sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 17 de maio de 2011

O meu Deus


Deus nunca me faltou. É a verdade! O Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o Deus que está nos Céus. Mesmo que o meu Deus tenha atravessado a minha vida sob diferentes aspectos, mesmo que se tenha vindo a transformar durante todo este tempo, nunca me faltou.
Esteve comigo quando eu chorava em pequenita, porque não queria ir para a escola. Esteve comigo quando fugimos da nossa terra e viemos para cá. Esteve também comigo quando nos chamavam "exploradores de negros que vieram roubar o nosso pão", e quando os miúdos pequenos na escola primária se riam do meu cabelo encrespado e das minhas roupas pobres. E quando os anos passavam e tudo ia piorando, as ilusões iam secando, os cabelos grisalhos do meu pai iam embranquecendo mais, a minha mãe ia enlouquecendo devagarinho, como quem não tem pressa de acabar, e a realidade nos ia envolvendo com o seu abraço gelado e íamos percebendo que afinal o que nos cercava era tudo o que conseguiríamos obter para nós. Depois, quando a minha mãe morreu, Deus esteve lá comigo. Quando apanhámos o autocarro para ir dar a noticia à minha tia, e eu pequenita chorava, e ninguém reparava, e quando tive a certeza de que não havia mais ninguém no mundo, agora que ela se fora.
Deus também esteve comigo quando comecei a namorar, quando comecei a escolher, ou melhor, a não escolher as minhas companhias, a aceitar qualquer afecto que me aparecesse e que pudesse contrariar as profecias de que ninguém nunca me ia querer, de que eu era um monstro sem serventia. Deus esteve lá enquanto eu andava a estudar e faltava ao maior número de aulas que podia, e me divertia e passeava, ia aos cafés, aos cinemas, e batia as ruas num festival de decotes e mini-saias, com a cabeça nas nuvens, bem longe, muito longe dos livros e dos cadernos.
Quando fugi de casa, quando fui viver com o que hoje é meu marido, quando encontrei o primeiro emprego, quando descobri que estava grávida pela primeira vez. E como precisei de Deus nessa altura! E como chorei e arrepelei os cabelos, e gritei e gemi, e me debati contra o mundo cinzento e indiferente!
Quando o meu pai morreu, o meu herói, o meu companheiro de batatas fritas e Coca-Colas geladas, o meu contador de histórias querido! Amado e odiado em iguais partes, temido e adorado. Meu amigo triste e solitário até mesmo no fim, até na forma como morreu. Até nessa altura Deus estava lá, comigo, a segurar-me na mão e a olhar-me com amor.
Quando o diagnóstico da minha filha se confirmou, quando a tristeza desceu sobre mim como uma cortina de nevoeiro, quando os fantasmas do medo, da raiva, do desânimo saíram das suas covas e me assombraram de novo.
E ainda assim eu sei que Ele nunca me abandonou. Porque eu soube sempre encontrar forças para me erguer de novo, para continuar em frente, ou para os lados, não sei bem, mas continuar. Eu sei que Deus não me abandonou porque ainda cá estou, e ainda canto e sonho, e vibro e tenho esperanças. Apesar de tudo, continuo a existir, dia após dia, e a encontrar coragem para não parar.
E Deus continua, pacientemente, a pôr uma cenoura em frente ao meu nariz todos os dias, para me fazer andar. Ás vezes a cenoura é uma amiga antiga que se vislumbra ao longe, às vezes a cenoura é uma melhoria repentina na saúde da minha filha, um trabalho do meu marido que corre muito bem, uma carta que chega com noticias de outro mundo, um email amigo com palavras de carinho. E lá vou eu, atrás da minha cenoura do dia, de boca aberta, quase a chegar, mas sem nunca conseguir, mas sem parar, nem desistir. Esta é a maior prova de que Deus nunca me faltou. Mesmo que o meu Deus seja um Deus que não é muito comum. Porque é meu, não é aquele Deus que castiga, que vigia atentamente para punir depois, que envia almas para o inferno, nem que condena criancinhas a viver doentes, nem velhinhos a morrer sozinhos. Não, o meu Deus é especial e existe no meu mundo de sonhos e desilusões. O meu Deus é tudo o que me restou daquele tempo de infância, de juventude, é a herança perdida dos meus desejos, dos meus amores, dos meus afectos. O meu Deus é e sempre foi o meu melhor amigo.

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