sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 31 de maio de 2011

Mon Fils

Mon fils, para quem não saiba, ou para quem já tenha esquecido, quer dizer "meu filho", em francês.
Mon-fils era o nome do cão do meu pai, quando vivemos por uns tempos no Niassa, na altura uma das províncias de Moçambique. O cão era um gigante, um colosso feito de músculos, carne e dentes, muito dentes. Pertencia a uma raça pouco conhecida de cães africanos, os "Leões do Niassa". Pelo seu porte majestoso, pelo tamanho e pela força, haviam pessoas que diziam que estes cães provinham de um antigo cruzamento entre cadelas de grande porte e leões. Provavelmente não passava de folclore popular, mas, em todo o caso, o Mon-fils era um cão de meter respeito.
Foi por causa dele que pela primeira vez senti a pontada da revolta contra a injustiça, que pela primeira vez senti despontar a dúvida sobre a sanidade mental daqueles a quem se devia respeitar e, naqueles tempos, na África colonial, temer.
Na altura, vivíamos numa casa térrea, enorme e arejada. Em volta da casa não havia nenhuma cerca propriamente dita. Os campos e as terras, o mato e o capim circundantes eram quase como que parte integrante do nosso quintal. Ou seja, o nosso quintal era do tamanho da selva que espreitava em volta e quase ninguém passava por lá perto. Por essa razão, e porque o meu pai sempre foi contra o prenderem-se os animais pelo pescoço ou dentro de jaulas de rede, o Mon-fils andava solto e à vontade por onde lhe apetecesse. Era o senhor incontestado de todo aquele mato, e os poucos vizinhos, afastados léguas de nós, sabiam por instinto que era melhor manterem-se afastados da nossa casa, se queriam continuar no pleno uso das suas canelas.
Porém, naquela tarde, um nativo, um negro, ainda novo e robusto ousou atravessar o caminho. Estávamos dentro da casa, a almoçar, um daqueles almoços africanos, que se arrastavam pela tarde, entre conversas e pratos de comida, quando gritos aflitivos nos fizeram correr para fora. Junto a uma das enormes árvores, estava o Mon-fils a ladrar, a rosnar com os seus temíveis dentes descobertos num esgar de raiva e de ódio, tentando desesperadamente trepar pelo tronco acima, numa chuva de lascas de madeira, baba e terra. Lá de cima vinham os gritos: "-Socorro, socorro! Patrão, tira daqui! Já morreu! Nosso já morreu!" O meu pai desesperado tratou de empurrar o cão o melhor que pôde para dentro de casa e apressou-se a fazer descer o homem, que continuava na árvore, gritando e gemendo. Quando finalmente, e com a ajuda de alguns amigos que estavam no almoço, conseguiram colocar o agredido no chão, vimos todos, horrorizados, uma enorme mancha de sangue que se espalhava ameaçadora mente pelo traseiro do homem, ensopando as calças e começando a alastrar pela perna toda. O cão tinha-lhe dilacerado parte de uma das nádegas. As dores que o homem sentia deviam ser horríveis, excruciantes mesmo! Entre todos, levaram-no para o posto médico mais perto. Nós, eu e a minha mãe e as outras mulheres, ficámos para trás, em aflição, temendo as naturais consequências de tão cruel ataque.
Já era de noite quando o meu pai voltou. Do posto médico, depois de desinfectadas as feridas, feitos os curativos, dados os pontos, enfim, depois de estar despachado o que clinicamente era possível fazer-se numa situação daquelas, tinham seguido todos para a esquadra da policia. Era necessário dar conta da ocorrência ás autoridades. Nesta altura da história, a minha mãe aflita perguntou: "-E que disseram? O que é que os policias disseram?" O meu pai contou, para espanto de todos, do meu pai inclusive, que o chefe da policia presente na altura, mandara dar palmatoadas no negro por este ter passado em terrenos privados e ter tentado com certeza assaltar a casa daquele senhor tão piedoso, que ainda por cima o tinha levado ao médico.
Era assim naquele tempo. E não devia ser assim. Estava tudo errado. Anos mais tarde, depois da independência, quando os negros começaram a massacrar e a chacinar brancos por tudo o que era lado, lembrei-me muitas vezes daquele homem, com a nádega quase arrancada, a levar palmatoadas no posto de policia por um furto que supostamente tinha tentado levar a cabo. É desta forma cruel que por vezes se acertam as contas nas páginas da História. E é por isso que é sempre muito difícil, e perigoso, tentar encontrar a razão unicamente num dos lados da questão.
O Mon-fils, esse, continuou solto e livre, até o meu pai ser transferido para outro sítio. No dia em que partimos do Niassa, o cão apareceu morto, envenenado por baixo de uma árvore. Possivelmente, outra tentativa de acertar as contas.

2 comentários:

  1. Viajei no tempo e... estava em África!
    Realmente a razão nunca está só de um lado...
    Beijinhos,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Pois não, e é tão fácil ocupar o lugar de vitima injustiçada, que por vezes esquecemo-nos disso.
    Obrigada pelo comentário.
    Beijinhos,
    Glória

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