sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 7 de junho de 2011

Fazendo serão

Naquele tempo, há muito tempo, num tempo que fazia parte de uma outra vida, não havia televisão em Moçambique.
À noite, na esplendorosa e mágica noite tropical, quem não saía para a rua a passear, ficava, como nós costumávamos ficar, em casa, na sala, em volta do rádio, em família. As senhoras costuravam ou bordavam, os homens liam o jornal ou fumavam pachorrentamente, as crianças brincavam, sentadas no chão, por entre os móveis, no aconchego dos tapetes.
Lá em casa, no nosso quarto andar esquerdo do "barra de sabão", tínhamos uma outra tradição. Um hábito reservado para aquelas noites em que o meu pai estava mais bem disposto do que o costume, ou porque o trabalho lhe tinha corrido bem, ou porque os demónios que lhe povoavam o espírito se tinham acalmado por breves instantes, deixando-o mais tranquilo, a verdade é que de vez em quando havia uma daquelas noites de serão que eu amava mais do que tudo. Em nossa casa haviam livros por tudo o que era prateleira, móvel, gaveta. Eu cresci entre livros, rodeada e protegida por mil e uma histórias maravilhosas, e não lhes escapei aos feitiços. A minha irmã, ficou imune aos chamamentos das letras impressas e ainda hoje não gosta de ler. O meu pai amava ler e, aos livros que tinha já em solteiro, vieram-se juntar os que a minha mãe comprava amiúde, diferentes, é certo, de outro género, mas livros e mais livros, por todos os recantos. Nas noites encantadas, como eu gosto de lhes chamar, sempre que penso nelas, o meu pai retirava um dos seus livros, aparentemente ao acaso, de alguma das prateleiras da sala, e, connosco em roda, a minha mãe, eu, a minha maninha, sentadas confortávelmente, perto umas das outras, começava a ler em voz alta.
Era um mundo sem fim de histórias de policias e ladrões, de detectives particulares que desvendavam crimes intrigantes e misteriosos, que ousavam enfrentar mil e um perigos, e casavam mesmo nas últimas páginas com a heroina do romance! Um universo povoado de criminosos perigosíssimos, inteligentes, dissimulados, enigmáticos, que eram desmascarados e presos quase no fim da história! Eram cowboys e vaqueiros valentes e másculos, xerifes honrados e pistoleiros audaciosos, batoteiros astutos de salão, coristas bonitas e namoradeiras, caçadores de prémios! Apareciam também os poderosos ilusionistas, os pugilistas destemidos, os heróis mascarados que salvavam a donzela em perigo, os bandoleiros mal barbeados e montados de lado nos cavalos! Tantos e mais tantos, tantos personagens que ganhavam vida própria, ali, na nossa bonita sala, pela voz bem timbrada do meu pai, e através da magia das nossas respirações suspensas, presas na magia daqueles momentos!
O candeeiro de pé alto da sala espalhava um tom rosado, quente e gostoso pelas paredes, pelos móveis, pelos nossos rostos atentos. Lá para dentro ficava a escuridão do imenso corredor, que levava aos quartos; imersos também na penumbra, calados, silenciosos; que levava ao reino da cozinha, agora sossegada e sem o eterno barulho das panelas a chocalhar, da água a correr. Tudo em sossego, tudo em ordem. Tudo tão seguro, tudo tão nosso, e tudo tão para sempre! Lembro-me que sentia um arrepio  delicioso, um arrepio que subia pelo mais profundo do meu pequeno ser, quando espreitava de lado para o escuro, e sabia que estávamos ali, os quatro, sentados, em paz, a desfrutar de um serão tranquilo e bonito.
Com o passar dos anos, o desmoronar das certezas antigas, o abandonar dos nossos serões aconchegantes, os nossos livros abandonados ou perdidos, outros rasgados, outros vendidos a tostão e ao peso; com o processo doloroso de crescer e encarar a vida com outros olhos, outros ouvidos, outros prazeres, tudo aquilo ficou guardado, arquivado na minha memória.
O meu pai segurando um livro nas mãos; a minha mãe, sem óculos, de olhos semicerrados, um sorriso no rosto, ouvindo; a minha irmã de boca aberta, embasbacada para todas aquelas aventuras que saltavam para fora das páginas; eu sempre atenta ao passar impiedoso dos minutos que ameaçavam roubar-nos tudo, e que acabaram por cumprir a ameaça... Se eu voltasse hoje áquele tempo, se eu pudesse estender a mão e atravessar a parede de mil dimensões, e de mil universos intemporais,  que me separa de lá, se o mundo tivesse tamanha delicadeza comigo, juro que ficava de novo sentada, em paz, a olhar, a ouvir, a amealhar momentos de felicidade para recordar depois, quando tanto fazem falta.
Nunca parei de ler, meu pai, nunca deixei que os livros ficassem esquecidos e calados no meu coração. Nunca me permiti abrir um livro e deixar de sentir a corrente mágica do sublime, a unir-me com o desconhecido e com o universo da fantasia. Mas tenho tantas saudades dos nossos serões! 
Se ao menos a vida pudesse ser assim como um livro, possivel de ler e reler, folhear de novo, saltar capítulos, fazer anotações respeitosas e ao de leve nas páginas... Se ao menos eu tivesse tido a lembrança de deixar um marcador para saber aonde íamos na leitura, quando tivemos que interromper...

2 comentários:

  1. Querida Glória,
    Também partilho consigo o amor pelos livros. E como deviam ser agradáveis esses serões... As recordações das coisas boas também nos aquecem o coração.
    Beijinhos,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Obrigada pelo comentário.
    Os nossos serões eram mesmo muito bons. Fico sempre bem feliz por, naquela altura, já ter idade suficiente para me poder hoje recordar de como as coisas eram. Como a Cristina diz, recordar as coisas boas, aquece-nos o coração.
    Beijinhos,
    Glória

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