sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 28 de junho de 2011

Mulheres e homens

Desde sempre, tenho-me dado muito melhor com homens do que com mulheres.
Foi sempre bem mais fácil relacionar-me com homens. São mais simples, mais directos, menos complicados. Olham de uma forma mais amigável, mais calorosa, falam sem grandes preocupações com aquilo que estão a dizer, enfim, inspiram-me mais confiança. As mulheres são mais reservadas, mais desconfiadas, mais agressivas. Parecem estar sempre preparadas para defender o seu castelo de uma invasão de mouros, sempre com as unhas afiadas prontas para atacar, com um rosnar dissimulado por detrás dos sorrisos plásticos e artificiais.
Já em pequenita a minha predilecção pelo público masculino se fazia notar. O meu pai, terrível gigante de voz de trovão, ditador impiedoso do reino da minha infância, não resistia durante muito tempo a um pedido, a um sorriso, a um amuo meu. Para fúria da minha mãe, que achava que o meu pai fazia distinção entre as filhas, não havia coisa que eu quisesse dele, que não fosse capaz de obter Ele achava imensa graça ao que chamava “ a personalidade da pequena”. Estava convencido de que a minha persistência, o meu espírito combativo me iam facilitar a vida no futuro. Só não achou muito engraçado quando essa mesma persistência e esse mesmo espírito combativo, se viraram contra o que ele tinha instituído como regras intransponíveis e princípios inabaláveis de vida…
Em adolescente, e durante a juventude, continuei a preferir a companhia e a proximidade dos homens. Todos os meus amigos a sério eram rapazes. O grupo aonde eu circulava, aonde eu passava os meus dias, era todo constituído por rapazes. Uns mais velhos, outros mais jovens, outros sem idade definida. As raparigas eram um universo à parte. Tirando as “melhores amigas” da escola, não me dava muito bem com as outras miúdas. Uma delas, ainda me lembro, chegou a dizer-me que “ gostava muito de te ver daqui a uns anos, quando já não tiveres nem pernas nem mamas para mostrar. Vais ver depois como é…” Presumo que ela se referia às minhas minissaias apertadas, aos meus calções curtinhos, aos meus decotes atrevidos, e estava visto que atribuía a essas coisas todas, o meu aparente sucesso entre o género masculino. Bem, enganou-se. Hoje já não uso, como é lógico, saias curtas nem apertadas, nem visto calções de tamanho nenhum, e os meus decotes resumem-se a uma sombra pálida daquilo que eram naquele tempo. E, ainda assim, continuo a ser bem aceite e bem acolhida no tal reino dos homens. Continuo a mexer-me mais à vontade entre homens, e a poder ser mais natural, e mais feliz entre eles. E, modéstia à parte, eles continuam a mostrar grande simpatia pela minha pessoa, mesmo sem mostrar as pernas ou as mamas, como dizia a tal rapariga da minha juventude.
Aos dezoito anos comecei a trabalhar, e trabalhei durante alguns anos num museu lindo, com uma igreja encantadora anexa. Uma igreja muito antiga e muito bela, cheia de encanto e história, com painéis enormes de azulejos em azul e branco nas paredes, forrada a talha dourada brilhante por tudo quanto era lugar, repleta de pedras tumulares mudas e misteriosas no chão frio de pedra antiga Fui contratada como guarda de museu, mas como era a única entre as minhas colegas, que falava inglês e francês, colocavam-me muitas vezes na recepção, a fazer o atendimento aos visitantes. Acho que pela primeira vez na vida, descobri um núcleo feminino aonde me encaixava muito bem. As minhas colegas eram simples e alegres como eu gostava de ser, falavam de telenovelas, de rendas e bordados, dos filhos, dos maridos, dos namorados… Levávamos os almoços de casa, dentro de caixas de plástico, e almoçávamos todas juntas, entre risadas e disparates. Foi um bom tempo! Os colegas homens estavam mais à parte, mas de qualquer forma, continuei a dar-me muito bem com todos eles.
Foi quando saí do museu e comecei a trabalhar num laboratório do estado, que as diferenças entre homens e mulheres, se fizeram de novo notar, e não pararam de crescer até hoje. Lá, no tal laboratório, já ninguém queria saber de novelas, nem de revistas. As minhas colegas mulheres eram todas muito diferentes de mim. Usavam roupas complicadas e caras, pintavam-se de forma requintada, tinham penteados sofisticados, calçavam aqueles instrumentos de tortura moderna, que são os sapatos de salto altíssimo, e falavam com uma entoação estranha na voz, assim meio arrastada, meio cantada, meio snob e desinteressante. Eu, continuava com as minhas costumeiras calças de ganga, as minhas habituais T-shirts despretensiosas, os meus sapatos de salto baixo do costume. Não me maquilhava, como ainda hoje não o faço, usava o cabelo de forma simples e natural, e continuava a falar da mesma maneira desembaraçada como sempre falei. Nem percebia bem para que era todo aquele exibicionismo, afinal éramos apenas administrativas. Não éramos empresárias, nem directoras, nem