sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Palavras mágicas

Palavras são coisas mágicas…
As palavras acompanham-nos nas horas boas de felicidade, consolam-nos com cuidado nos momentos mais tristes, mostram a quem amamos como é verdadeiro o nosso amor, convidam, sugerem, insinuam, ou pelo contrário, ajudam a manter à distância quem não estamos interessados em deixar aproximar. Ajudam-nos a explicar o que queremos, de que forma queremos, até o quando, o aonde e o porquê das coisas que nos acontecem, ou das que não chegam a acontecer e ficam presas eternamente, para sempre penduradas nas suas teias brilhantes de possibilidades e ilusões.
Com palavras já construi castelos de areia nas praias mais longínquas e mais improváveis, naquelas areias, tão secas, tão áridas, tão soltas, que parece até que água nenhuma vai conseguir ajudar a moldar. Com palavras já deixei que me convencessem, que me levassem, que me seduzissem, já me permiti voar livre para longe, já sonhei acordada com mil e uns caminhos diferentes, alternativos, mágicos, perigosos, tentadores. Já fiz tantas promessas sérias e sinceras, outras menos sérias e menos sinceras. Já prometi coisas mesmo quando não tinha grande intenção de cumprir, ou mesmo quando eram coisas tão impossíveis de cumprir que não fazia mal nenhum mentir a quem me pedia para prometer.
Já usei as palavras mais lindas, mais suaves, mais quentes e mais belas que se possam pensar, ou imaginar. Já falei só por falar, já falei a cantar, cansada ou alegre, sonhadora ou triste, ensonada ou desperta. Usei palavras febris, urgentes, meigas ou afectuosas. Usei palavras que refrescam como só o faz a água fria quando escorre sobre a pele num dia quente de Verão. Outras palavras que inflamam e incendeiam, que se espalham, como uma fagulha se espalha no mato ressequido, e cresce até não ser mais uma fagulha e ficar perto de ser uma labareda selvagem e incontrolável. Palavras sossegadas que simplesmente garantem que está tudo bem, que ainda estamos por cá, que estranha e inexplicavelmente ainda não desistimos de ir continuando a pôr um pé à frente do outro em cada dia e em cada noite.
Já me disseram palavras bonitas, calmas, atenciosas, gentis, atrevidas e descaradas, bem-intencionadas, indiferentes, amorosas ou apaixonadas. Aquelas que acariciam como veludo no coração, que arrepiam a alma, que ficam presas no corpo. Aquelas que quase se sentem a chegar devagarinho e que sabem tão bem como uma canção que gostamos sempre de ouvir. As que se dizem à distância de um passo, educadamente e sem olhar nos olhos, à distância mal precisa, e tão fácil de transpor, de um abraço. Já me disseram palavras daquelas quentes e apaixonadas, que se sussurram ao ouvido, perto e beijadas de carícias. Outras que se podem dizer em voz alta, quase gritadas, quase livres de irem ao sabor do vento, aquelas que não guardam segredos nem magoam ninguém. Outras palavras que mal se dizem, que mal se percebem, mas que continuam a fazer sentido, que são quase um murmúrio junto à alma, que mesmo sem se distinguirem bem umas das outras, são logo entendidas e reconhecidas como sendo para nós.
Alicercei o meu mundo pequenino e instável em cima do efeito poderoso das palavras. Com elas me entendi e me defendi dos ataques impiedosos das outras palavras. Houve dias em que mais do que as palavras, os silêncios me fizeram boa companhia. Os silêncios cúmplices, velhos aliados, silêncios mudos mas que mesmo assim são sempre formados por palavras, porque o pensamento para ser percebido até por quem o pensa, tem que vir assim, traduzido em palavras.
Às vezes ao invés de falar, fechei apenas os olhos e sonhei acordada. Sonhei com lugares novos ou quase esquecidos. Sonhei que ainda conseguia voltar atrás e parar o avanço do mundo só com uma mão, que ainda era possível desfazer erros, enganos, faltas de coragem, acabar de dar beijos que ficaram por dar, fazer coisas que ficaram por fazer, despedir-me de pessoas de quem não me despedi. Sonhei que por muito tempo que se passasse, certas coisas e certas pessoas iriam continuar sempre na mesma, sempre lá, sempre imutavelmente à minha espera, para quando um dia eu precisasse, para quando um dia eu conseguisse finalmente voltar a casa. E até mesmo nessas alturas, quando sonhava todos esses sonhos loucos e disparatados, ainda assim era de palavras que os meus sonhos eram feitos.
Muitas ocasiões houve, e há ainda, em que pensei que o melhor a fazer era continuar calada, não reagir, não responder, não complicar. Segurar bem dentro da boca as palavras antes que elas saíssem e não me pertencessem mais, e pudessem com o seu poder irreparável, transformar, mudar, abalar a ordem normal das coisas. Mesmo calada, mesmo sem dizer nada, as palavras continuaram a sair livremente pelos meus olhos, pela minha respiração, pela falta do meu sorriso, pelo desânimo do meu rosto e pela falta de reacção do corpo e do coração.
Até nas ocasiões mais tristes e mais sozinhas em que chorar era tudo o que eu podia fazer, tudo o que me era permitido escolher, ou nas ocasiões mais felizes, mais alegres, mais despreocupadas em que uma boa gargalhada substitui tanta coisa, nas ocasiões calmas, em que não é preciso dizer nada para além do que conseguimos ouvir e assimilar com os olhos, e nas outras ocasiões em que as palavras não se proferem, sentem-se com o corpo e com a alma… Em todas essas ocasiões distintas e tão diferentes entre si como é diferente a noite do dia, ainda e sempre assim, as palavras estiveram lá, bem presentes na minha história. Fazendo-se ouvir, fazendo-se adivinhar por entre os silêncios, por entre os olhares, ou mais simplesmente por entre aqueles intervalos da vida que são preenchidos por quase nada.
Palavras são coisas mágicas… Não se recuperam, não se agarram, não se desmancham, não pertencem a nenhuma boca, não têm morada certa, são estrangeiras errantes a vagabundear livre e gostosamente por todos os países do mundo.
Como eu gosto das palavras e da magia que elas emprestam! Como eu amo as palavras quando uma delas produz o efeito desejado! Como se o mundo todo dependesse de saber escolher a palavra certa, no momento certo.
Como se eu tivesse o poder maravilhoso de conhecer qual a palavra exacta para dizer à pessoa que eu quero, mesmo quando não sei se essa pessoa percebe o que estou a dizer...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Intolerância

