sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Não vás!"

Sonhei com o meu pai. Sonhei que ele estava de pé, na nossa sala de visitas. Lá, longe, na nossa terra. Estava preocupado, o semblante carregado. Nas mãos um documento qualquer, cheio de carimbos, cheio daquilo que no sonho eu sabia serem assinaturas autenticadas pelo notário, despachos alfandegários. Eram os últimos papeis para a nossa fuga, para a debandada geral, para o descalabro das nossas vidas.
No sonho eu acerquei-me dele. Conseguia falar-lhe, e ele conseguia-me ouvir, mas não me via. Não tinha noção de quem lhe falava. Era como se estivesse a ouvir a voz do seu pensamento.
Aproximei-me de mansinho e entrei na sua cabeça."-Não vás! Não vás! Rasga esses papeis! Rasga-os e desiste de tudo. Não nos leves daqui. Não vás, por favor, não vás!"
Ouvi os seus pensamentos confusos que se misturavam entre gritos de raiva e de impotência. Vi as imagens fugazes que lhe atravessavam o espírito e a horrivel certeza do "nunca mais". Nunca mais o pôr-do-sol visto da marginal, nunca mais as manhãs cedo na praia, nunca mais o Scala, nunca mais o Marialva, a Fazenda, nunca, nunca mais, nunca mais nada! Nunca mais o ter uma terra! Para sempre proscrito, para sempre fugitivo, para sempre perdido.
E eu de novo:"- Não vás papá! Por favor, não vás! Vamos sofrer tanto! Não vamos ter dinheiro para comer, não vais ter emprego durante muito tempo, a nossa casa vai ser um barracão imundo e bolorento, não vão gostar de nós na escola, ninguém nos quer por lá. Não vás, não vás!"
Ele pensava, a mão nervosa ia amachucando devagar o papel, o documento que tanto tinha custado a obter. Noites sem dormir, a marcar lugar nas filas do consulado, da embaixada. Vários outros dias de filas intermináveis, de esperas, de papeis errados, de certidões, de fotocópias, de tudo o que era infernal e nos estava a acontecer ao mesmo tempo. Ele sentia que não podia ficar, que era preciso fugir como todos os outros, colegas, vizinhos, amigos, familiares."- Porque não? Porque seria eu poupado? Todos vão. Tenho duas filhas pequenas para proteger. Uma mulher com pouca saúde. Se não for agora não poderei ir mais. A metrópole pode cancelar as viagens, podem desistir de nos repatriar, podem, podem, podem..."
No sonho, a mobilia da sala era exactamente igual á que tinhamos lá. De pau escuro, envernizada, bonita, feita para durar. Já faltavam algumas peças, outras estavam à venda. Não nos deixavam levar nada, quase nada. O meu pai e a minha mãe tinham feito a lista do que podiamos e do que não podiamos fazer embarcar. Dentro do contendor de madeira que esperava lá em baixo, no terraço do prédio, não havia espaço para muito. Também não nos era autorizado levar mais nada do que o estritamente necessário. O resto tinha que ficar, era para ser vendido ou dado, ou partido. Lembro-me do meu pai a partir vidros, louças, rádios, gravadores, com as lágrimas a escorrer pela cara. Lembro-me da minha mãe a rasgar revistas, livros, romances, a queimar cartas antigas. Lembro-me de como estávamos todos tão tristes! Vendemos o que pudemos, mas não nos deixaram trazer o dinheiro, ficou depositado para um dia, quando "quiser voltar".
Mas mesmo assim eu pedia de mansinho:"- Não vás! Não vás! A mamã vai sofrer muito, vai ficar muito doente, vai morrer no meio dos trapos amontoados e das paredes húmidas. Tu vais morrer também, só, abandonado, doente, infeliz, desgraçado! A mana vai ter uma vida tão má, tão má! E eu, eu muitas vezes te vou amaldiçoar por nos teres levado daqui, por me teres arrancado ao meu lugar, por me teres atirado para um inferno incalculável, numa terra estranha! Não vás, não vás! Desiste! Ainda vais a tempo! Por favor, não vás!"
No sonho eu sabia que os meus esforços eram inúteis. No sonho eu sentia que ele já estava resolvido e que não havia nada que eu podesse fazer, ou dizer, que o demovesse. No sonho senti que mais uma vez tinha fracassado nos meus intentos.
Quantas vezes tive esse mesmo sonho! Quantas e quantas vezes roguei ao meu pai que desistisse, que reconsiderasse, que reavaliasse. Mas sempre soube que era escusado. Já está! Já foi feito! Há muitos anos que não há nada a fazer.
Naquela altura, há trinta e tal anos, fora do sonho, quando estávamos mesmo ainda lá, quando a sala era sala a sério e não lembrança, o meu pai ficou um momento parado. Eu pequenita olhei para ele e perguntei-lhe: "- O que foi papá? Sente-se mal?" Recordo-me perfeitamente que ele me olhou a direito nos olhos e disse: "- Nada filha. Pareceu-me ter ouvido qualquer coisa. Mas foi ao longe, não deu para perceber." Era eu, não era? Era eu dali a muitos anos a tentar falar com ele. Era eu vinda do futuro a pedir-lhe para ficar em casa. Mas ele não me percebeu, não me conseguiu ouvir bem. Falhei pois. Mas vou continuar a tentar. Quem sabe um dia consigo, quem sabe um dia ele me ouve e rasga o papel, e chama a minha mãe e manda desfazer as malas? E nesse dia ficaremos os quatro na sala, rodeados do que nos restou da mobilia,  rindo e abraçados, felizes sem saber porquê! Felizes porque teremos escapado à armadilha do destino! Felizes porque se é para morrer, vale mais morrer em casa. E se é para sofrer, vale mais sofrer em casa. Lá fora há muita escuridão e faz muito frio.

3 comentários:

  1. http://www.youtube.com/watch?v=fIsKM1LDK0s

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  2. Olá 4N,
    Assisti ao video que indicou: A lei da atracção. Obrigada. Não tinha ouvido falar de Loouise Hay. Li Rhonda Byrne, Eckart Tolle, Joseph Murphy. Penso que a base é a mesma. Mas não tenha esperanças, vou continuar a escrever do meu jeito. Não é que não aceite, ou não acredite na lei da atracção, até porque segundo os autores, acreditando ou não, ela funciona para todos. É que gosto mesmo de escrever assim. E além disso, ninguém sabe se o que escrevo é real ou ficção...
    Cumprimentos,
    Glória

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  3. Minha querida Glória! Sempre que aqui venho, tenho vontade de chorar, por me achar às vezes tão sofredora, quando há pessoas no Mundo como a Glória, que sofreram tanto ao longo da Vida. Adoro-a e admiro-a imenso. É tudo quanto posso dizer.

    Um abraço muito apertado, cheio de amor, carinho e muita LUZ!

    Anabela

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