sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Se eu nascer de novo

Um dia, se eu voltar a nascer, e se for verdade, como dizem, que regressamos à vida, noutro corpo, noutro destino, não quero mais ser assim.
Não vou querer acatar ordens nem comandos de quem é tão desgovernado como eu, não vou querer fazer como esperam que eu faça só porque há muito tempo, alguém disse que tem que ser assim, não vou deixar que moldem o meu corpo e o meu espírito como massa de fazer barro na roda do oleiro.Vou-me recusar a aceitar ser morta em vida, assim desta maneira que eu sou agora, conformada e comportada, cabisbaixa e ordeira.  Hei-de descobrir a minha maneira de perseguir os sonhos que eu quiser sonhar, como eu achar que são mais bonitos de sonhar. Hei-de desbravar os meus caminhos, ou quem sabe, aprender a viver entre espinhos se preciso for,de forma a que a vida não seja um fardo, uma saca pesada e mal atada cheia de regras, leis, regulamentos, horários. Não vou voltar a desistir de concretizar planos, nem de seguir ilusões só por me dizerem que não devo sonhar assim, nem desejar assim.
Um dia, se eu voltar a nascer, vou ter a coragem de seguir pelas ruelas desconhecidas,  de me aventurar estrada fora, sem mapa, nem guia, nem sicerone, nem paladino. E vou abrir os braços ao sol, ao vento, à chuva, vou rebolar na lama se me apetecer, sujar os sapatos e descoser os vestidos. Vou correr até cair de cansaço e só me levantar quando bem me apetecer, beber em todas as fontes, tomar banho em todos os mares. Vou amar quem eu quiser, na hora que eu quiser, durante o tempo que der para ser. Vou  dar a mão e o abraço, o afecto e a amizade, o amor e a paixão a quem for de minha vontade. Vou ser capaz de fazer finca-pé com quem me quiser demover de correr riscos, e vou virar a cara a quem me prometer o mundo numa bandeja para melhor me prender e dominar.
Um dia, se eu voltar a nascer, vou preferir sentir a boca cortada pelo freio apertado, os flancos rasgados pelas esporas impiedosas, a desistir de cavalgar solta na pradaria. Porque pelo menos assim, vou ter a certeza de que não sou domesticada e nenhum cavaleiro, por mais andante que seja,  me consegue pôr a sela e conduzir a passo miúdo por um caminho que não era o que eu queria escolher para mim.
Porque não há segurança, nem estabilidade, nem nada neste mundo que valha um só dia de liberdade. E porque ninguém dá nada a ninguém de graça. Ás vezes paga-se o preço de uma vida. Ás vezes dá-se a vida em troca de um preço. Ás vezes o preço não vale a nossa vida. Mas um dia, se eu nascer de novo, não quero mais ser assim.

2 comentários:

  1. Olá, Glória,
    Li no seu perfil que é muito simples e comum. Simples, acredito, mas de comum não tem nada - da forma que escreve, parece-me mais uma mulher extraordinárial.
    Vim ler a sua última publicação - é como um livro que nos entusiasma, queremos sempre ler a página seguinte e a seguinte....
    Beijinhos,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Que bom! Bem, muito obrigada! Não sou nada extraordinária. Só vou prestando atenção às coisas que me acontecem e ás vezes valorizo-as mais do que mereciam, outras não lhes dou o valor que merecem... Depois pronto, saem assim estes monólogos da alma.
    Fico muito feliz por acompanhar as minhas publicações. Espero não a desapontar.
    Beijinhos,
    Glória

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