Ontem, veio cá a casa, depois da hora de jantar, um vizinho nosso,  ultimar os preparativos para um trabalho de pintura  do meu marido. O meu marido é pintor de construção civil, e durante os tempos de Verão, tem sempre muito trabalho. Por aqui, as pessoas gostam de pintar as casas, os muros, gostam de deixar tudo impecavelmente bonito para as festas locais.
O que apareceu ontem, é um vizinho que conhecemos desde que viemos morar para esta casa, há mais ou menos vinte anos. Entrou, sentou-se na sala connosco, bebeu café e ficámos a conversar um pouco enquanto olhávamos para a televisão. Não sei bem qual foi a passagem da reportagem que estava a dar no telejornal, que desencadeou os comentários parvos que se seguiram. Por uma razão, ou por outra, os dois acharam que o entrevistado devia ser “maricas, larilas, boiola” e outros disparates que não ficam bem escrever. É um dos passatempos preferidos do meu marido, durante a hora de jantar, descobrir se as pessoas são maricas ou não... Enfim, cada um é feliz com aquilo que consegue, e cada um se diverte como que está dentro das suas possibilidades… Não sei se ele o faz porque realmente acha graça nisso, ou se insiste nessa estupidez apenas porque sabe que me consegue aborrecer a sério.
Eu, que me lembro muito bem do quanto sofria com a minha irmã, quando os nossos pais discutiam, do quanto nos dávamos as mãos por debaixo da mesa da sala de jantar e ficávamos pedindo aos nossos santinhos que ela não respondesse, que ela deixasse passar, que me lembro do quanto nós achávamos que a vida podia ser melhor se ela não discutisse tanto, se se calasse, pelo menos em atenção a nós, eu tento sempre não me meter em confusões quando os meus filhos estão por perto. Até porque a minha altura de achar que podia mudar o mundo, já lá vai há uns anitos, e entendo, sinceramente, que não vale a pena lutar em todas as guerras para as quais somos desafiados.
Mas, porque o assunto era estúpido demais, e porque começaram a meter o meu filho à conversa, tentando que ele partilhasse das mesmas opiniões dos tempos das cavernas que eles têm, não aguentei mais e tive mesmo que interferir. Odeio discussões, sou pacífica por natureza, mas há alturas em que é preciso… Tenho tido o maior cuidado do mundo, ao tentar criar o meu filho na ideia simples e arejada de que todos somos completa e totalmente iguais em termos de direitos e de deveres, e que ninguém tem o direito de julgar, condenar, ou apontar o dedo a ninguém, apenas porque a outra pessoa pensa de forma diferente, tem uma cor de pele diferente, acredita num deus diferente, ou gosta de amar alguém diferente do que é regra amar. E, modéstia à parte, tenho-me saído bem neste meu trabalho, porque o meu filho é um rapaz de dezasseis anos com a cabeça bem limpa de preconceitos idiotas e de disparates irracionais.
Na minha opinião, não existem gays, lésbicas, bissexuais, existem apenas pessoas. E há pessoas que têm o dom maravilhoso, divino e celestial de poderem gostar de outras pessoas, o que infelizmente, não acontece com toda a gente. Que interessa se gostam de alguém de outro sexo, se gostam de alguém do mesmo sexo, ou dos dois sexos, ou se não gostam de ninguém, se gostam de uma pessoa de cada vez, se gostam de duas ou mais, o que realmente importa, e aquilo em que acredito, é que desde que não façamos mal a ninguém, e nem prejudiquemos ninguém, todos temos o direito, e bem mais do que o direito, temos o dever, de tentarmos ser felizes. E nenhuma pessoa no mundo devia ter nada a ver com isso! O que realmente demonstra o valor de um homem, ou de uma mulher, é aquilo que ele ou ela é, no seu todo, nas suas acções, nas suas ideias, na sua personalidade, na forma como interage com os outros e com o mundo em geral. Não consigo entender que importância pode ter a escolha que cada um faz acerca da pessoa com quem gosta de ir para a cama. Até mesmo no caso mais complicado da adopção de crianças por parte de casais homossexuais, penso que o que uma criança precisa realmente para crescer e se tornar num adulto saudável e feliz, é de ser criada num lar de amor e de afecto, criada por pessoas que se amem e se respeitem, que lhe consigam transmitir uma sensação de paz, de concórdia, de segurança e protecção. Que interessa se é um pai e uma mãe, ou se são dois pais ou duas mães? Eu, por exemplo, fui criada e educada por um casal bem tradicional… Posso ser uma sonhadora cheia de utopias, mas sempre pensei desta forma, que o meu pai achava passageira e própria da juventude, e o meu marido interpreta como a “maneira normal das mulheres pensarem”. Mas é no que acredito e são os valores que defendo. Nada pior, nem mais horrorosamente nocivo do que a intolerância. Não há nada que me revolte mais as entranhas do que ver condenar, assim só por condenar, porque é diferente, porque não se encaixa nas ridículas regras e etiquetas sociais!
Mas apesar de detestar discutir, pronto, lá me meti na conversa e dei as minhas opiniões. E, claro que, como sempre acontece nestas situações, ouvi tantos argumentos disparatados, palermas e retardados, que quase fiquei mal disposta. O cúmulo da burrice, da ignorância de todas as coisas, foi quando o nosso vizinho entendeu que o que se devia fazer para salvar o mundo, “era enfiar todos essa gentalha dentro de um barco, levá-los para o mar alto, e afundar o barco, como o Marquês de Pombal fez aos padres e aos maricas.” Ainda lhe perguntei se ele não estaria a fazer confusão com as personagens históricas, e não seria o caso de se querer referir a Hitler, mas não, ele garantiu-me que Hitler não tinha nada contra os padres, mas que também matava maricas, o que, segundo a sua forma deturpada de pensar, deve ter sido uma coisa a fazer pender a balança positivamente para o lado do monstro austríaco…
Como já não aguentava mais, e como sempre me ensinaram que não se trata de forma descortês uma pessoas de fora, que está na nossa casa, e também porque a essa altura já o meu filho tinha ido ao encontro do mundo dele do computador, da Internet e dos jogos online, decidi também  ir para o sossego da cozinha, e por lá fiquei até a simpática criatura se resolver ir embora.
Credo! Chica penico (esta expressão deliciosamente engraçada, é de uma amiga minha que a emprega muitas vezes, e que eu resolvi tomar emprestada por um pouquinho, porque acho que fica aqui muito bem. Se estiveres a ler, L. , sei que é tua. Obrigada por ma deixares usar)! Como é possível que em pleno século XXI, ainda haja pessoas que pensam, falam e educam os seus filhos debaixo destes valores empestados de estupidez e de intolerância? Já são em menor quantidade do que no tempo em que eu era criança, é certo. Mas ainda existem muitos por aí, e, de vez em quando, entra-me um pela casa a dentro!...
Eu gosto de acreditar que, um dia, espero que não falte assim tanto tempo como isso, as pessoas se tornem bem mais tolerantes, bem mais esclarecidas, e ponham de lado todos estes preconceitos mesquinhos, e que parem de tentar fazer valer as suas frágeis posições, que parem de se tentar engrandecer e valorizar, atacando e achincalhando aqueles a quem consideram mais fracos, ou aqueles que sabem estar mais desprotegidos.
No fundo do meu coração existe um lugar para aonde gosto de fugir quando estou mais triste, e ontem estava muito triste! Existe um lugar que é só meu, aonde o sol não pára de brilhar, aonde tudo é cheio de cor e de alegria. Um lugar aonde gosto de colocar de vez em quando, alguma personagem da vida real, para me fazer companhia, para me fazer um pouquinho mais feliz. Um lugar a que eu gosto de chamar de “parecido com o Paraíso”. Se existisse um lugar semelhante ao meu, no coração de toda a gente, talvez o mundo fosse mais bonito, e mais em paz.
Fui para a cozinha, encostei-me à vidraça, pus os olhos numa das estrelas brilhantes do céu, e em pouco tempo já não estava ali. Já estava lá, do outro lado do arco-íris, perto dos sonhos e das fantasias, bem protegida e aconchegada, num lugar aonde ninguém me consegue atingir, e aonde não chegam os comentários ignorantes, mesquinhos e maldosos deste mundo.Eles ainda ficaram lá para dentro durante algum tempo, a rir, a dizer disparates. Eu, durante um bocadinho fui passear por uma estrada maravilhosa, que ia ter a não sei aonde, que tinha ao fundo a visão do mar, do sol a pôr-se, o mundo todo vestido de cores quentes e gostosas… Durante um bocadinho esqueci-me de que estava triste e quase, quase consegui sentir algo mais do que a brisa do mar a passar com delicadeza pelo meu rosto, quase consegui sentir um beijo quente a aflorar de leve os meus lábios, e …depois fui lavar a louça.


terça-feira, 28 de junho de 2011

Um sitio parecido com o Paraíso...

Hoje estou triste.
Triste daquela maneira elegante e sossegada, como costumo ficar triste. Triste nos olhos, no corpo, triste no coração. Triste sem incomodar ninguém, sem fazer barulho. Triste sem pedir nada, sem esperança de nada, sem nenhum lugar bonito aonde descansar a alma. Triste sem precisar de parar para chorar, porque se consegue chorar de olhos enxutos, e sem baixar a cabeça porque preciso de continuar a ver o caminho em frente, apesar de não saber aonde esse caminho me leva.
Apesar do sol que brilha radiante lá fora, dos pássaros que cantam por todo o lado nesta tarde tão quente, do céu azul imaculado, da aragem suave que agita as flores do quintal. Apesar de todas as ofertas bonitas que a natureza pôs hoje em frente ao altar dos meus olhos, talvez para me alegrar, talvez para me consolar, ou talvez mesmo sem querer saber que existo. Apesar de tudo estou triste, tão triste!
É em dias assim, que me vem uma vontade louca e quase incontrolável de fugir porta fora. Uma vontade maior do que o universo das minhas obrigações, uma vontade que me manda lutar por ar, que me ordena que não pare de espernear, que trate de me levantar. Uma ânsia selvagem de correr, apanhar o comboio, descer na paragem antiga da minha vida de dantes. Procurar nas mesmas ruas daquela altura, bater as mesmas esquinas, entrar nos mesmos cafés, sentar-me nos mesmos jardins, encostar-me nas mesmas paredes aonde nós parávamos. Vem-me uma vontade louca de sentir os mesmos cheiros, aspirar os mesmos odores. Perguntar pelos fantasmas que ficaram perdidos de mim durante tantos anos. Perguntar aonde estão, para aonde foram, que destino a vida lhes deu. Todos eles, meus companheiros de há tantos anos… Que tinham sempre remédio pronto para todas as minhas tristezas, que tinham sempre uma palavra amiga para me consolar, um ombro amigo aonde eu podia chorar, perto de quem encontrava sempre colo, carinho… Uma vontade doida de cobrar as promessas antigas, de conferir os afectos esquecidos, de me perder entre a loucura desenfreada dum mundo que podia não ter acabado. Como se fosse possível emendar a corda da vida, aonde ela se partiu, dar-lhe um nó sólido e partir daí de novo…
Que fariam eles, amigos antigos, namorados antigos, se eu voltasse como uma Fénix renascida das cinzas, tantos anos depois? Que diriam, como reagiriam, quanto tempo demorariam até alargar a roda para me arranjar espaço, até me abraçarem, até me beijarem, até me fazerem esquecer de tudo no meio de uma orgia de carinho e de loucura? Ou será que já me esqueceram, que já nem se lembram de mim? Pior ainda, que será feito deles? Sei que alguns foram desaparecendo, uns pelo mundo, outros do mundo. As más noticias nunca deixaram de me encontrar, apesar da distância. Sei que muitos dos meus amores antigos daquela altura já não são possíveis de encontrar em lugar nenhum, por muito que eu os queira procurar. Tenho uma mágoa enorme de não me ter despedido, de não ter dito adeus, de não ter guardado pela última vez o olhar de cada um deles, o sorriso malandro de cada um deles... Vim-me embora simplesmente. Num dia estava lá, no mesmo lugar aonde estava todos os dias, e no dia seguinte já não estava. E não voltei mais, nunca mais… Mas, de vez em quando, vem-me uma vontade tão grande, tão avassaladora, tão primitiva de voltar, nem que seja só por um bocadinho… Hoje queria tanto, mas tanto, mas tanto, ouvir de novo as vozes, os risos, até as palavras menos elegantes, as discussões inconsequentes! Sentir de novo aquela sensação de plenitude, de pertencer a algum lugar. Sentir as carícias, os abraços, sentir simplesmente, com o corpo, com o coração, como não sinto há tanto tempo que quase já me esqueci que um dia cheguei a sentir.
Hoje estou triste, tão triste! Tão sozinha e perdida! Queria adormecer e não precisar de acordar mais. Ou então queria fechar os olhos e já não estar aqui, encolhida, miseravelmente sozinha no canto do meu sofá. Queria fechar os olhos e aparecer depois num lugar bonito, calmo, saudável. Um lugar cheio de luz, de cor, de alegria. Com aroma de mil flores a perfumarem o ar, com um oceano imenso de águas cristalinas, com um sol escarlate a aquecer o céu num festival de prazer para os olhos e para os sentidos. Queria não chorar mais, queria parar de sofrer. Queria não continuar assim, sempre a lutar, sempre a tentar, sempre a cair, sempre a ter que me levantar, como um pobre touro espetado até á morte e a quem nem dão a dignidade suprema de parar para morrer em paz.
Será que quando eu morrer, o Paraíso será parecido com o lugar que eu sonho? Ou será que o Paraíso já está perdido para mim? Será que ficou lá atrás, estará lá mais para a frente, ou é simplesmente uma história que contam às criancinhas para que durmam melhor de noite?

