sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fifi

A nossa gata malhada, rafeira e muito engraçada chama-se Fifi. A Fifi é sempre magricelas, coma a quantidade de comida que comer, é pequenita e esquiva. Não gosta muito de estar ao colo, nem ronrona deliciada quando lhe fazemos festinhas.  O ano passado, pelo Verão, teve a sua primeira  ninhada,  três gatinhos amorosos, a Pin, o Pan e o Pun.
Durante todo o tempo em que os gatinhos mamavam e mal se mexiam, a Fifi ficou lá com eles, esquecendo-se ela própria de se alimentar. Para que comesse, tínhamos que lhe pôr as tigelas do leite e da ração bem perto da alcofa aonde estava com os filhotes. Foi de uma dedicação exclusiva e dedicou-se àquelas três criaturinhas depenadas e minúsculas todos os minutos dos seus dias e das suas noites. Depois, eles começaram a sair aos poucos do aconchego da mãe, e lá foram correndo aventuras pelo quintal fora, desafiando os perigos com os olhitos azuis muito abertos e voltando sempre, esbaforidos e a miar para casa, quando algo os assustava.
Um dia, o cão da vizinha, enorme e agressivo, chegou-se ao nosso portão da frente de casa. A Fifi estava deitada no pátio, estendida ao sol, com os filhotes espalhados pelas ervas, perto dela. Perante os ladrares furiosos, e os abanões que o cão dava no portão, a gatita levantou-se de um salto e correu para o enfrentar, se bem que por trás da protecção das madeiras da cancela, mas ainda assim, ali ficou. Ficou parada, muito digna, com o pêlo todo levantado, o dorso arqueado, numa atitude clara de aviso, emitindo bufadelas e miados profundos e cavos. O canzarrão acabou por bater em retirada, por desinteresse, ou por ter ficado impressionado com a hostilidade com que foi recebido.
Fiquei parada, a contemplá-los, em profundo respeito e admiração, a pensar em como era enorme o amor daquele animalsinho pelos seus filhos, e em como tinha estado disposta a pôr em risco a própria vida, para defender as crias.
No entanto, passado um tempo, a Fifi começou a escorraçar os três gatos, que eram agora mais crescidos. Sempre que um deles se tentava aproximar dela, em busca de conforto ou de afecto, numa tentativa de mamar, ela soprava-lhe e expulsava-o para longe, chegando mesmo a correr atrás deles, para os pôr em debandada. Eu não estava familiarizada com as relações animais entre mães e crias, mas pensava que seriam como as dos humanos. Nunca imaginei que chegaria uma altura em que as mães gatas escorraçavam os filhos, por os acharem crescidos demais, ou por quererem voltar a ficar disponíveis para constituir nova família.
Falei com uma amiga entendida sobre o caso, e ela explicou-me que na natureza, só sobrevivem os mais fortes. Por isso, e segundo a minha amiga, de uma forma, ou de outra, a Fifi sabia que se os filhos não se soubessem desenvencilhar sozinhos, não seriam capazes de viver para lá da sombra  e da protecção dela. Será que foi por isso que ela enxotava os gatitos? Fará essa reacção parte da sabedoria inata dos animais, do instinto selvagem de cada um deles, mesmo dos que vivem connosco e foram habituados a práticas tão diferentes das que teriam em liberdade?
Se for esse o caso, então, presto a minha homenagem àquela mãe gata. Foi capaz de proteger os filhos contra o ataque daquele cão gigantesco, que facilmente a esmagaria com uma só sacudidela dos seus dentes enormes. Foi capaz, depois, quando entendeu que eles eram já crescidos o suficiente, de os manter à distância, para que encontrassem o seu próprio caminho e conseguissem aprender a andar com as suas próprias pernas. Por comparação com ela, como fico a perder! Como luto e esbracejo por conservar os meus filhotes sempre bem pertinho de mim. Como me recuso ás vezes a perceber que o tempo passou e que eles cresceram. Como me é penoso admitir que cada um deles á sua maneira, e cada um deles com as suas necessidades e limitações próprias, precisam agora de aprender a voar mais longe e sem ser debaixo do peso da minha asa protectora.
Mas vou aprendendo, devagarinho, cada dia um pouquinho mais. Vou descobrindo no galope desenfreado do tempo, que amar não é sufocar e proteger não pode ser castrar. Olho para a Fifi, que continua por aqui, aparecendo e desaparecendo de vez em quando, na sua calma de dever cumprido. Olho para a Pin, o Pan e o Pun, que são agora gatos crescidos, activos, independentes, saudáveis e cheios de energia. Olho para eles e sinto que ela estava certa, mas não deixo de sentir um aperto no coração ao reparar que agora eles cruzam os seus caminhos, sem recordação nenhuma daquele dia em que a Fifi teria dado a vida pelos filhos. Sem nenhuma lembrança daquele dia em que a pequenita e magricelas Fifi desafiou, de pé firme e sem arredar, aquele cão enorme e bravo. E no entanto, agora, eles passam uns pelos outros como se fossem estranhos, sem um virar de focinho, sem um reconhecimento, sem um gesto de carinho.
Ainda que os resultados tivessem sido os melhores, ainda que a lei da natureza assim o exija, ainda assim é triste! E é triste demais! 

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