tínhamos nenhum cargo de vital importância. A nossa função resumia-se, na maior parte das vezes, a dar andamento a uma quantidade absurdamente enorme de papelada inútil, e a esperar até recebermos de novo na secretária a próxima remessa igual de mais papéis igualmente inúteis. As pessoas realmente importantes, aquelas que realmente podiam justificar tanto aparato eram os engenheiros, os técnicos superiores. E, no entanto, todos eles eram bastante mais simples, bastante mais acessíveis, muito mais simpáticos, enfim, muito mais homens iguais a homens, claro. E arranjei muitos mais amigos entre eles, do que, como é óbvio, entre as mulheres, As minhas colegas não entendiam o porquê dos engenheiros me sorrirem, me falarem de forma calorosa, se dignarem convidar-me para tomar café, quando elas estavam ali, com todo o seu potencial espampanante e sofisticado e não granjeavam mais do que um educado “bom-dia”, ou um polido “como vai?” Quando saí do laboratório e vim para casa, já lá vão treze anos, a minha chefe fitou-me com uma expressão de estupefacção no rosto, como se a rapariga com eterno aspecto engraçado e deslocado que tinha à frente, tivesse de repente enlouquecido, e perguntou:”- Mas tem a exacta noção da barbaridade que está a fazer? Pensou bem que não volta a arranjar uma colocação igual a esta, em todos os anos da sua vida?” Claro que tinha a exacta noção. E tinha a exacta noção também de que jamais ia conseguir fazer parte daquele universo feminino, sofisticado, perfumado, emproado, artificial e tão, mas tão entediante!
Depois, e até agora, tenho vivido entre dois mundos diferentes, no que diz respeito a mundo de mulheres e mundo de homens. Tenho o mundo das mulheres que é composto pelas minhas vizinhas. Mulheres sem idade definida, sempre vestidas de escuro, sempre de cabeça coberta por lenços pretos, sempre ocupadas a cuidar do rebanho de filhos, e um dia mais tarde, quando podiam finalmente descansar, igualmente ocupadas em cuidar do rebanho dos netos! Simplesmente horrível! Mulheres incapazes de pedirem mais, incapazes de quererem mais. Acho mesmo que não fazem ideia de que há mais vida para além dos muros dos quintais, e que há coisas muito mais agradáveis para se fazerem do que cozinhar, lavar, esfregar, educar os filhos… E depois, tenho o mundo das mulheres composto pelas mães dos colegas dos meus filhos, e que tenho que enfrentar sempre que vou às reuniões das escolas. Mulheres da minha idade, mulheres que falam daquela tal forma irritante e peneirenta, vestidas daquela forma cuidada e elegante, maquilhadas com todo o género de cosméticos modernos, complicados e inúteis, esticadas no rosto, nas mãos, no pescoço, levantadas, comprimidas, penteadas com penteados que nem abanam com o vento.
Eu, continuo na minha maneira de ser e de vestir. Sem pinturas na boca ou na cara, sem cabeleireiros que se atrevam a tentar impedir o meu cabelo de voar, sem roupas caras, sem verniz nas unhas, sem falar daquela maneira horrível, sem olhar as outras pessoas de cima. Para meu espanto, essas mulheres cheirosas e cuidadas, nem sempre primam pela inteligência, uma vez que raras vezes percebem o que os professores dizem, raras vezes respondem às perguntas que lhes fazem de forma acertada. Como se não precisassem de mais nada, a não ser mostrar ao mundo como são lindas, impressionantes e chiques nas suas fatiotas elaboradas.
Ao contrário, os homens continuam como sempre me lembro de os conhecer. Simples, directos, afáveis, acolhedores. De rosto limpo como eu, de roupas comuns como eu, capazes de conversar e de responder de forma coerente como eu. Porque será tão grande a diferença entre um universo e o outro? Porque é que eu fico sempre assim pendurada entre os dois mundos, sem pertencer bem a lugar nenhum, sem encontrar o sítio aonde seja normal ser como sou? Sem pinturas, sem camuflagens, sem armaduras, sem mais nada de nada a não ser o meu sorriso, a minha maneira simples de ser e de falar, e a minha vontade louca, indomável e invisível de ir mais além.
Numa dessas reuniões escolares entediantes e inúteis, enquanto eu ouvia espantada a intervenção fútil de uma das mães, um dos poucos pais presentes piscou-me o olho e sorriu-se. Elevou os olhos de forma cómica e apontou com o queixo para a mulher que falava. Eu percebi que ele se estava a divertir, e sorri-lhe de volta em resposta. Acho que percebi que é isso que me une ao mundo dos homens. A dificuldade de entender o porquê de tanta complicação, de tanta sofisticação. Afinal, é muito melhor e mais prazeroso falar quando se tem vontade, vestir-se a roupa com a qual nos sentimos bem, e aceitar uma piscadela de olho divertida e sem malícia, quando se quer.
Aposto que nenhuma daquelas mulheres emproadas, teria respondido ao sorrido daquele homem, embora, sem dúvida, muitas tivessem vontade de o  fazer. Eu sou diferente, eu sou assim, mais impulsiva…

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