Mulheres e homens

Desde sempre, tenho-me dado muito melhor com homens do que com mulheres.
Foi sempre bem mais fácil relacionar-me com homens. São mais simples, mais directos, menos complicados. Olham de uma forma mais amigável, mais calorosa, falam sem grandes preocupações com aquilo que estão a dizer, enfim, inspiram-me mais confiança. As mulheres são mais reservadas, mais desconfiadas, mais agressivas. Parecem estar sempre preparadas para defender o seu castelo de uma invasão de mouros, sempre com as unhas afiadas prontas para atacar, com um rosnar dissimulado por detrás dos sorrisos plásticos e artificiais.
Já em pequenita a minha predilecção pelo público masculino se fazia notar. O meu pai, terrível gigante de voz de trovão, ditador impiedoso do reino da minha infância, não resistia durante muito tempo a um pedido, a um sorriso, a um amuo meu. Para fúria da minha mãe, que achava que o meu pai fazia distinção entre as filhas, não havia coisa que eu quisesse dele, que não fosse capaz de obter Ele achava imensa graça ao que chamava “ a personalidade da pequena”. Estava convencido de que a minha persistência, o meu espírito combativo me iam facilitar a vida no futuro. Só não achou muito engraçado quando essa mesma persistência e esse mesmo espírito combativo, se viraram contra o que ele tinha instituído como regras intransponíveis e princípios inabaláveis de vida…
Em adolescente, e durante a juventude, continuei a preferir a companhia e a proximidade dos homens. Todos os meus amigos a sério eram rapazes. O grupo aonde eu circulava, aonde eu passava os meus dias, era todo constituído por rapazes. Uns mais velhos, outros mais jovens, outros sem idade definida. As raparigas eram um universo à parte. Tirando as “melhores amigas” da escola, não me dava muito bem com as outras miúdas. Uma delas, ainda me lembro, chegou a dizer-me que “ gostava muito de te ver daqui a uns anos, quando já não tiveres nem pernas nem mamas para mostrar. Vais ver depois como é…” Presumo que ela se referia às minhas minissaias apertadas, aos meus calções curtinhos, aos meus decotes atrevidos, e estava visto que atribuía a essas coisas todas, o meu aparente sucesso entre o género masculino. Bem, enganou-se. Hoje já não uso, como é lógico, saias curtas nem apertadas, nem visto calções de tamanho nenhum, e os meus decotes resumem-se a uma sombra pálida daquilo que eram naquele tempo. E, ainda assim, continuo a ser bem aceite e bem acolhida no tal reino dos homens. Continuo a mexer-me mais à vontade entre homens, e a poder ser mais natural, e mais feliz entre eles. E, modéstia à parte, eles continuam a mostrar grande simpatia pela minha pessoa, mesmo sem mostrar as pernas ou as mamas, como dizia a tal rapariga da minha juventude.
Aos dezoito anos comecei a trabalhar, e trabalhei durante alguns anos num museu lindo, com uma igreja encantadora anexa. Uma igreja muito antiga e muito bela, cheia de encanto e história, com painéis enormes de azulejos em azul e branco nas paredes, forrada a talha dourada brilhante por tudo quanto era lugar, repleta de pedras tumulares mudas e misteriosas no chão frio de pedra antiga Fui contratada como guarda de museu, mas como era a única entre as minhas colegas, que falava inglês e francês, colocavam-me muitas vezes na recepção, a fazer o atendimento aos visitantes. Acho que pela primeira vez na vida, descobri um núcleo feminino aonde me encaixava muito bem. As minhas colegas eram simples e alegres como eu gostava de ser, falavam de telenovelas, de rendas e bordados, dos filhos, dos maridos, dos namorados… Levávamos os almoços de casa, dentro de caixas de plástico, e almoçávamos todas juntas, entre risadas e disparates. Foi um bom tempo! Os colegas homens estavam mais à parte, mas de qualquer forma, continuei a dar-me muito bem com todos eles.
Foi quando saí do museu e comecei a trabalhar num laboratório do estado, que as diferenças entre homens e mulheres, se fizeram de novo notar, e não pararam de crescer até hoje. Lá, no tal laboratório, já ninguém queria saber de novelas, nem de revistas. As minhas colegas mulheres eram todas muito diferentes de mim. Usavam roupas complicadas e caras, pintavam-se de forma requintada, tinham penteados sofisticados, calçavam aqueles instrumentos de tortura moderna, que são os sapatos de salto altíssimo, e falavam com uma entoação estranha na voz, assim meio arrastada, meio cantada, meio snob e desinteressante. Eu, continuava com as minhas costumeiras calças de ganga, as minhas habituais T-shirts despretensiosas, os meus sapatos de salto baixo do costume. Não me maquilhava, como ainda hoje não o faço, usava o cabelo de forma simples e natural, e continuava a falar da mesma maneira desembaraçada como sempre falei. Nem percebia bem para que era todo aquele exibicionismo, afinal éramos apenas administrativas. Não éramos empresárias, nem directoras, nem tínhamos nenhum cargo de vital importância. A nossa função resumia-se, na maior parte das vezes, a dar andamento a uma quantidade absurdamente enorme de papelada inútil, e a esperar até recebermos de novo na secretária a próxima remessa igual de mais papéis igualmente inúteis. As pessoas realmente importantes, aquelas que realmente podiam justificar tanto aparato eram os engenheiros, os técnicos superiores. E, no entanto, todos eles eram bastante mais simples, bastante mais acessíveis, muito mais simpáticos, enfim, muito mais homens iguais a homens, claro. E arranjei muitos mais amigos entre eles, do que, como é óbvio, entre as mulheres, As minhas colegas não entendiam o porquê dos engenheiros me sorrirem, me falarem de forma calorosa, se dignarem convidar-me para tomar café, quando elas estavam ali, com todo o seu potencial espampanante e sofisticado e não granjeavam mais do que um educado “bom-dia”, ou um polido “como vai?” Quando saí do laboratório e vim para casa, já lá vão treze anos, a minha chefe fitou-me com uma expressão de estupefacção no rosto, como se a rapariga com eterno aspecto engraçado e deslocado que tinha à frente, tivesse de repente enlouquecido, e perguntou:”- Mas tem a exacta noção da barbaridade que está a fazer? Pensou bem que não volta a arranjar uma colocação igual a esta, em todos os anos da sua vida?” Claro que tinha a exacta noção. E tinha a exacta noção também de que jamais ia conseguir fazer parte daquele universo feminino, sofisticado, perfumado, emproado, artificial e tão, mas tão entediante!
Depois, e até agora, tenho vivido entre dois mundos diferentes, no que diz respeito a mundo de mulheres e mundo de homens. Tenho o mundo das mulheres que é composto pelas minhas vizinhas. Mulheres sem idade definida, sempre vestidas de escuro, sempre de cabeça coberta por lenços pretos, sempre ocupadas a cuidar do rebanho de filhos, e um dia mais tarde, quando podiam finalmente descansar, igualmente ocupadas em cuidar do rebanho dos netos! Simplesmente horrível! Mulheres incapazes de pedirem mais, incapazes de quererem mais. Acho mesmo que não fazem ideia de que há mais vida para além dos muros dos quintais, e que há coisas muito mais agradáveis para se fazerem do que cozinhar, lavar, esfregar, educar os filhos… E depois, tenho o mundo das mulheres composto pelas mães dos colegas dos meus filhos, e que tenho que enfrentar sempre que vou às reuniões das escolas. Mulheres da minha idade, mulheres que falam daquela tal forma irritante e peneirenta, vestidas daquela forma cuidada e elegante, maquilhadas com todo o género de cosméticos modernos, complicados e inúteis, esticadas no rosto, nas mãos, no pescoço, levantadas, comprimidas, penteadas com penteados que nem abanam com o vento.
Eu, continuo na minha maneira de ser e de vestir. Sem pinturas na boca ou na cara, sem cabeleireiros que se atrevam a tentar impedir o meu cabelo de voar, sem roupas caras, sem verniz nas unhas, sem falar daquela maneira horrível, sem olhar as outras pessoas de cima. Para meu espanto, essas mulheres cheirosas e cuidadas, nem sempre primam pela inteligência, uma vez que raras vezes percebem o que os professores dizem, raras vezes respondem às perguntas que lhes fazem de forma acertada. Como se não precisassem de mais nada, a não ser mostrar ao mundo como são lindas, impressionantes e chiques nas suas fatiotas elaboradas.
Ao contrário, os homens continuam como sempre me lembro de os conhecer. Simples, directos, afáveis, acolhedores. De rosto limpo como eu, de roupas comuns como eu, capazes de conversar e de responder de forma coerente como eu. Porque será tão grande a diferença entre um universo e o outro? Porque é que eu fico sempre assim pendurada entre os dois mundos, sem pertencer bem a lugar nenhum, sem encontrar o sítio aonde seja normal ser como sou? Sem pinturas, sem camuflagens, sem armaduras, sem mais nada de nada a não ser o meu sorriso, a minha maneira simples de ser e de falar, e a minha vontade louca, indomável e invisível de ir mais além.
Numa dessas reuniões escolares entediantes e inúteis, enquanto eu ouvia espantada a intervenção fútil de uma das mães, um dos poucos pais presentes piscou-me o olho e sorriu-se. Elevou os olhos de forma cómica e apontou com o queixo para a mulher que falava. Eu percebi que ele se estava a divertir, e sorri-lhe de volta em resposta. Acho que percebi que é isso que me une ao mundo dos homens. A dificuldade de entender o porquê de tanta complicação, de tanta sofisticação. Afinal, é muito melhor e mais prazeroso falar quando se tem vontade, vestir-se a roupa com a qual nos sentimos bem, e aceitar uma piscadela de olho divertida e sem malícia, quando se quer.
Aposto que nenhuma daquelas mulheres emproadas, teria respondido ao sorrido daquele homem, embora, sem dúvida, muitas tivessem vontade de o  fazer. Eu sou diferente, eu sou assim, mais impulsiva…

