sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Intolerância

Ontem, veio cá a casa, depois da hora de jantar, um vizinho nosso,  ultimar os preparativos para um trabalho de pintura  do meu marido. O meu marido é pintor de construção civil, e durante os tempos de Verão, tem sempre muito trabalho. Por aqui, as pessoas gostam de pintar as casas, os muros, gostam de deixar tudo impecavelmente bonito para as festas locais.
O que apareceu ontem, é um vizinho que conhecemos desde que viemos morar para esta casa, há mais ou menos vinte anos. Entrou, sentou-se na sala connosco, bebeu café e ficámos a conversar um pouco enquanto olhávamos para a televisão. Não sei bem qual foi a passagem da reportagem que estava a dar no telejornal, que desencadeou os comentários parvos que se seguiram. Por uma razão, ou por outra, os dois acharam que o entrevistado devia ser “maricas, larilas, boiola” e outros disparates que não ficam bem escrever. É um dos passatempos preferidos do meu marido, durante a hora de jantar, descobrir se as pessoas são maricas ou não... Enfim, cada um é feliz com aquilo que consegue, e cada um se diverte como que está dentro das suas possibilidades… Não sei se ele o faz porque realmente acha graça nisso, ou se insiste nessa estupidez apenas porque sabe que me consegue aborrecer a sério.
Eu, que me lembro muito bem do quanto sofria com a minha irmã, quando os nossos pais discutiam, do quanto nos dávamos as mãos por debaixo da mesa da sala de jantar e ficávamos pedindo aos nossos santinhos que ela não respondesse, que ela deixasse passar, que me lembro do quanto nós achávamos que a vida podia ser melhor se ela não discutisse tanto, se se calasse, pelo menos em atenção a nós, eu tento sempre não me meter em confusões quando os meus filhos estão por perto. Até porque a minha altura de achar que podia mudar o mundo, já lá vai há uns anitos, e entendo, sinceramente, que não vale a pena lutar em todas as guerras para as quais somos desafiados.
Mas, porque o assunto era estúpido demais, e porque começaram a meter o meu filho à conversa, tentando que ele partilhasse das mesmas opiniões dos tempos das cavernas que eles têm, não aguentei mais e tive mesmo que interferir. Odeio discussões, sou pacífica por natureza, mas há alturas em que é preciso… Tenho tido o maior cuidado do mundo, ao tentar criar o meu filho na ideia simples e arejada de que todos somos completa e totalmente iguais em termos de direitos e de deveres, e que ninguém tem o direito de julgar, condenar, ou apontar o dedo a ninguém, apenas porque a outra pessoa pensa de forma diferente, tem uma cor de pele diferente, acredita num deus diferente, ou gosta de amar alguém diferente do que é regra amar. E, modéstia à parte, tenho-me saído bem neste meu trabalho, porque o meu filho é um rapaz de dezasseis anos com a cabeça bem limpa de preconceitos idiotas e de disparates irracionais.
Na minha opinião, não existem gays, lésbicas, bissexuais, existem apenas pessoas. E há pessoas que têm o dom maravilhoso, divino e celestial de poderem gostar de outras pessoas, o que infelizmente, não acontece com toda a gente. Que interessa se gostam de alguém de outro sexo, se gostam de alguém do mesmo sexo, ou dos dois sexos, ou se não gostam de ninguém, se gostam de uma pessoa de cada vez, se gostam de duas ou mais, o que realmente importa, e aquilo em que acredito, é que desde que não façamos mal a ninguém, e nem prejudiquemos ninguém, todos temos o direito, e bem mais do que o direito, temos o dever, de tentarmos ser felizes. E nenhuma pessoa no mundo devia ter nada a ver com isso! O que realmente demonstra o valor de um homem, ou de uma mulher, é aquilo que ele ou ela é, no seu todo, nas suas acções, nas suas ideias, na sua personalidade, na forma como interage com os outros e com o mundo em geral. Não consigo entender que importância pode ter a escolha que cada um faz acerca da pessoa com quem gosta de ir para a cama. Até mesmo no caso mais complicado da adopção de crianças por parte de casais homossexuais, penso que o que uma criança precisa realmente para crescer e se tornar num adulto saudável e feliz, é de ser criada num lar de amor e de afecto, criada por pessoas que se amem e se respeitem, que lhe consigam transmitir uma sensação de paz, de concórdia, de segurança e protecção. Que interessa se é um pai e uma mãe, ou se são dois pais ou duas mães? Eu, por exemplo, fui criada e educada por um casal bem tradicional… Posso ser uma sonhadora cheia de utopias, mas sempre pensei desta forma, que o meu pai achava passageira e própria da juventude, e o meu marido interpreta como a “maneira normal das mulheres pensarem”. Mas é no que acredito e são os valores que defendo. Nada pior, nem mais horrorosamente nocivo do que a intolerância. Não há nada que me revolte mais as entranhas do que ver condenar, assim só por condenar, porque é diferente, porque não se encaixa nas ridículas regras e etiquetas sociais!
