divertir-se imenso com as palermices que os outros faziam e diziam, como se todos estivessem a jogar um jogo antigo que a ele já não interessava.
Um dia, o Jacob não apareceu pela manhãzinha. Perguntei por ele e ninguém sabia. Achei estranho. A Mata não foi a mesma sem a sua música, sem as suas conversas, sem o brilho sossegado dos seus olhos quando me via. Depois chegou a noticia. Terrível e inesperada. O meu Jacob, o meu amigo baladeiro tinha morrido na noite passada. No meu grupo contava-se como tinham sido os últimos momentos dele. Tinha-se posto a andar pela linha do comboio fora, como se fosse para mais uma das suas viagens de pé-descalço pelo mundo. O comboio veio por trás, ele andava calmamente como se não o ouvisse. Alguém lhe gritou que tivesse cuidado, que vinha lá o comboio, que fugisse! Mas ele não ligou, encolheu os ombros, olhou para a pessoa e sorriu. Continuou a andar, até que foi apanhado pelas costas. O comboio trucidou-o. Foi um caso muito falado, lá para os nossos lados, durante todo o resto do Verão.
Saudades sem fim dele! Nunca percebi o porquê daquilo ter acontecido! Nunca me tinha dado conta de que algo de errado se passava com ele. Sempre tão calmo, tão cordato, tão tranquilo. Durante anos culpei-me pela minha cegueira e pelo meu egoísmo, por não ter entendido que não era normal um rapaz de vinte e tal anos, comportar-se daquela forma ajuizada e calma. Ele era tão perfeito, que tinha de estar alguma coisa mal com ele, era simplesmente bom demais para ser verdadeiro! Mas eu, nos meus dezasseis anos, não percebi e por isso não fui capaz de o ajudar.
Hoje, passados quase trinta anos sobre aquele Verão, entendo que existem assuntos que guardamos connosco, não por falta de confiança nos outros, mas porque simplesmente não adiantaria contá-los. Hoje, passados quase trinta anos, entendo que o meu querido amigo judeu e hippie escolheu partir deste mundo, como sempre tinha vivido nele: com o seu passo calmo, tranquilo, a caminho do desconhecido com um sorriso doce no rosto.
Aonde ele estiver, espero que esteja bem. E que saiba que nunca o esqueci, nem ao seu olhar doce, á sua voz tranquila. Quando vejo o meu filho tocar guitarra, segurar na guitarra da mesma forma como ele segurava na viola, com a cara de lado, o cabelo comprido a tapar-lhe parte do rosto, sinto sempre um arrepio. É como se qualquer coisa dele tivesse voltado e estivesse por perto.
Se ainda andas por aí, querido Jacob, adoro-te muito. Espera por mim.

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