sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fora do Verão

Que dia tão triste e cinzento! Nem sequer é frio, é simplesmente um nada ser, coberto por um manto de coisa nenhuma. O céu está tão isolado, sem nuvens, sem azul, sem reflexos, todo cor de chumbo. Num dia desolado como este, é difícil que aconteçam coisas boas. É difícil que se consiga ver um raio de esperança a brilhar por detrás da solidão. 
Que saudades do sol, do calor! Ainda ontem estava tudo tão bonito! Porque é que as coisas têm que mudar assim? Porque é que tenho que mudar junto com as coisas? Porque é que qualquer insignificância tem o poder de me derrubar? Se não fosse a escuridão lá fora, se não fosse a falta de luz, se não fosse esta tão enorme devastação!...
Se a qualquer altura, as trevas dessem vez á luminosa cor de uma tarde de quase Verão...
Tantos meses a esperar pelo Verão! Tantos longos meses de escuro e frio, de bater os dentes e o nariz de encontro ás vidraças geladas! Tanto tempo na expectativa dos meses quentes, e agora, que parecia que já estava tudo lindo, pronto, vem de novo o escuro!
Que vontade de fazer como quando era pequenita e colocava as réguas da escola em frente dos olhos. As réguas eram cor-de-laranja, vermelhas, amarelas. Punha-as por cima do rosto, e toda a vida mudava de cores. Num instante o que estava desbotado, ganhava vida. Era uma explosão de tons, de reflexos, de alegrias. Agora já não tenho as minhas réguas da escola. Já nem tenho também os meus óculos de plástico cor-de-rosa, que ajudavam a transformar a realidade por uns instantes. Agora estou sentada sozinha com os meus pobres olhos cansados, em frente á janela, espreitando o horizonte, e o horizonte não tem nada lindo para me mostrar.
Ah, se eu pudesse, escolhia viver para sempre numa praia bem quentinha, rodeada de areias escaldantes, em frente ao mar bem azul, por baixo de um céu acolhedor aonde o sol nunca se punha. E quando se pusesse, daria lugar á noite mais bela e carregada de mil estrelas, que alguém já viu! Ah, se eu pudesse, ficava para sempre nesse paraíso de céu e mar, com árvores a aparecerem no horizonte e cantares de passarinhos por todo o lado.
Queria fugir do cinzento que me esmaga e oprime. Queria encontrar o sítio aonde se fabricam as cores mais garridas e pedir a receita emprestada. E queria nunca mais ter que ficar assim, sentada, a olhar pela janela, em busca desesperada por um pedaço de beleza.
Os meus olhos estão cansados de procurar. O meu espírito está fatigado de esperar. Que tristeza e que desolação! Quem me dera estalar os dedos, esfregar o rosto, acordar noutro lugar, noutra parte do mundo. Algures aonde não se permitissem os dias escuros e pesados, e aonde as cores bonitas aparecessem sempre todos os dias e a todas as horas.
Não sei viver fora do calor, não sou capaz de viver sem luz, sem sol. Os tons carregados do Inverno eterno enchem-me a alma de pena e solidão.
Como é triste viver fora do Verão!

4 comentários:

  1. Olá querida Glória!
    Hoje foi um daqueles diaspara si... Custa-me senti-la presa, no mesmo tipo de solidão que me aprisiona a mim. Aprisiona-nos a Alma e o Coração, e queremos novamente sentir paixão, liberdade, euforia e ver o Mundo pelos olhos que tínhamos há alguns anos atrás, quando tudo ainda era possível, e as soluções estavam ao virar de cada esquina.
    Espero que o dia de amanhãlhe traga todas as cores do arco-íris.

    Beijinho grande,

    Anabela

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  2. Querida Glória,
    Com um sorriso nos lábios, só lhe posso dizer que amanhã o sol virá e um novo dia irá nascer...
    Um grande beijinho,
    Cristina

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  3. Olá Cristina,
    E lá veio um novo dia! Agora é só esperar que o sol apareça.
    Obrigada pelo comentário e pelas palavras animadoras.
    Beijinhos,
    Glória

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  4. Olá Anabela,
    Obrigada pelo seu comentário.
    As nuvens estão a descobrir. Vamos lá a ver se encontro o arco-íris. Ele pode sempre aparecer, quando o tempo está assim, meio de sol, meio de chuva...
    Muitos beijinhos,
    Glória

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