Mas apesar de detestar discutir, pronto, lá me meti na conversa e dei as minhas opiniões. E, claro que, como sempre acontece nestas situações, ouvi tantos argumentos disparatados, palermas e retardados, que quase fiquei mal disposta. O cúmulo da burrice, da ignorância de todas as coisas, foi quando o nosso vizinho entendeu que o que se devia fazer para salvar o mundo, “era enfiar todos essa gentalha dentro de um barco, levá-los para o mar alto, e afundar o barco, como o Marquês de Pombal fez aos padres e aos maricas.” Ainda lhe perguntei se ele não estaria a fazer confusão com as personagens históricas, e não seria o caso de se querer referir a Hitler, mas não, ele garantiu-me que Hitler não tinha nada contra os padres, mas que também matava maricas, o que, segundo a sua forma deturpada de pensar, deve ter sido uma coisa a fazer pender a balança positivamente para o lado do monstro austríaco…
Como já não aguentava mais, e como sempre me ensinaram que não se trata de forma descortês uma pessoas de fora, que está na nossa casa, e também porque a essa altura já o meu filho tinha ido ao encontro do mundo dele do computador, da Internet e dos jogos online, decidi também  ir para o sossego da cozinha, e por lá fiquei até a simpática criatura se resolver ir embora.
Credo! Chica penico (esta expressão deliciosamente engraçada, é de uma amiga minha que a emprega muitas vezes, e que eu resolvi tomar emprestada por um pouquinho, porque acho que fica aqui muito bem. Se estiveres a ler, L. , sei que é tua. Obrigada por ma deixares usar)! Como é possível que em pleno século XXI, ainda haja pessoas que pensam, falam e educam os seus filhos debaixo destes valores empestados de estupidez e de intolerância? Já são em menor quantidade do que no tempo em que eu era criança, é certo. Mas ainda existem muitos por aí, e, de vez em quando, entra-me um pela casa a dentro!...
Eu gosto de acreditar que, um dia, espero que não falte assim tanto tempo como isso, as pessoas se tornem bem mais tolerantes, bem mais esclarecidas, e ponham de lado todos estes preconceitos mesquinhos, e que parem de tentar fazer valer as suas frágeis posições, que parem de se tentar engrandecer e valorizar, atacando e achincalhando aqueles a quem consideram mais fracos, ou aqueles que sabem estar mais desprotegidos.
No fundo do meu coração existe um lugar para aonde gosto de fugir quando estou mais triste, e ontem estava muito triste! Existe um lugar que é só meu, aonde o sol não pára de brilhar, aonde tudo é cheio de cor e de alegria. Um lugar aonde gosto de colocar de vez em quando, alguma personagem da vida real, para me fazer companhia, para me fazer um pouquinho mais feliz. Um lugar a que eu gosto de chamar de “parecido com o Paraíso”. Se existisse um lugar semelhante ao meu, no coração de toda a gente, talvez o mundo fosse mais bonito, e mais em paz.
Fui para a cozinha, encostei-me à vidraça, pus os olhos numa das estrelas brilhantes do céu, e em pouco tempo já não estava ali. Já estava lá, do outro lado do arco-íris, perto dos sonhos e das fantasias, bem protegida e aconchegada, num lugar aonde ninguém me consegue atingir, e aonde não chegam os comentários ignorantes, mesquinhos e maldosos deste mundo.Eles ainda ficaram lá para dentro durante algum tempo, a rir, a dizer disparates. Eu, durante um bocadinho fui passear por uma estrada maravilhosa, que ia ter a não sei aonde, que tinha ao fundo a visão do mar, do sol a pôr-se, o mundo todo vestido de cores quentes e gostosas… Durante um bocadinho esqueci-me de que estava triste e quase, quase consegui sentir algo mais do que a brisa do mar a passar com delicadeza pelo meu rosto, quase consegui sentir um beijo quente a aflorar de leve os meus lábios, e …depois fui lavar a louça.


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