segunda-feira, 27 de junho de 2011

As qualidades de que mais gosto, e os defeitos que mais detesto, num homem

Encontrei numa revista, um teste daqueles que se fazem normalmente nas revistas femininas, em que se respondem algumas perguntas, e depois se conferem os resultados das respostas, de acordo com as tabelas que nos fornecem. Ficamos a saber a resposta a muitas e variadas questões, de forma rápida e espantosamente correcta para quaisquer que sejam as opções que tenhamos escolhido no teste.
Então, o teste que eu encontrei era este: “Quais as qualidades que mais ama, e quais os defeitos que mais detesta nos homens?” Li algumas das respostas dadas pelas entrevistadas, e quase todas se resumiam às banalidades do costume- companheirismo, responsabilidade, e senso do dever, nas qualidades preferidas, e preguiça, desleixo e imaturidade, nos piores defeitos. Pus-me a pensar o que é que eu responderia a uma pergunta como esta e descobri que ia precisar de muito mais espaço do que aquele que a revista disponibilizava. Sendo assim, resolvi escrever este pequeno texto e ver se ponho a limpo, até para mim mesma, quais as qualidades que mais amo, e quais os defeitos que mais detesto nos homens.
Primeiro do que tudo, gosto que um homem me faça sonhar! Gosto que me mostre coisas bonitas, lugares lindos, paisagens encantadoras, que me leve a passear, que veja nascer o sol comigo, que seja capaz de olhar as estrelas e os planetas misteriosos no céu escuro e fascinante da noite. Gosto que um homem saiba mais coisas do que eu, que tenha visitado mais sítios, que fale de assuntos que eu não costumo falar, que tenha conversas inteligentes e interessantes, mas que também saiba ser alegre e descontraído. Adoro que um homem tenha ideias simples e engraçadas, como levantar-se mais cedo, e levar-me com ele, antes de toda a gente acordar, só para darmos uma volta a pé nas ruas caladas, vermos as montras ainda acesas, os passeios e calçadas silenciosos, cheios de ecos, de segredos. Ou para vaguearmos pelo campo, pelos montes, ouvirmos os pássaros a acordarem, espreitarmos do cimo de alguma montanha o dia a começar devagarinho e preguiçosamente por cima dos telhados anónimos das casas pequeninas.
Não gosto nada, mas mesmo nada que um homem ache que a melhor maneira de passar o fim-de-semana, é sentado no sofá a olhar entorpecido para a televisão, ou com os fones enfiados dentro dos ouvidos, a escutar horas a fio músicas aborrecidas e repetitivas. Não gosto nada que um homem pense que um Domingo bem passado é um Domingo em que se pode levantar ao meio-dia da cama, e desbaratar o resto do tempo calado e molengão, arrastando o corpo de um lado para o outro dentro de casa.
Gosto muito que um homem seja forte, decidido, que tenha opiniões formadas, que não me deixe ganhar sempre, que não me siga como um cordeirinho domesticado para aonde eu o quiser levar. Que seja gentil, simpático, cordial e carinhoso, mas que tome as decisões que sejam precisas tomar, que trate dos assuntos complicados e confusos que às vezes são precisos tratar. Que não descarregue sobre mim todas as responsabilidades, todas as obrigações, todos os prazos para cumprir, todas as burocracias para deslindar, confortavelmente escondido atrás de um sólido “eu não sou capaz”. Gosto que um homem faça as coisas de homem, como levar o carro à oficina, à inspecção, que são coisas que eu simplesmente abomino ter que fazer. Estou-me nas tintas para as igualdades entre os sexos. Há coisas que eu continuo a esperar que sejam os homens a fazer. Não estou nem um pouquinho interessada em arcar com todo o trabalho pesado, só para mostrar que sou tão capaz como um homem. Não sou nada! Podem existir, não duvido, outras mulheres que sejam tão ou mais fortes, tão ou mais decididas, tão ou mais auto-suficientes do que os homens. Mas eu não. Eu gosto de ser mimada, apaparicada, cuidada, protegida.
Gosto desde rapariguinha, de andar de moto. Não é que a velocidade me fascine, antes pelo contrário, sou até um pouco medricas com essas coisas da velocidade, mas adoro a parte de me poder segurar com força, fechar os olhos, sentir o vento na cara e seguir confiante. Deixar-me levar, conduzir pela estrada desconhecida de mil caminhos sem fim, cheia de curvas apertadas, de rectas intermináveis, de subidas e descidas vertiginosas que fazem o peito arfar e a respiração faltar. Convidar-me para andar de moto é uma das coisas que eu gosto que um homem faça. Deixar que seja o homem a escolher o caminho, a planear o destino, a surpreender-me em cada esquina da viagem com uma novidade bonita, com um carinho, com um beijo, é outra coisa que eu aprecio.
Não gosto que um homem pense que a melhor maneira de fazer o que quer que seja, é simplesmente fazer, por obrigação, sem entusiasmo, sem emoção. Só porque é o que se espera que aconteça. Não gosto de ter que festejar datas bonitas do calendário de forma automática, de maneira sempre igual e previsível. Não gosto que um homem me faça funcionar em piloto automático todo o tempo. Não gosto que reaja sempre da mesma maneira, com as mesmas palavras, com as mesmas expressões. Nem tão pouco gosto quando um homem se contenta com o passar do tempo, sempre igual, sempre vazio, e ainda assim considere que está a ter uma vida óptima. Não gosto que um homem não se aperceba de quando estou triste, ou de quando estou a sofrer. Quando preciso de colo, ou quando preciso só de estar quietinha no meu canto, até a dor passar.
Gosto que um homem fale comigo com ternura, com delicadeza, de uma forma agradável, envolvente, calma e carinhosa. Que me faça sentir especial, querida, única. Que saiba esperar por mim, quando fico mais para trás, ou que adiante o passo para me acompanhar, se estou mais à frente. Gosto que um homem ande comigo de mão dada na rua. Gosto que passe o braço por cima dos meus ombros, que me aconchegue, que me envolva, que me faça sentir dele, que me faça sentir segura e confiante. Gosto que me leve a passear a um jardim, que se sente comigo num banco de madeira, só assim, parados a conversar, ou a não conversar, mas juntos, ombro com ombro, mão na mão, olhos nos olhos. Gosto que um homem me beije só por beijar, devagar, com amor e com desejo, sem pressas e sem exigências, naturalmente, ao ritmo que tiver que ser, demore o tempo que for para demorar.
Não gosto que um homem me trate como se eu fosse, apenas e unicamente, um mero pedaço de carne num matadouro qualquer. Não gosto de palavras grosseiras, nem de gestos ordinários. Não gosto de me sentir como se estivesse sempre a ter que pagar uma factura qualquer sem fim. Como se a vida fosse uma transacção comercial baseada numa troca directa e proporcional, num toma lá, dá cá, entre bens e serviços. Não gosto que um homem me faça sentir como uma prostituta, que tem que merecer o prato de comida que come, vendendo o corpo na primeira viela, sem protestar, nem opinar.
Gosto que um homem seja assim como eu, aventureiro, destemido, audacioso, generoso. Que não me considere maluca só porque eu gosto de apanhar chuva e molhar o cabelo, que não se escandalize quando eu faço um comentário mais atrevido, que não se sinta chocado de cada vez que eu me lembrar de alguém do passado, que não se sinta traído de cada vez que se cruzar com alguém que fez parte de mim noutro tempo. Gosto que um homem seja seguro de si mesmo, que confie em si próprio, que seja confiante nas suas capacidades de saber seduzir e de saber amar.
E pronto, acho que são estas, basicamente, as qualidades que mais amo num homem, e os defeitos que mais odeio. Sei que parece muita coisa, assim tudo descrito parcela a parcela, matematicamente revelado em duas colunas de deve e haver! Talvez seja pedir demais, mas talvez seja errado contentar-me com menos...
Ah, esquecia-me de mais uma coisa, simples mas importante: Não gosto quando um homem pensa que me decifrou, ou que me conhece, ou que possui de alguma forma uma parte do segredo que sou eu, no fim de trocar comigo uma ou duas gracinhas. Afinal, eu sou um organismo tão complexo e compacto, tão insondável e misterioso, que nem eu própria me consegui ainda conhecer por inteiro, ao fim de todos estes anos!...


P.S. E gosto, mas gosto tanto, quando um homem me promete uma coisa e depois se lembra de cumprir!...

