sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 24 de maio de 2011

Não chamusquei as barbas...

Sempre me disseram para ter cuidado com as más companhias. Fui muito bem avisada e muito bem instruída, desde o berço, acho eu, para manter uma distância considerável daqueles a quem chamavam "maus elementos". Desde os meus quinze anos até aos meus dezoito, dezanove anos, estive cercada por essas ditas más companhias, e foi bom demais!
O nosso grupo não devia exceder os dez elementos. Falo dos fixos, daqueles que marcavam ponto todos os dias. Depois haviam os simpatizantes, que iam e vinham apareciam e desapareciam ao sabor do vento e das marés.
Lembro-me perfeitamente do B..., descarado, atrevido, reguila. Não era simplesmente capaz de proferir uma frase, sem dizer uma asneira. Todos os substantivos dele eram adjectivados por um forte palavrão, "de fazer corar carroceiros", como diria o meu pai. Era muito engraçado, sempre a contar anedotas, a dizer gracinhas. Escanzelado e magricelas, mal penteado e pior vestido, mas amigo do seu amigo, companheiro e à sua maneira peculiar, "fiel" a quem o tratava bem.
O C... A..., que foi primeiro namorado da minha irmã, antes de reparar em mim e provocar a primeira zanga séria entre nós duas. Com ares de conquistador, voz grave, olhos entornados, sorriso aberto. Envergonhado ás vezes, simples e melancólico a maior parte do tempo. Bonito, não sei bem se bonito, se com aquela outra coisa que fazia com que as raparigas olhassem duas vezes para ele. Especial, pronto, especial e diferente.
O P..., de alcunha "cigano", cabelos compridos, cara de menino, maneiras infantis. Conversas simples, cheio de sonhos e planos, olhar perdido sempre nalgum plano lá mais à frente. Corpo esguio e flexível, movimentos elásticos, arraçado de bode montanhês e galgo campeão. Ninguém era capaz de lhe ganhar nas corridas de bicicletas.
O Z..., terrível e temido. Com tatuagens ameaçadoras no rosto, nos braços. Um passado escuro e proibido. Braços grossos como toneis, cabelos ruivos de rato dos canos. Sempre a cuidar de não deixar esmorecer a sua fama de perigoso, sempre a conspirar e a maquinar ideias escusas, que nunca passavam disso mesmo, ideias só. Que estava sempre pronto a dar uma mão aos mais novos, a ficar para trás para esperar por quem se atrasasse.
O M..., irmão mais velho do A..., cabelos lisos como os de um índio pele-vermelha, pele oleosa e brilhante. Animado, bem disposto, brincalhão, de movimentos rápidos e inesperados.
E ainda o D..., o P.... meu primeiro namorado a sério, o G... com a sua moto barulhenta... Mais alguns de quem agora não me lembro.
No fundo, no fundo, não traziam grande dano à sociedade. Os males que faziam eram muito mais contra eles próprios do que contra os outros. Mas eram olhados de lado, com medo e suspeitas. É verdade que entre eles se consumiam coisas que não ficava bem consumir, se praticavam acções que não eram bonitas de se praticar, se ganhava dinheiro de formas que não eram lícitas de ganhar. Mas nunca me incitaram a fumar um mísero cigarro sequer. Nunca me desafiaram a fazer nada proibido, a quebrar nenhuma regra. Nunca me impuseram condições para fazer parte deles. Aceitaram-me como eu era, cheia de complicações, inseguranças, medos e ansiedades. Ofereceram-me o que tinham de melhor: a sua amizade desinteressada, o seu companheirismo. Deixavam-me contrariar os seus planos, meter o bedelho nas suas tramoias. Ouviam-me e ficavam em silêncio quando eu precisava que ficassem. Confiavam em mim. Deram-me a sensação de segurança e de pertencer a algum lado, como eu nunca tinha tido até então.
De vez em quando tenho noticias deles. Muitos dos que simplesmente conhecíamos, ou que acompanhavam connosco, morreram. A droga levou alguns, a doença levou outros. Todos da minha idade, outros pouco mais velhos. Os que sobraram, estão espalhados por aí, em sítios incertos, tão incertos como era incerta a nossa juventude.
Nunca me fizeram mal, nunca me tiraram nada. Protegeram-me e cerraram fileiras em volta de mim, quando precisei. Passaram pela minha vida e deixaram uma marca bonita. Gosto muito de ter as lembranças que tenho, quando penso neles. Gosto de guardar comigo esta recordação picante e atrevida de ter tido um grupo de amigos tão diferentes e tão marginais à sociedade. Nem sempre os perigos reais estão nas companhias que temos. Muitas das vezes são mais de recear os perigos que espreitam dentro de nós, do que aqueles que nos podem chegar através daqueles com quem acompanhamos. Eu sei disso, porque passei pelo inferno e não chamusquei as barbas.

4 comentários:

  1. Querida Glória,
    Li o seu blog de uma ponta à outra - era impossível não o fazer. Adorei tudo o que li! Que alma tão rica é a sua!
    Gostava de saber usar as palavras da mesma forma que o faz, para lhe conseguir transmitir a emoção que me provocou. Tem que escrever um livro.
    Um grande beijinho e não deixe de escrever por favor,
    Cristina

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  2. Olá
    Regressei e penso ter a foto do "tal" prédio...
    Para onde poderei mandá-la?
    Bjs

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  3. Olá Cristina,
    Muito obrigada pelas suas palavras tão amáveis e simpáticas! Fico sempre muito contente quando as pessoas gostam das coisas que escrevo.
    Muitos beijinhos e obrigada por ter ficado minha seguidora,
    Glória

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  4. Olá Taborda,
    Já lhe enviei uma mensagem para o seu blogue, na verdade até já lhe devo ter enviado duas, mas é que andei aqui com uns problemasitos técnicos para pôr comentários. Bem, caso já tenha lido, já sabe que lhe agradeço muito o ter-se lembrado da foto! Pode mandá-la para o meu mail (mariav.dossantos@sapo.pt).
    Beijinhos e fico à espera...
    Glória

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