sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Olhos verdes, caracois ruivos e brincalhões

Eu tinha-lhe dado a alma, se ele ma tivesse pedido. Mas desconfio bem que a minha alma, não fosse o que mais lhe interessava durante aquele tempo que durou o nosso namoro.
Era alto, bem constituido, ombros largos, peito aconchegante, ruivo, olhos verdes luminosos. Tinha uns caracois brincalhões que lhe bailavam à frente dos olhos travessos. O rosto um pouco sardento, uma boca linda! Era o rapaz mais bonito que eu conhecia! Além do mais bonito, era o que tinha mais charme, estilo, palavra sempre pronta na ponta da lingua... Sabia abraçar tão bem! Bem, sabia outras coisas que agora não são necessárias contar. Todas as minhas colegas da secundária se mordiam de inveja, quando ele me vinha buscar à escola. A moto encostada de lado, os capacetes pendurados displicentemente. Blusão de ganga desbotado, um sorriso malandro. Sentado à espera, cigarro na boca, semblante despreocupado de quem se sabe admirado e consegue lidar muito bem com isso.
Eu tinha dezassete anos, ele vinte e quatro. O que eu gostava dele! Pensava muitas vezes que bem teria feito na minha curta vida, para que um rapaz como aquele, lindo, cheio de raparigas à volta, se tivesse interessado por mim! Eu, que ainda há pouco tempo era uma patinha feia, gorducha, sem formas, desageitada... Ele podia ter qualquer uma que quisesse, mas escolheu-me a mim e isso enchia-me de orgulho. Eu bem sabia da concorrência que havia e era muita. Não só rapariguinhas como eu, mas mulheres já feitas, independentes, modernas e liberadas, muitas pareciam estar dispostas a partilhar os seus afectos com ele. Sem dúvida, podia pedir-me o que quisesse. Estava disposta a pagar o preço que fosse preciso, se preço houvesse a pagar, para poder continuar a ter a meu lado aquele rapaz lindo e apetitoso.
Andei com ele quase dois anos. "Só?" Dirão alguns. "Tanto!" Digo eu. Naquela altura, na altura da minha juventude, agora não sei como é, namoro que passasse os quinze dias era já um namoro com fortes probabilidades de se tranformar em "coisa séria". Quanto mais dois anos! Foram os dois anos mais loucos da minha vida! Os que deixaram mais saudades! Os mais insensatos, saborosos, despreocupados, atrevidos, selvagens! Com ele aprendi que a liberdade não é só o podermos sair e entrar ás horas que queremos, como eu julgava até então. É também poder pensar o que queremos, sentir o que queremos, fazer o que queremos, sem planos, sem cobranças, sem contrapartidas. Liberdade é termos o poder de escolher viver agora, e não amanhã. è podermos sentir o sol na pele, o calor no rosto, a chuva nos cabelos. Sem culpa, sem medo.  Íamos a todos os lados juntos, viamos tudo o que havia para ver, faziamos tudo o que havia para fazer, passeávamos, namorávamos, saboreávamos o prazer de simplesmente estar com alguém de quem gostávamos. Não importava se era para sempre, se era para só mais um dia. Era naquela altura, e só isso justificava tudo.
Depois fomos ficando mais distantes. Eu obrigada a escolher um rumo na vida, um caminho. Obrigada a pôr de lado as minhas loucuras e os meus desejos. Ele, sempre o mesmo rapaz livre e solto, sem necessidade de âncora, nem de alicerces. Ele livre, belo, solto, eu, presa na minha realidade patética e complicada.
Quando ele me pediu para ficar, naquele fim de tarde fria e chuvosa, eu não fiz como costumava. Não me atirei para o seu abraço e mandei o mundo ás urtigas. Não tive coragem de lutar nem de resistir. Fui-me simplesmente embora, cobardemente, devagarinho, os olhos cheios de lágrimas perante a perplexidade confusa dele. Não podia, não podia continuar a viver só de fantasias e de sonhos. Ele ainda me disse que se um dia precisasse dele, sabia aonde o encontrar, que tudo podia empre voltar a ser como sempre tinha sido, que o meu lugar estaria sempre guardado, acontecesse o que acontecesse, viesse quem viesse depois de mim.
Nunca mais o vi desde aquela tarde. Quando penso que agora ele tem cinquenta anos, mal consigo acreditar... Como estará, aonde, com quem? Quem acariciará aqueles caracois ruivos e sedosos que eram tão meus? Quem ganhou o direito de chamar "seu" àquele abraço forte, áquele beijo quente? Quem teve a coragem que eu não tive e ficou quando eu me vim embora? Quem acorda com aqueles  olhos verdes, tão verdes, ao lado? A quem é que ele ama e quer agora? E se ele ainda se lembrasse de mim?

1 comentário:

  1. Meu Deus! Quanto amor, quanto sonho, desejo e juventude, neste seu texto lindo de morrer!!! Adoro a sua escrita, mas adoro, acima de tudo o seu interior puro, fresco e juvenil!
    É uma Alma de Luz! Beijinho grande!

    Anabela

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