domingo, 26 de junho de 2011

O Senhor X

A única vez em que cheguei a estar com alguém realmente um pouco mais, não me sinto bem ao chamar-lhe perigoso, ainda hoje isso me parece uma traição, direi antes alguém mais dado a praticar actos não muito aconselháveis- pronto, acho que assim fica muito melhor, afinal ele para mim nunca foi perigoso, longe disso- foi durante o tempo em que namorei o X.
Vou chamar-lhe apenas X. Afinal, ele ainda anda por aí, segundo me disseram, um pouco diferente, um pouco mudado no corpo e na alma, afinal ele tem mais dez anos do que eu, mas ainda circula pelos mesmos lugares aonde costumávamos “parar”, como se dizia naquela altura. Conhecendo-o como conheço, e presumindo que pelo menos neste aspecto, ele pouco tenha mudado, calculo que as probabilidades de ele chegar a ler este meu pequeno texto, são menos do que quase nenhumas. Mas, ainda assim, e para o caso de ele ler, porque prometeu que ia ficar sempre por perto, caso eu precisasse- outro que fez promessas que não pôde cumprir, as pessoas fazem promessas demais, comprometem-se com o futuro como se o futuro lhes pertencesse, e, pior, conseguem que, quem como eu, está sempre á espera de ter algo em que acreditar, parta do principio impossível de que tudo vai acontecer como é prometido, - por isso, como ia dizendo, prefiro não revelar o nome dele. Na realidade não andava muito longe de X. E se ele souber que ainda me lembro dele, sei que vai ficar muito feliz, mas sei também que ia detestar ter o nome assim exposto aos quatro ventos. No nosso tempo, havia uma espécie de código de honra que partilhávamos. Qualquer coisa como: “vale tudo, mas nunca se chiba um amigo”, sendo que chibar, para quem não conheça, era o calão, agora não sei se ainda é, que usávamos para dizer denunciar, delatar, entregar. Por isso, e porque não me agrada que ele pense que me chibei dele, até porque ele é uma das minhas recordações queridas, chamo-lhe X.
X era o rei, eleito popularmente e por ter bastantes provas dadas de competência, do bairro mais terrível, mais problemático e mais volátil que existia naquele tempo, já lá vão vinte e oito anos, perto do lugar aonde eu morava. A simples menção do nome dele abria portas escusas, permitia atravessar ruas proibidas em segurança, era o melhor salvo-conduto que alguém podia ter. Quando se começou a espalhar pelas ruas que eu era a nova miúda do X, deixei de ter que me preocupar com os engraçadinhos que se metiam comigo, que me diziam gracinhas parvas, que me tentavam acompanhar para a escola, para casa. Se algum atrevido desavisado se aproximava mais do que convinha, havia sempre um braço sensato por perto para retê-lo e dizer:”- Tás parvo, ou quê? Essa é a miúda do X!” Pronto, e o atrevido lá recuava, embaraçado, olhando para os lados “- Hé pá, mas eu não ia fazer nada. Só estava a falar com a garina.” E eu seguia o meu caminho, tranquila, princesa consorte do país enorme da minha juventude, balançando o andar atrevidamente, apreciando os meus vassalos pelo canto do olho e levando comigo aquela sensação tão boa que é a gente saber-se protegida e cuidada. Ando um bocado esquecida dessa sensação, mas é muito boa! Faz com que uma data de coisas valham a pena. Eu sou assim meio antiquada em certas coisas, ainda gosto que um homem tome conta de mim na rua, nas situações mais complicadas, ainda me sinto bem se encontro um ombro amigo e protector. Não me importo nada de mostrar que sou mais fraca, que tenho medo de muitas coisas, que me assusto no escuro, que às vezes me sinto tão sozinha e tão perdida que dava tudo para me sentir protegida, amada e cuidada outra vez. Há quem lhe chame falta de amor-próprio, falta de auto estima, pois não quero nem saber. Seja lá o que for que se chame, eu gosto de me sentir pequenina e ter alguém mais forte ao lado para me amparar.
Já tinha tido um amigo, o meu Carlos querido da infância, que me tinha protegido dos rufiões do pátio da escola, que me tinha ensinado que a vida pode ser muito mais bonita quando temos alguém que se interesse por nós, que nos defenda quando precisamos, com quem possamos contar em todos os momentos bons, e também nos menos bons. Mas o Carlos, naquela altura, pertencia a um outro mundo muito diferente do mundo aonde eu circulava. Era como o mundo da luz versus o mundo das sombras. Além disso o meu querido Carlos não era meu namorado, nunca foi. Sempre foi e será, o meu melhor amigo, esteja aonde estiver. E aos dezasseis, dezassete anos, namorar era para mim mais necessário do que respirar. Namorar, trocar de namorado, era o que me mostrava que era bonita, que era interessante, que conseguia fazer as pessoas gostarem de mim. Direi mesmo, e sem medo de exagerar que namorar era tudo o que eu tinha, e era tudo o que me impedia de mergulhar no mar gelado da tristeza sem fim. Talvez por isso, quando decidi que ia entrar no bom caminho da decência e do comportamento exemplar, a minha vida tenha ficado assim tão triste, tão vazia de alegria e de cor, tão vazia de tudo, e tão vazia de mim.
Passei um bom tempo, e bons tempos aliás, com o X! Espantosamente, quando estava afastado das suas “obrigações profissionais”, que eram muitas e exigiam dele uma dedicação quase exclusiva, e quando dispunha de mais tempo para estar comigo, o X era completamente diferente daquilo que as pessoas julgavam. Não era nada agressivo, nem maldoso, nem comia “criancinhas ao pequeno-almoço” como era preciso que todos acreditassem. Era um homem de vinte e seis anos, bonito, charmoso, bem-falante, capaz de ter conversas muito interessantes, preocupado com a mãe, com as irmãs, sempre disposto a emprestadar dinheiro a quem precisasse, sempre disposto a interferir em favor de alguém mais fraco. Não sei se a vida dele poderia ter sido diferente, caso tivesse tido mais oportunidades para estudar, para alargar os seus horizontes… Lembro-me que ele adorava ver os meus livros de francês e de inglês. Numa altura chegou a levar os livros para casa, “para ver se aprendo umas coisas”, como ele dizia. Sei que desde sempre tinha vivido por ali, crescido naquelas ruelas e becos escusos, acompanhado com os mais velhos e aprendido tudo “aquilo que sei na escola das ruas”. Era inteligente, carinhoso, experiente, envolvente, afectuoso, amoroso e acima de tudo, era um muro protector entre mim e as mágoas da vida.
Mas, com o passar do tempo, e naquela altura o tempo passava depressa demais, fui começando a sentir saudades da liberdade de andar pelas ruas sem ser vigiada, sem sombras a acompanharem-me para os cafés, para os centros comerciais, guarda-costas dissimulados mas mal escondidos que estavam ali para que nada me acontecesse, e porque o X tinha mandado. De uma certa forma, era como se os tentáculos dele se fechassem á minha volta e me cortassem a respiração. Comecei a sentir-me igual ao que me sentia com o meu pai. Presa, encurralada, sem opções, sem direito a ter opiniões nem a fazer escolhas. Eu sei que as intenções dele eram boas, ou egoístas, mas não o fazia por mal. Era a sua forma de cuidar de mim. Agora lembrei-me da nossa música: “Muito estranho”, uma canção romântica brasileira, aonde o cantor repetia insistentemente “cuida bem de mim”, o que nós adorávamos essa música! Era o que o X fazia. Cuidava de quem amava. Mas eu queria a minha liberdade de ir e vir de volta.
Quando terminámos o nosso namoro, a nossa relação, não sei bem como lhe chamar, quando terminámos aquilo que tínhamos, o X disse-me que apesar de não estarmos mais juntos, ele ia continuar por perto. “-Se precisares, carocha- ele chamava-me carocha, pequenina como as carochas, mas muito mais bonita, era o que ele dizia – sabes aonde me encontrar. Para ti vou estar sempre disponível. Esteja com quem eu estiver, se quiseres, sabes que estou aqui.” Esteve com muitas e muitas outras depois de mim. Muitas outras rainhas temporárias, deslumbradas com a popularidade dele, com os abraços dele, com a forma bonita que ele tinha de fazer com que qualquer mulher se sentisse nas nuvens perto dele. Procurou-me muitas vezes depois disso. Estivemos muitas vezes perto, tão perto de reatar de onde tínhamos parado. Matámos um bocadinho as saudades, divertimo-nos um bocadinho. Mas não voltou a acontecer. E o X foi desaparecendo aos poucos da minha vida. Só ficaram as saudades, as boas lembranças, os ecos dos sons, das conversas, das músicas, uma certa nostalgia e um carinho sem fim.
Ficou também a recordação boa e deliciosa do quanto é bonita a vida quando estamos felizes, porque eu fui muito feliz com ele! Da forma como até as luzes parecem brilhar mais, e as cores todas do mundo parecem mais bonitas! Ficou também a vontade de sentir de novo um braço forte fechar-se á minha volta, rodear-me, enlaçar-me, fechar-se sobre mim como um escudo protector. Uma vontade louca de mergulhar de novo no oceano profundo dos olhos de alguém e encontrar amor. Ficou a saudade de me sentir querida, protegida, cuidada e amada, como era naquele tempo em que fui a miúda do X, o rei incontestado, perigoso, marginal, e lindo, das ruas do seu bairro e, durante um tempo, do meu coração.

