sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 18 de junho de 2011

Gaivota


“Gaivota”, era como me chamavam.
Quem começou a chamar-me dessa forma, foi o namorado da minha irmã, que depois veio a ser durante alguns anos meu cunhado. Depois os meus amigos também acharam engraçado, e pronto, por um tempo, naquele breve tempo do nosso tempo, fui a “gaivota”.
Gaivota porque, segundo o namorado da minha irmã, eu nunca parava muito tempo no mesmo lugar, não era capaz de sossegar, esvoaçava sempre por cima da praia, pousava de vez em quando, entretinha-me por um bocado, descansava e ganhava forças, mas do que gostava mesmo era de mar alto e espaços abertos. Ele cansou-se de me apresentar amigos, “rapazes sérios”, que segundo ele, me iriam fazer atinar e ganhar juízo. Até que desistiu, derrotado pela minha inconstância selvagem, e me deixou entregue aos meus sonhos e às minhas ilusões.
Aqui há uns tempos, reencontrei o meu ex-cunhado. “-Nunca esperei que viesses a assentar!”, disse-me ele boquiaberto, quando lhe contei que  tenho a mesma vida, vivo na mesma casa, voo por cima do mesmo céu e apanho peixe na mesma praia, há mais de vinte anos. “- O que é que se passou contigo? Isso nem parece teu…”
Ele, e a maioria das pessoas, reduzem tudo ao factor mais simples. Se ainda estou por aqui, assumem que estou cá. Se ainda gasto os meus dias e os meus anos no mesmo lugar, da mesma forma, é porque, e como todos me conseguem ver, nunca saí daqui. Como se enganam! Nem podem imaginar quantas vezes já parti e me afastei para muito longe, já regressei de mansinho e sem avisar, já fugi até me faltar o fôlego, já me perdi como náufraga desesperada no meio de um oceano desconhecido, fui ao fundo cansada demais para nadar, e voltei, salva por um qualquer golfinho vagabundo e amigo. Não fazem ideia de todas as vezes em já que dei a volta completa ao mundo sem precisar de sair do meu quintal cercado de muros, das minhas quatro paredes bem fechadas… É impossível que, ao verem-me, sempre assim composta e sossegada, a falar baixo e a sorrir modestamente, com gestos calmos e bem articulados, adivinhem todas as histórias que já vivi, todos os sonhos que já encarnei, todos as aventuras em que já me arrisquei, ali, bem debaixo do nariz de toda a gente, sem ninguém dar pela minha falta, ou notar a minha ausência!
Quantas e quantas vezes falo, respondo, sorrio e caminho, sem ser eu a que estou por aqui… Tantas são as vezes em que consigo passar dias inteiros, noites inteiras, sem me dar conta que o tempo passou, sem me aperceber de como vou desempenhando bem todos os papéis que me estão atribuídos… Aquela que sou mesmo eu de verdade, está quase sempre pairando mais acima, ou mais abaixo, esvoaçando numa imensidão inatingível de espaço e ar livre. Ando por sítios aonde não me possam encontrar, de onde não me possam trazer sempre que é preciso, lugares só meus, dos quais ninguém conhece o nome nem sabe o caminho. Lugares aonde eu possa continuar a respirar, para não cair inanimada, largada no chão frio, sufocada com falta de ar.
Por isso quando o meu ex-cunhado me olhou assim, cheio de espanto e de incredulidade, limitei-me a encolher os ombros e a responder que as pessoas mudam, e aprendem a voar mais baixo, por espaços mais conhecidos. Não sei se o deixei convencido, sei que o deixei admirado.
Eu, por mim, não me importo muito com isso. Sei bem que no fundo, lá no fundo do meu coração, continuo a mesma “gaivota” daqueles tempos. Continuo a ter fome de liberdade e de horizontes sem fim, continuo a sentir a mesma sede antiga de sair pelo mundo até me cansar e me apetecer voltar.
Se parece que mudei, que desisti, que capitulei e que me rendi, é porque aprendi que por vezes, podem-nos cortar as asas, se não mostrarmos que nos conseguiram domar. O que realmente me importa, é o que está por dentro e por debaixo, das aparências e das máscaras, o que se esconde atrás daquilo que deixamos que os outros vejam de nós.
O que realmente para mim importa, é que sempre que quero, posso bater asas e voar, e ir para aonde ninguém me pode alcançar, para aonde me apetecer, com quem eu quiser, da forma que eu escolher, ainda que ninguém note que não estou aonde é suporto eu estar.
E esse dom de ser livre sem fim, sem fronteiras marcadas e sem autorizações assinadas, não me vão conseguir nunca tirar!

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