sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A minha melhor amiga


Há uns dias, passados quase trinta anos, falei de novo com a minha melhor amiga dos tempos de adolescente.
Fomos amigas na escola, desde o 7º até ao 9º ano. Depois ela mudou de escola, eu continuei aonde estava. Ela foi em busca de outros saberes que lhe possibilitassem tirar depois um curso superior, arranjar uma boa carreira. Eu fiquei, porque, como sempre, desde que me lembro de ter memória da minha pessoa, não sabia bem o que queria, só sabia que não queria ter matemática e que enfrentar outra vez uma escola desconhecida e um batalhão de rostos hostis, era sacrifício demais para mim.
Foi muito bom voltar a conversar com ela! Por uns breves momentos quase parecia possível voltarmos a ser aquelas duas meninas de antigamente. Falámos de tantas coisas! Falámos dos nossos primeiros amores, inocentes, platónicos, amores daqueles que se satisfaziam com um olhar, um sorriso envergonhado, que nos faziam sonhar acordadas de noite e de dia. Falámos dos nossos pais, de como ela ainda conheceu a minha mãe tirana e exigente, o meu pai de voz de trovão, com o seu fato bem engomado, engravatado e de chapéu na cabeça. Falámos dos pais dela que eu não cheguei a conhecer, porque ao contrário das minhas colegas, nunca tinha autorização para ir à casa de ninguém. Falámos dos nossos irmãos, dos antigos colegas, das nossas ruas por onde andávamos com os livros da escola presos em baixo do braço, autocarros que apanhávamos de um lado para o outro, lembranças, segredos, coscuvilhices e intrigas de amigas esquecidas, tantas, tantas lembranças!
Éramos, naquela altura, as duas muito diferentes. Ela, alta, linda, de cabelos sedosos, roupas boas e modernas. Lembro-me que ficava sempre nos primeiros lugares dos “concursos de beleza” da nossa turma. Tinha uma forma simpática de falar, de se expressar, era daquele género de pessoa que cativa logo ao primeiro olhar, e de quem depois, quanto mais se conhece, mais se gosta. Eu, pelo contrário, um patinho feio. Todas as minhas roupas eram antiquadas, escolhidas criteriosamente pela minha mãe, para que não ficasse igual a uma “ordinária”, o meu cabelo severamente embrulhado num rabo-de-cavalo preso com elásticos para não se despentear e não parecer uma “cavalona”. A minha falta de à-vontade para começar conversas, a minha timidez face a todos os obstáculos da vida, a minha constante vontade de fugir para casa; mesmo sem ter casa nenhuma para onde fugir, porque a gente quando quer fugir para casa, não é por causa das paredes e da protecção do tecto, é porque queremos correr para um abraço protector, um olhar de carinho e compreensão; tudo isso fazia com que fossemos as duas tão diferentes uma da outra como a água do vinho. Mas mesmo assim fomos as duas melhores amigas, como só o sabem ser as raparigas, na idade das promessas e dos sonhos.
A vida, implacável e impiedosa, não foi muito delicada com nenhuma de nós duas. Ambas tivemos amores e desamores, aventuras e desventuras, sabores e dissabores. Mas a minha amiga permaneceu com a mesma doçura na voz, a mesma ternura nas conversas, que tinha dantes quando falávamos horas a fio sobre tudo, e o tudo era quase nada, se bem que visto a esta distância no tempo, aquele quase nada era mesmo um tudo do tamanho do mundo. Ela permaneceu com uma vivacidade invejável e uma alegria de viver maravilhosa. Agora, como então, senti-me de novo invadir por aquela sensação de orgulho e de alegria por ter uma amiga assim como ela.
E agora que já não tenho nenhuma mãe para me escolher as roupas e me prender os cabelos, nenhum pai para me impor hora de recolher e sítios por onde andar, quem sabe se agora, na plena posse de toda a minha ridícula liberdade, conquistada e batalhada a tão duras penas, quem sabe se agora posso telefonar para ela e marcar um dia para nos encontrarmos? Quem sabe se já posso ir ter com ela à hora que for, no lugar que for, conversar durante o tempo em que houver conversa para falar? Ou quem sabe se agora, tal como dantes, não continuo a ter grilhões nos pés e correntes nas mãos? Quem sabe se, embora de outra forma, embora de outra maneira, não continuamos na mesma: ela, alta, linda, simpática, com todo o tempo do mundo, e eu, de novo sem me poder demorar, sem poder ficar mais que um pouco.
A única diferença é talvez que dantes os meus caminhos eram cheios de incógnitas, de segredos e desafios, mas todos eles iam dar a algum sítio, ainda que fosse misterioso e incerto. E agora, passados tantos anos, todos os caminhos que eu possa seguir, vão sempre dar a lugar nenhum. E todas as certezas que consegui amealhar sofregamente durante este tempo, não valem uma só das incertezas e das expectativas que eram minhas naquela altura.
A melhor amiga dos meus quinze anos… Que saudades danadas de nós duas…Meninas inocentes no principio da vida.

2 comentários:

  1. Olá, Glória,
    Continuo a encantar-me com o que escreve. Tem a capacidade de nos fazer entrar no seu mundo - eu já não estava neste tempo. Por uns momentos tinha também 15 anos, com todas as expectativas e ilusões características dessas idades. E é tão bom sonhar! Por mim, vou tentando não me esquecer de o fazer...
    Beijinhos,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Obrigada pelo seu comentário. É mesmo muito bom sonhar! Mesmo quando se tem a noção de que estamos a sonhar. Se tivermos sorte, pode ser que o sonho e a realidade se acabem por misturar, não é?
    Beijinhos e obrigada,
    Glória

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