sábado, 25 de junho de 2011

Porto de abrigo

“Águas verde-esmeralda ou azul-turquesa …pequena enseada com um pequeno porto de abrigo…” Tão maravilhosamente encantador, não é? Era sobre uma praia bonita. Li há uns dias, no mural de um amigo.
E porque eu sou bem rápida em imaginar coisas, mas não faço por mal, sou mesmo assim, comecei logo a imaginar as águas calmas ou revoltas do mar, cheiinhas de mil reflexos brilhantes, a dançarem, a bailarem ritmadamente ao sol. As ondas a mudarem de cor alternadamente, conforme se agitam ou descansam. Ora azul-turquesa, ora verde-esmeralda… sempre como pedras preciosas de valor eterno, porque tudo o que é precioso tem valor eterno, e sempre belas e selvagens, porque não se pode ser verdadeiramente belo, se não se for um pouco selvagem. Deve ser possível ficar horas assim, olhando simplesmente para tanta beleza, sentindo um arrepio na pele perante a imensidão do mar aberto e da maravilha que é poder só olhá-lo e deixar-se ficar! Não é preciso esforço para apreciar o que é bonito, nem é preciso ser poeta ou visionário. A beleza, quando é assim tanta, imensa e avassaladora, entra-nos apenas pela alma dentro, mesmo sem termos necessidade de fazer nada por isso. A beleza da natureza é grátis e é generosa. Dá-se simplesmente, e quem a vê, simplesmente também a toma e guarda no coração. Não se vangloria depois, não faz alarde da sua conquista, apenas dá e recebe, numa atitude cavalheiresca de respeito para com tudo o que se dá de graça, e para com tudo o que faz a nossa vida mais bonita e gostosa.
Mas a minha parte preferida, na citação sobre a praia, foi aquela do “pequeno porto de abrigo”. Andar pelo mar revolto, com os olhos na costa escarpada e irregular, sempre em busca de um local para atracar, sempre na esperança de encontrar um porto de abrigo, tem sido a história da minha vida. Desde menina pequena até hoje, continuo à procura, continuo a vigiar a costa, com os meus óculos de andar no mar, com a minha mão cansada a fazer sombra sobre os olhos. Como se fosse um espírito sem descanso, uma daquelas almas penadas, etéreas e transparentes, que enchem as histórias de fadas e duendes. Como se personificasse um daqueles vultos irreais que habitam as montanhas nebulosas da Escócia, numa das histórias misteriosas que eu gosto de ler.
Um porto de abrigo, um porto seguro, um sítio para descansar depois das tempestades. Cheguei mesmo a contar este pensamento à minha irmã; a minha irmã que adora deitar baldes de água fria nos meus sonhos e nos meus pensamentos, com uma precisão cortante que muitas vezes eu preciso de sentir; e ela perguntou-me a rir:”-É. E quanto tempo é que ias aguentar nesse teu porto de abrigo?” Pois, não sei. Talvez uma hora só, para descansar o corpo e secar as roupas molhadas da viagem. Talvez meses, talvez anos. Talvez me acostumasse a viver em terra e ganhasse aversão ao mar. Talvez passasse a amar mais a tranquilidade da terra firme, e me desgostasse dos perigos sedutores e das tentações que encerram as águas revoltas. Porque até o marinheiro mais embrutecido e narcotizado pelo cheiro louco do oceano, precisa um dia de descansar e pendurar a rede num qualquer lugar, num qualquer porto seguro de uma qualquer praia.
As pessoas gostam de complicar a vida, e a vida vai-se deixando moldar como um boneco mole sem vontade própria, nas mãos de quem a complica. Gostam de fazer planos, marcar datas, fazer previsões antecipadas. Sofrem pelo que já passou e não podem mudar, sofrem pelo que têm medo que vá acontecer num futuro ao qual nem sabem se chegam. Para quê saber quanto tempo ia ficar no meu pequeno porto de abrigo? Para quê estragar a alegria da chegada, depois de tanto tempo à procura, em buscas infrutíferas, pensando qual a hora de ir embora de novo?
Já fiz muitos planos, marquei datas que eram para ser para sempre, fiz bolinhas à volta dos dias, e das semanas compridas e arrastadas do calendário triste da minha vida. Também já acreditei que o que não tem futuro daqui a dez, vinte anos, então não tem direito a ter presente. Medi os sentimentos, pesei-os, avaliei-os como se fosse uma funcionária exigente de uma qualquer companhia de seguros, que precisa de saber qual o risco de segurar certa e determinada pessoa. Tomei todas as decisões direitinhas, honestas e correctas que eram para tomar. Deixei toda a gente à minha volta encantada com o meu modo acertado de pensar, com o meu raciocínio exacto e previdente. Desfiz as dúvidas todas de quem não me queria dar crédito, de quem achava que eu não ia ser capaz, só porque um dia, lá muito atrás, gostei de sonhar, de ser feliz, de correr sem limites, livre de correntes ou coleiras, sem ser marcada a ferro por ninguém. E mesmo assim, nada deu certo. Apesar das previsões, dos riscos calculados, dos planeamentos ajuizados, apesar de me ter sufocado em vida durante anos e anos, nada foi como era para ter sido.
Então não consigo perceber qual a necessidade que as pessoas têm de, mesmo depois de reconhecido o fracasso do empreendimento, insistirem na manutenção dos mesmos caminhos, das mesmas escolhas. Eu sou contra o prolongamento do sofrimento, só porque existe menos de um por cento de chance de que talvez um dia, talvez e apenas talvez, as coisas ainda se possam recompor e entrar de novo nos carris. Por mim, acabaram-se os dias de fazer grandes planos, de calcular e planificar tudo, de reduzir o tempo que me resta de vida a uma folha de cálculos impiedosa e desinteressante.
Agora, o que eu gostaria mesmo, era de olhar a costa rochosa e escarpada, a costa inacessível que se retrai e defende, como se cada viajante cansado fosse um invasor bárbaro de outros tempos, e conseguir vislumbrar uma reentrância, uma falha nos rochedos, um pequeno porto de abrigo. Uma pequena praia quente, saborosa, acolhedora, bonita, aonde eu pudesse descansar. Aonde me pudesse deitar na areia e ficar ali, simplesmente perdida na beleza de contemplar o mar imenso e selvagem, perdida no gosto bom dos salpicos de espuma das ondas.
E sem ninguém que me perguntasse por quanto tempo ia ficar, sem ninguém que me pendurasse um calendário na árvore mais próxima, e me fizesse usar um relógio no braço.Sem ninguém que me perguntasse quem eu sou e de aonde venho, nem quisesse saber o meu nome nem a minha história. Que não me fizesse perguntas, que não me julgasse, nem formulasse juízos, nem lesse sentenças, e nem proferisse condenações.
Talvez com alguma pessoa que me tomasse apenas e simplesmente, como se tomam as ofertas generosas e desinteressadas. Sem se vangloriar depois, sem fazer alarde da sua conquista, sem precisar de ser poeta ou visionário. Alguma pessoa assim como eu, que amasse o que é belo e o que é bonito, só porque é belo e é bonito. Sem planos, sem amanhãs, sem as indiferenças que vêm depois de, sem o que está para vir. Talvez alguém que fosse capaz de dar e receber, apenas e de graça. Numa relação cavalheiresca de respeito para com tudo aquilo que faz a nossa vida mais bela e mais gostosa.
Apenas duas pessoas numa praia qualquer, de um país qualquer neste mundo imenso que é o nosso, e aonde temos o privilégio de viver.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os meus amigos da Internet

Amo os meus amigos da Internet.
Depois dos meus filhos, que têm o seu lugar natural, garantido, incontestado e imutável, de reis do meu coração, as pessoas de quem mais gosto no mundo, presentemente, são os meus amigos da Internet.
Tanto os amigos daqui, do meu blogue, que têm a paciência admirável de ler os textos que escrevo, como os meus amigos do facebook que aturam muitas vezes os meus comentários palermas a tudo e a nada, os meus amigos fieis e constantes no email, todos eles possuem uma parte enorme, e bem merecida, dos meus afectos.
Com a Internet reencontrei antigas companheiras do tempo de escola, que pensava nunca mais vir a encontrar. Amigas queridas daqueles tempos em que ainda podíamos mudar qualquer coisa, dos tempos em que realmente o destino estava nas nossas mãos, em que sonhávamos e ríamos e ninguém achava estranho e nada fazia mal nenhum. Amigas que se tinham perdido de mim e eu delas, nesses caminhos estranhos e misteriosos da vida de cada uma de nós.
Encontrei familiares desconhecidos, secretos e distantes, que viviam só nas crónicas de família, que eu nem sabia se existiam de verdade, que nem desconfiava aonde moravam. Familiares que estão do outro lado do mundo, num outro continente, que falam outras línguas, que têm outros costumes. Primos e primas que fazem agora parte dos meus amores puros, das minhas amizades, que aquecem um pouco mais os meus dias.
Fiz amigos em países distantes, pessoas interessantes e especiais que nunca viria a conhecer, nem a encontrar fora da Internet. Pessoas sensatas e queridas, divertidas, calorosas, únicas e muito estimadas. Pessoas que me enviam mensagens extraordinárias, que me fazem rir, que nunca me fizeram chorar ou ficar triste.
Vi fotografias maravilhosas, encantadoras, deliciosas, de sítios e de lugares que nunca tinha visto. Descobri costumes, festas e tradições que nem sequer imaginava que existissem. Visitei países diferentes, praias diferentes, céus diferentes. Atravessei o mundo inteiro sem mesmo sair de casa, sem precisar de bagagem nem bilhete de transporte. Vi de novo fotografias da minha terra, das minhas ruas, do meu sol brilhante, das minhas recordações de infância, simples, bonitas, impregnadas de saudades sem fim.
Encontrei pessoas que, como eu, nasceram no meu amado Moçambique cor-de-laranja., com as suas acácias vermelhas, com as suas noites enfeitadas com milhares de estrelas faiscantes, com as suas cores quentes e gostosas, com a sua paisagem doce de mar azul. Pessoas simpáticas, gentis, agradáveis que falam de coisas anteriores ao meu tempo, do meu tempo, de um tempo que não chegou a ser e de um outro tempo que já se foi, mas que continua vivo nos nossos corações.
Sei que às vezes, se calhar muitas vezes, quem sabe até vezes demais, escrevo tolices, coisas mais fúteis, mais patetas, faço comentários mais ousados, mais descarados do que devia. Mas nunca, nunca mesmo, neste ano inteirinho de Internet, recebi nenhum comentário grosseiro, nem indelicado, nem inconveniente. Pelo contrário, todos têm sempre sido bem simpáticos comigo, todos têm tido imensa paciência com os meus disparates, com as minhas possíveis faltas de tacto, com as minhas prováveis inconveniências.
Antes de ter os meus amigos da Internet, nem sei há quanto tempo ninguém me dizia que gostava do que escrevo. Ninguém se interessava por saber se estou bem, ou se estou mal. Ninguém me mandava parabéns pelos meus anos, e este ano, recebi tantos parabéns, até flores recebi! Virtuais, é certo, mas flores na mesma. Porque eu entendo que as coisas mais importantes da vida, não são aquelas que podemos agarrar, dobrar e guardar na algibeira. As coisas a que dou mais valor, aquelas que guardo no meu coração, são aquelas que não se tocam, mas que se sentem, e que aquecem a alma nos dias mais escuros, mais frios e mais sozinhos.
Perdi a conta ao tempo que se passou desde a última vez em que alguém me tinha dito que sou bonita, que alguém me tinha feito alguma espécie de elogio simpático. Nem sabia mais o que era ser bonita, o que era sorrir a uma palavra mais picante, tinha-me até esquecido de que sou uma pessoa como todas as outras. Gosto que me tratem bem, gosto que me digam coisas bonitas, gosto de me sentir admirada. E não creio que isso faça de mim uma pessoa ordinária, ou leviana, seja lá o que for que esses dois conceitos terríveis e sérios possam significar para cada um.
Sou apenas assim como sou, simples, comum. Alguém que adora fazer, às vezes, comentários mais atrevidos, que adora brincar, divertir-se. Que gosta de dizer coisas inconsequentes e engraçadas. Alguém que gosta também de sonhar, brincar um pouquinho, sem magoar ninguém, sem ofender ninguém, imaginar, escrever, sentir e ver. Que gosta de ser tocada pelo calor do sol, pelo fresco do vento, pela aragem que sopra quando o dia está a nascer. Sou apenas e simplesmente uma pessoa que se sente bem ao ver fotografias bonitas, ao ler palavras simpáticas, ao imaginar coisas especiais, dias diferentes, que se emociona com um simples toque, com um mero olhar, que chora e ri com a mesma facilidade. E com as pessoas queridas que encontrei na Internet, posso ser, fazer e ter tudo isso, sem medos, sem cobranças, sem represálias.
Não me importa de não vir nunca a conhecer pessoalmente todos os meus amigos virtuais. Sei que o mais provável é que nunca me chegue a cruzar com alguns, ou com a maioria deles. Mas a amizade não se toca, não se quantifica, nem se contabiliza. Sente-se apenas. Assim como também só se podem sentir a alegria, a felicidade, os desejos e os afectos.
Por isso, e porque a amizade não se agradece, acontece simplesmente (e esta frase é de uma das minhas amigas), espero poder continuar, por muito e muito tempo mais, a conservar e a poder usufruir da companhia virtual de todos os meus queridos e estimados amigos da Internet. Gosto muito de vocês, de cada um à sua maneira, de todos em especial. A minha vida seria infinitamente mais triste sem a vossa companhia.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sorria sempre

