sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O meu primeiro bebé

Vou ter de viver muitos e muitos anos mais do que os que vivi até agora, para poder, talvez, vir a esquecer a sensação de solidão sem fim, que me assaltou quando entrei na que era então a minha casa, com os meus dezanove anos acabadinhos de fazer e o meu primeiro filho deitado na alcofa.
Saíra da maternidade naquela mesma manhã, na companhia da mãe de uma amiga. Trazia o meu bebé comigo, um saquinho de fraldas e toalhetes e uma tristeza que não acabava mais. A mãe da minha amiga deixou-me à porta, despediu-se e foi embora. Eu fiquei lá, os joelhos a tremer, as lágrimas quase a cair, sem saber muito bem o que dizer, ou o que fazer, quando entrasse. Mas mesmo assim com uma vaga esperança; porque eu sou muito teimosa no que diz respeito a ter esperança; de que no fim talvez tudo fosse ficar bem.
Bem depressa vi que me tinha enganado. Nem um só rosto se virou na minha direcção. Não tivemos, nem eu nem o meu filho, direito a sequer um olhar, um sorriso, um dizer amigo. Segui, o mais dignamente que me foi possível, com a alcofa de bebé debaixo do braço, e era como se tivesse acabado de chegar da mercearia, e era como se a criança que dormia naquela alcofinha tivesse a mesma importância de um saco de arroz, ou de farinha. Atravessei a cozinha e saí para o pátio. Lá ao fundo, entre a barraca do cão e o buraco dos despejos, estava o meu quarto.
O meu marido estava na tropa, só vinha a casa no fim-de-semana. Pus a alcofa na cama e o bebé começou a chorar. Sentei-me com as mãos no colo, e chorei junto com ele. Lembrei-me de todo o tempo durante o qual eu já suspeitava de que estava grávida, lembrei-me dos olhares de lado que me deitavam quando ia à cozinha preparar as refeições. Lembrei-me do ar avaliador dirigido á minha barriga que não parava de crescer, apesar de eu me esforçar tanto por continuar a caber nas minhas roupas apertadas para não se notar nada. “Veio para cá, porque já estava grávida. Por isso o pai a pôs fora.” Era o que diziam. Não sabiam que ninguém me tinha posto fora. Não sabiam que na minha ideia, eu tinha dado o grande passo para a liberdade quando deixara o meu pai, lá, parado, enquanto larguei numa correria doida pela estrada que me levaria a todo o universo. 
Não sabiam, nem eles, nem ninguém, só eu, o quanto tinha sofrido quando recebi o resultado do teste de farmácia que comprovava a minha gravidez. O quanto chorei, e esperneei, o quanto pedi a algum Deus, qualquer um que fosse, que o teste estivesse enganado, que todo o mundo estivesse enganado. Tanta luta, tantos planos, tantos anos de sofrimentos contidos pela esperança de um dia poder fugir! E agora, ali estava eu. A viver por favor, numa casa aonde não era desejada, com um filho para tratar, cuidar, amar. E tudo era por culpa minha! Por não ter tido cuidado, por não ter planeado bem as coisas, por ter deitado tudo a perder como uma adolescente que afinal quase era, mas que não tinha nenhum direito de ser.
Levei muito, mas muito tempo até perceber qual tinha sido o meu maior erro. Não foi o ter engravidado, foi o ter entregado todos os meus sonhos de felicidade a outra pessoa que não eu própria. Foi o ter pensado que alguém me poderia fazer feliz e ser responsável pelo meu bem-estar, pela minha segurança, pelos meus desejos e planos. O meu maior erro foi o não ter continuado a correr pela estrada que me levaria a todo o universo, mas sozinha. Não devia ter dado as chaves da minha vida, não devia ter substituído uma prisão por outra, não devia ter largado a minha âncora na primeira praia, não devia ter encalhado no primeiro porto que me pareceu mais abrigado de tempestades.
Ninguém tinha culpa de eu me estar a sentir como se todos os meus sonhos tivessem acabado. Ninguém me tinha chamado para ali. Ninguém tinha pedido para eu fugir. Ninguém me tinha incitado a abandonar o meu pai, a minha irmã. E acima de tudo isso, o meu filho não tinha pedido para nascer.
Foi assim o verdadeiro começo da minha vida de adulta. Sentada naquele quarto miserável, com o meu filho deitado a chorar, e as minhas lágrimas a caírem teimosamente, uma após a outra, por cima das minhas mãos enlaçados no colo, e uma tristeza tão grande que não acabava mais e não cabia no peito.
Se fosse hoje, tinha pegado no bebé ao colo. Mas naquela altura, simplesmente não fui capaz.

3 comentários:

  1. Querida Glória,
    Fico feliz por saber que afinal, de uma maneira ou de outra, continuou a correr pela estrada. A prova disso é o que escreve. É esta a sua estrada.
    Beijinhos,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Pois, ao que tudo indica, deve mesmo ser.
    Muito obrigada por continuar a ler os meus textos, e por fazer comentários tão queridos e simpáticos!
    Beijinhos,
    Glória

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  3. Eu é que tenho de lhe agradecer, o privilégio de poder ler o que escreve. Muito obrigada.
    Beijinhos,
    Cristina

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