sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Foguetes estalam no ar

Quando eu era pequena, tinha medo dos foguetes dos Santos Populares. Morávamos perto da Brandoa, e para aqueles lados, as pessoas gostavam de soltar foguetes a toda a hora. Qualquer festa, qualquer novidade, qualquer efeméride no calendário, servia de pretexto para uns foguetes, um fogo de artificio...
Vivíamos na altura, numa espécie de casa, a "caverna", pequena, húmida, quase sem janelas, quase sem portas, quase sem ar. Uma das poucas janelas era virada para as montanhas da Brandoa, e era mesmo dali que vinham as explosões festivas de som e alegria. No primeiro dia em que os ouvimos, aos foguetes, eu e a minha irmã fugimos para a casa de banho. Era um hábito que nos tinha ficado dos últimos tempos de Moçambique. Sempre que havia tiroteio nas ruas, o nosso pai mandava-nos correr para a casa de banho. Dizia ele que era o local mais protegido da casa. Talvez por ser uma divisão mais afastada, não sei. Sei que correr para a casa de banho e nunca, mas nunca mesmo, pisar embrulhos na rua, chutar caixas vazias, foram conceitos de vida que ficaram até hoje. Já se passaram décadas, mas mesmo assim sou absolutamente incapaz de pisar, chutar, ou empurrar com o pé, qualquer objecto que encontre na rua. Desvio-me, rodeio, desço para a estrada, se preciso for, pisar, é que nunca. Tínhamos um medo terrível das bombas que apareciam escondidas dentro dos mais variados e inocentes objectos e que, constantemente, estropiavam pessoas. Brinquedos, canetas, eram os alvos preferidos dos bombistas que semeavam o terror naquela altura, no nosso pedacinho de paraíso perdido, enfeitado pelas belas acácias vermelhas em flor. As crianças, sempre curiosas, sempre descuidadas e inocentes eram a maioria das vitimas.
Lembro-me de que o meu tio Zé, que nos cedeu a caverna em que morávamos, se fartou de rir."-Mas é a alegria desta gente! As pessoas aqui são alegres! O que é que estas miúdas têm? Parecem coelhos assustados!" Não saímos da casa de banho até o nosso pai nos assegurar de que não eram bombas, nem tiros. Foguetes eram só barulho que as pessoas faziam, de propósito, para festejar alguma coisa.
Mesmo assim, os primeiros dias foram difíceis! Os primeiros anos foram difíceis!
Todos os anos, no Verão, durante os festejos em honra de Nossa Senhora, na localidade aonde vivo agora, ouço os foguetes e recordo.
Recordo os tiros a sério que ouvíamos lá. Recordo as horas em que a minha mãe rezava aos seus santinhos de Lisboa, aflita se o meu pai não chegava a horas, se demorava sem avisar. Preocupada, imaginando logo prisões, revoltas, escaramuças. Imaginando a quem podia telefonar, recorrer, perguntar, querendo valer-se de conhecimentos antigos que já não faziam parte das nossas vidas: "Fulano e fulano não, já foram embora. Beltrano também não, não sabemos dele. Sicrano, impossível, foi preso!"
Recordo a tarde em que fui com o meu pai, à papelaria, comprar uma carga para a minha caneta da escola, e fomos apanhados no meio de um violento tiroteio entre já não sei bem quem, nem me lembro muito bem porquê. O meu pai mandou toda a gente deitar-se no chão e escondidos atrás do balcão, encolhidos ao lado uns dos outros, ficámos o que me pareceram horas, com o olhar colado na porta da loja. Lá fora haviam gritos, pessoas a correr, outras a cair, feridos ensanguentados, mulheres que descalçavam os sapatos de salto para poderem correr melhor, (a rua ficou depois parecida com um mar de mil cores, eram os sapatos das senhoras, atirados pelos passeios) crianças berravam pelas mães, tanta, tanta confusão!
Recordo as buscas que os antigos guerrilheiros da Frelimo, depois promovidos a soldados, faziam à nossa casa, despejando armários, revirando colchões, violando a intimidade das gavetas da roupa interior, levando sempre no fim, uma ou outra coisa, para justificar tanto alarido, algum objecto suspeito de "colaboracionismo com os imperialistas".  Também me lembro do dia em que a minha mãe foi abrir a porta da rua, com uma faca grande da cozinha escondida atrás das costas."Se algum deles se atreve a fazer-nos algum mal, temos que nos defender!", assegurou ela entre dentes. Não nos fizeram mal. Pelo menos não nos fizeram aquele género de mal que a minha mãe receava. Só queriam "revistar casa".
Recordo a raiva do meu pai, um acérrimo defensor da independência desde os primeiros tempos das guerrilhas, agora defraudado, atraiçoado nas suas crenças, perplexo com o caminho que as coisas estavam a levar e que era tão contrário àquele que ele tinha querido para a sua terra. Todos eles; os antigos, os mais velhos, os amigos lá de casa, os que tinham conspirado em segredo correndo sempre os perigos das denúncias, e que agora eram acusados de imperialistas, colonialistas; não sabiam o que tinha corrido mal, não sabiam quando é que o sonho bonito que tinham acalentado com tanta esperança, se tinha começado a transformar naquele pesadelo de tiros, massacres, mortes gratuitas. Eram intelectuais, idealistas, não eram homens de luta, nem de guerras. Eram sonhadores de utopias a acordar para o fim de uma época e o começar de um inferno.
Recordo todos esses episódios movimentados e estranhos, enquanto vou assistindo aos festejos, á procissão, ao começar do baile. Cada foguete que ecoa, lá bem no alto, é mais um tiro ao longe, lá, noutro espaço, noutro mundo. Cada arabesco colorido dos fogos na frescura da noite, é mais uma bomba largada com o seu rastilho de fogo, que irá cair não sei bem aonde, que irá atingir não sei bem quem. Cada vez que algum vizinho me pergunta:"- Então, está a gostar? Isto este ano está bom, não está?", engulo em seco e digo que sim, que estou a gostar muito.
E no meio da felicidade geral, encontro-me com o meu pai num plano qualquer que é fora desta vida, e perdoo-lhe em silêncio, e no meio de lágrimas. Perdoo-lhe e entendo o porquê. Entendo porque é que ele teve que vir, entendo porque é que tudo teve que acontecer da forma como aconteceu. Entendo que há foguetes que estalam de diferente forma, e isso só depende de quem os ouve.
Mesmo passados todos estes anos, os foguetes que eu ouço, não têm nada a ver com os que a maioria das pessoas ouve. Por isso, vou continuando a engolir em seco, e a dizer que sim, que estou a gostar muito e a esperar em silêncio que tudo páre e fique em paz.

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