“Aconteça o que acontecer na sua vida, nunca deixe de sorrir. A menina tem um sorriso lindo!” Foi o primeiro elogio que um homem me fez. Eu devia ter uns onze anos, e a minha mãe tinha-me mandado ir á papelaria, comprar um caderno para a escola.
Nunca ninguém me tinha feito uma observação tão bonita e tão sincera. O senhor da papelaria, tinha uma cabeça linda, cheia de cabelos brancos como a neve, e uns olhos azuis simpáticos e bondosos, que faiscavam atentos, por detrás de uns óculos de lentes espessas. Os outros elogios que recebi depois do dele, não eram tão delicados, nem as palavras vinham acompanhadas de uma entoação tão calma e tão pacífica. Mas, esteja aquele senhor aonde estiver, se ainda por cá estiver, gostava muito que ele soubesse que, e embora me tenham acontecido muitas coisas na vida, fiz exactamente como ele me aconselhou. Não parei de sorrir.
Sou uma sorridente por natureza. Sorrio e choro com a mesma facilidade. Mas gosto mais de um bom sorriso! Não é preciso muita coisa para me fazer sorrir. Uma flor mais bonita e delicada, uma paisagem mais encantadora e comovente, o sol cor-de-laranja do meu coração, o mar azul e esverdeado, as montanhas com os seus picos inacessíveis e desafiadores, as brincadeiras inocentes dos animais, uma cor mais alegre e apaixonante, músicas de que gosto, enfim… Coisas que passam despercebidas a quem está comigo, mas que ficam impressas nos olhos, no corpo e na alma, e, que me fazem sorrir, mesmo quando mais ninguém percebe porque estou a sorrir.
Às vezes o meu sorriso é um sorrir de circunstância. Também não faz mal, porque a maioria das pessoas não é capaz de notar qualquer diferença. Há muito tempo que ninguém é capaz de distinguir quando sorrio com vontade de estar contente, ou quando estou a sorrir num convite para me deixarem em paz. E quando sorrio, tudo fica bem. O resto da humanidade, aliviado, deixa-se com agrado convencer de que estou óptima, de que todas as coisas estão exactamente como deveriam estar, e fico sossegada no meu cantinho. Sim, porque, como dizia a minha mãe, “não serve de nada andarmos por aí a contar as nossas mágoas ao mundo”.
Sorrio até quando estou triste. Sorrio porque sorrir me faz bem, me dá força e ânimo. Porque assim consigo acreditar que tudo vai passar, que amanhã tudo vai estar melhor, que depois deste há-de vir um novo dia. Gosto mais de mim quando estou a sorrir. Como se o sorriso fosse uma entidade com vida própria que desce não sei de onde, para me fazer companhia.
Sorrio sozinha muitas vezes. Sorrio, canto e choro sozinha muitas vezes. Se uma aragem mais morna desliza sobre o meu rosto, se uma brisa suave e refrescante se insinua por entre os meus cabelos, se o sol me aquece a pele como um abraço tentador, pronto, lá estou eu a sorrir. Se ouço uma palavra mais querida, se leio um livro que me emociona, se vejo uma fotografia que me faça sonhar de olhos abertos, se escrevo algo de que gosto, mesmo sem saber se a pessoa que eu mais queria vai ler, nessas alturas todas e em muitas outras, sorrio com gosto, com vontade e com prazer.
“Vilbro, essa tua filha vai-te arranjar problemas! Olha só a maneira como ela sorri! Derrete o coração a um homem!”, era um colega do meu pai. Desde pequenita que o meu pai me levava, de vez em quando com ele para o trabalho, para a “Fazenda”, como dizíamos em Moçambique Os colegas dele gostavam muito de mim. Naquele tempo, as pessoas gostavam de mim de graça, sem ser preciso que eu merecesse ou tivesse que fazer por isso… Como é bom ser pequenino... Mas, voltemos á questão do sorriso. “- Não te preocupes. Estou a pensar comprar um cinturão com duas pistolas, daqui a uns anos. Vou tomar bem conta dela. Dou um tiro ao primeiro malandro que se aproximar!”, respondia o meu pai, na brincadeira, porque ás vezes, quando ele era um homem entre homens, gostava de brincar. Mas não tomou. Não tomou conta de mim, nem me protegeu dos malandros que se aproximaram. E, naquela altura, quando ele dizia que ia tomar conta de mim, eu acreditava. Por isso doeu mais. A desilusão dói sempre mais quando é provocada por alguém a quem amamos. E naquela altura, o meu pai era o meu herói mais querido! Tudo isto para explicar que desde pequenita, o sorriso está presente na minha vida, e faz parte intrínseca de mim
Já houve uma ocasião em que chorei e sorri ao mesmo tempo. “- Nunca vi ninguém fazer isto! Mas estás a chorar, ou estás a rir?” Tinha dezoito anos. Estava no hospital. O meu pai tinha descoberto finalmente, ou tinha finalmente desistido de fingir que não sabia, que eu namorava. O meu namorado foi-me visitar ao hospital, descuidado das horas e sem se certificar primeiro se eu estava sozinha, e pronto… fomos desmascarados. As enfermeiras não perceberam a raiva do meu pai, os berros, as ameaças de processar o hospital, os médicos, o mundo inteiro, a saída intempestiva. Eu só chorava, de vergonha, de tristeza, de medo. Chorava, mas sorria. Sabia que aquela era a desculpa de que estava à espera, para arranjar a coragem necessária para me ir embora. Eu sou assim, cobarde e fraca! Aguento até não mais poder. Aguento até quase rebentar de dor. Só se for empurrada, é que me decido a agir. E era aquele “empurrão” que me fazia sorrir, no meio das lágrimas, porque apesar de tudo, sabia que tinha atingido o tal ponto sem retorno.
E assim tenho vindo a atravessar a vida sempre com um sorriso. Um sorriso substitui palavras, desarma os corações, apazigua os conflitos, derrete o gelo da indiferença. Ou, muito mais simplesmente, um sorriso faz-me sentir quase feliz. Então, além de agradecer a alguém o fazer-me sonhar, agradeço-lhe também o fazer-me sorrir. Porque ultimamente tenho sorrido ainda mais do que era habitual, e com mais vontade, e com mais prazer.
É preciso muito pouco para me fazer sorrir. Às vezes basta uma ilusão. E essa ilusão pode encher todo o meu mundo

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Porque eu mereço!

Sempre soube que a paixão não dura para sempre. Muitas amizades também não se estendem até ao fim da vida. Mas acredito que o amor possa ser eterno.
Na minha forma de ver as coisas, o amor é uma mistura saudável de paixão, amizade e companheirismo. Quando o tempo passa, e os anos se estendem preguiçosamente sobre qualquer relação, quase sempre, é certo que a paixão acaba. Acaba aquele desejo louco, tão bom e ardente, tão delicioso, aquele arrepio que percorre o corpo todo a um pequeno toque, a uma simples carícia! Termina aquela vontade inexplicável de estar com a outra pessoa, a urgência infundada de ver, telefonar, escrever para quem amamos. Nessas alturas, acabam as relações que vivem apenas dos sentidos, da vibração da paixão passageira e subsistem as outras. Subsistem as relações assentes e baseadas na amizade, na troca de ideias em comum, no gosto de fazer coisas novas ou coisas antigas, nos planos simples ou mais complicados, nos objectivos, nas esperanças…
Acho possível manter uma relação com outra pessoa, tendo o companheirismo e a amizade profunda, a estima e o respeito, como principais elementos dessa mesma relação. Chamo a isso o tipo de amor mais comum. Não o género de amor com o qual eu sonhava em jovem, que eu procurava de abraço em abraço, de beijo em beijo, sofregamente, desesperadamente, mas se calhar o amor possível para a maioria dos casais. Sou muito bem capaz de aceitar que assim seja, era muito bem capaz de viver com isso para o resto da vida.
Mas também penso que mulher alguma consegue amar um homem a quem não admire. Por quem não nutra algum tipo de encantamento, de especial dedicação e carinho. É muito difícil continuar a amar alguém com quem já não se gosta de fazer nada, nem as coisas mais simples, mais triviais, como acordar bem cedo e ver o sol a nascer, admirar-se com um arco-íris lindo a brincar no céu num dia cinzento, maravilhar-se com a lua muito redonda e branca num céu carregadinho de mil estrelas a piscar. É difícil continuar a amar alguém com quem já não se ria da vida, das desilusões, dos contratempos, das piadas repetidas e sem graça, alguém com quem já não se tenha vontade de fazer planos para mais logo, para amanhã ou para daqui a dez anos. Custa muito ter que continuar a amar alguém com quem já não se consiga festejar, fazer almoços especiais, piqueniques no chão da sala de jantar, carregar a mesa para o quintal e almoçar fora, ir de madrugada à praia quando ainda não está ninguém só para ter a praia inteirinha para nós. E pior ainda que todas estas dificuldades, é impossível continuar a amar alguém com quem já não se possa contar para chorar quando estamos tristes ou perdidos, alguém que já não queira saber do que sonhamos, sentimos ou desejamos. Alguém que tenha a infernal habilidade de transformar todos e quaisquer momentos dos dias e das noites em lutas constantes, em mágoas e recriminações, em deveres e obrigações. Não se consegue amar, respeitar e admirar uma pessoa que aos pouquinhos se vai tornando num completo estranho, num invasor desconhecido que partilha a nossa cama, noite após noite, que se acaba por transformar por fim, numa simples pessoa qualquer.
Por muita boa vontade que haja, por muitos bons propósitos que se tenham formado com esforço, empenho e dedicação, chega uma altura em que simplesmente se sente que já não dá para aguentar nem mais um dia desses dias sem vida. Tem forçosamente que acontecer o momento em que nos perguntamos o que estamos a fazer connosco próprios. Que caminho estamos a percorrer e aonde vai dar? Questionamo-nos sobre se somos nós ainda a andar, ou se é apenas o nosso corpo a ser arrastado, pelo caudal impetuoso de um rio do qual não se sabe o destino? Sim, porque, e isso aprendi eu, nem todos os rios vão dar ao mar. Alguns rios sucumbem pelo caminho, fracos, secos, asfixiados pela falta de chuva, esgotados de forças pelos terrenos sedentos por onde correm.
“- É o que acontece com toda a gente…”, já me disseram. ”- Porque é que contigo ia ser diferente?” Não acredito que aconteça com toda a gente! Olho para as pessoas que se cruzam comigo nas ruas, e muitas delas têm um semblante despreocupado, tranquilo, feliz. É impossível que dentro das quatro paredes das suas casas, passem por toda essa tristeza, por todo esse dissabor e consigam ficar assim, impávidos, indiferentes, continuando simplesmente a existir! E mesmo que seja verdade, mesmo que seja o que acontece com toda a gente, não é o que eu quero que me aconteça a mim, para o resto de tempo que ainda me falta viver.
Não é que eu me ache diferente, nem tenha a pretensão de ser melhor do que os outros, como a minha irmã de vez em quando gosta de me dizer, não é nada isso! Nem é também porque considere que sou, de alguma forma, especial e distinta de toda a multidão apática que se arrasta num oceano cinzento de desinteresse. É que eu, por qualquer anomalia de fabrico, por qualquer defeito genético, qualquer influência hereditária talvez, quem sabe, se por culpa dos genes desvairados e loucos do meu pai, ou dos genes angustiados e deprimidos da minha mãe, eu, como ia dizendo, ainda quero ser feliz!
Não apenas por momentos separados e soltos, como diz uma amiga minha. Momentos são pouca coisa num universo tão grande e sem fim! Um momento pode ser um minuto, uma hora… Eu quero encontrar a chave misteriosa da fechadura que tranca os tais momentos felizes, e os divide em compartimentos estanques. Quero ser capaz de os esticar e unir, prolongar e fazer durar até que se confundam todos os momentos num só momento. Um grande e eterno momento para lá do relógio, para lá do calendário. Um momento bonito, quente, gostoso! Um momento mágico com luzes brilhantes iguais às luzinhas de mil cores que penduramos na árvore de Natal, com estrelas cintilantes como diamantes a tremeluzir no aveludado do céu! Um momento repleto de luares lânguidos, praias quentes com um areal imenso e palmeiras molhadas de mar, e campos macios e verdes cheios de flores lindas, flores como amores, fáceis, simples, abandonadas á beleza única de viver selvaticamente! Um momento que tenha mil alegrias loucas, mil prazeres para desfrutar devagar e sem pressa de nada, nem de coisa nenhuma, que tenha mil e um beijos calmos ou escaldantes, carícias mais atrevidas ou mais inocentes, abraços saborosos e promissores! Um momento grande, enorme, repleto de batidas mais fortes do coração e de muito, muito amor!
O tal amor que para mim, deve ser feito de paixão, amizade e companheirismo. O tal amor que hei-de um dia encontrar. E porquê eu? Porque eu simplesmente sei que mereço. Nem valia a pena continuar a viver num mundo aonde não fosse possível encontrar, e viver, um amor assim.

terça-feira, 21 de junho de 2011

"Vamos aquecer o sol"

Há muito tempo, devia eu ter os meus dezasseis, dezassete anos, li “Vamos aquecer o sol”, de José Mauro de Vasconcelos. Já tinha lido a primeira parte, “O meu pé de laranja lima”, e apaixonei-me irremediavelmente pelo personagem  Zézé. O Zézé era um menino amoroso, carinhoso, brincalhão e muito sensível, que via tudo com olhos diferentes do resto das pessoas, que tinha um coração do tamanho do mundo e que, por isso mesmo, sofria demais…
Na segunda parte da história, no “Vamos aquecer o sol”, o Zézé transporta do mundo do cinema para a realidade dos seus sonhos, um pai substituto, que vive dentro da sua imaginação. É ao mesmo tempo pai, amigo, confidente, companheiro inseparável. Este pai imaginário é o seu actor de cinema preferido. Quase poderia jurar que o actor era Maurice Chevalier, mas já se passaram tantos anos desde que li o livro, que não posso garantir que fosse esse mesmo o actor... De qualquer forma, existia mesmo na realidade, a muitos e muitos quilómetros de distância, num outro país, a pessoa que o Zézé, na sua imensa solidão, transformou em seu pai do coração. Passam-se muitos anos, e o menino sonhador transforma-se em homem adulto, já na meia-idade, já muito vivido e cheio de calos da vida. Então, um dia, chega à cidade aonde ele vive, o actor que na infância tinha sido o seu companheiro imaginário. O antigo Zézé, agora um homem feito, agora José, vai a uma entrevista concedida aos jornalistas, pelo seu ídolo da meninice. Aproxima-se dele, aperta-lhe a mão, ao que o actor corresponde naturalmente. E é então que vem a parte mais linda de toda a história: aquele homem, que já tinha vivido e sofrido, lutado, perdido sonhos e esperanças, sentiu, ainda assim, uma enorme tristeza ao aperceber-se que o seu grande amigo, o seu companheiro inseparável, o único amparo que tinha tido em criança, o olhava com indiferença e nem sequer sabia que tinha sido, um dia, seu pai!
Tão, mas tão absolutamente lindo! Ainda hoje me emociono quando penso nesta história! Acontece-me sempre chorar quando penso que, por vezes, construímos uma imagem de certas pessoas, que nada tem a ver com o que elas são na realidade. Mas o nosso querer é tanto, a nossa ilusão é tão poderosa, ou talvez seja a nossa solidão que é tão imensa, que dentro do nosso coração começamos a acreditar que a pessoa é de facto como a sonhamos. E, se um dia, temos a oportunidade, como o Zézé teve, de encontrar a tal pessoa cara a cara, damos por nós desiludidos, tristes, espantados de a realidade não corresponder ao que sonhámos. Magoados por aquela pessoa tão especial, tão querida, não nos dar a mínima importância e não nos distinguir do resto de todos os outros comuns mortais. E, mais espantoso ainda, contra todas as leis da lógica e do bom senso, temos a esperança secreta, embora não o consigamos admitir, de que a pessoa em questão olhe para nós e nos reconheça!
Já há muito tempo que não me envolvia numa situação parecida. Claro, quando era criança tive, como se calhar quase todas as miúdas têm, os meus amigos invisíveis, os heróis de banda desenhada, os cantores, os artistas que eu encarnava nas minhas brincadeiras, com quem sonhava á noite, com quem conversava, a quem fazia perguntas… mas, em adulta, isso não me tinha voltado a acontecer. Comecei a tratar dos meus afectos, e das minhas relações sentimentais, numa base que nada tinha a ver com idealismos, nem utopias. Pensava que estava já imune a essa magia de associação de ideias, de transferência de realidades, de abracadabras das mil e uma noites de encantar. Considerava-me crescida demais para me voltar a perder numa história de faz-de-conta. Tinha a certeza absoluta de que as fantasias, as ilusões que adoçaram a minha triste meninice, eram já parte definitiva do passado.
Mas, porém, de há uns tempos para cá, comecei, sem dar conta a princípio, sem atribuir muita credibilidade, sem querer dar demasiada importância, a perder-me no mundo dos sonhos, de novo. Muito provavelmente, a fantasia aos quarenta e quatro anos, já não merece tanta desculpa, nem se justifica tão facilmente, como aos dez anos. Mas, ainda assim, é a fantasia que me tem impelido a ter esperança, nestes últimos dias. É essa ideia, essa ilusão, que tem feito com que a vida valha a pena de novo. Como se tivesse encontrado um pedacinho de mim, há muito tempo perdido e por isso, agora mais apreciado.
Há uma parte de mim, a parte mais lúcida e racional, aquela que me fala com voz grossa, que me faz ver melhor as coisas quando a vista se me turva, que diz claramente para parar com as maluquices, para pôr os pés no chão, para não me iludir, nem fantasiar. Mas também há a outra parte, aquela que sou mais eu, aquela parte de mim de que eu mais gosto, com quem mais me identifico, a que me tem acompanhado sempre desde menininha, que me segreda ao ouvido que um sonho tolo, infundado e infantil é, ainda assim, melhor do que não ter sonho nenhum.
Que mal faz se um dia acordar? Que importância tem se vier a descobrir que o meu tal sonho não passa de um castelo de areia, sem fundamento, nem alicerces para se levantar e sustentar? Mesmo que isso aconteça, como é o mais certo que venha a acontecer, pelo menos já terei passado algum tempo mais feliz! Pelo menos, os meus dias terão ganho mais cor, mais beleza e alegria! E ainda que doa, ainda que sinta o peito estalar de tristeza depois, vai sempre valer a pena ter voltado a voar de novo!

Vou ficar para sempre reconhecida, e humildemente agradecida a quem, mesmo sem o saber, ou sequer imaginar, me deu outra vez a faculdade de cruzar os céus, de ver horizontes sem fim, de me confundir com todas as cores mais lindas do mundo, de mergulhar nas águas mais límpidas e me deitar ao sol na areia das praias mais tentadoras. Porque havia uma parte de mim que estava adormecida, uma parte de mim que eu nem sequer sabia que ainda existia e que agora, de repente, por encanto e por magia, voltou de novo!
Obrigada pois, a quem me faz sonhar.