O meu primeiro bebé

Vou ter de viver muitos e muitos anos mais do que os que vivi até agora, para poder, talvez, vir a esquecer a sensação de solidão sem fim, que me assaltou quando entrei na que era então a minha casa, com os meus dezanove anos acabadinhos de fazer e o meu primeiro filho deitado na alcofa.
Saíra da maternidade naquela mesma manhã, na companhia da mãe de uma amiga. Trazia o meu bebé comigo, um saquinho de fraldas e toalhetes e uma tristeza que não acabava mais. A mãe da minha amiga deixou-me à porta, despediu-se e foi embora. Eu fiquei lá, os joelhos a tremer, as lágrimas quase a cair, sem saber muito bem o que dizer, ou o que fazer, quando entrasse. Mas mesmo assim com uma vaga esperança; porque eu sou muito teimosa no que diz respeito a ter esperança; de que no fim talvez tudo fosse ficar bem.
Bem depressa vi que me tinha enganado. Nem um só rosto se virou na minha direcção. Não tivemos, nem eu nem o meu filho, direito a sequer um olhar, um sorriso, um dizer amigo. Segui, o mais dignamente que me foi possível, com a alcofa de bebé debaixo do braço, e era como se tivesse acabado de chegar da mercearia, e era como se a criança que dormia naquela alcofinha tivesse a mesma importância de um saco de arroz, ou de farinha. Atravessei a cozinha e saí para o pátio. Lá ao fundo, entre a barraca do cão e o buraco dos despejos, estava o meu quarto.
O meu marido estava na tropa, só vinha a casa no fim-de-semana. Pus a alcofa na cama e o bebé começou a chorar. Sentei-me com as mãos no colo, e chorei junto com ele. Lembrei-me de todo o tempo durante o qual eu já suspeitava de que estava grávida, lembrei-me dos olhares de lado que me deitavam quando ia à cozinha preparar as refeições. Lembrei-me do ar avaliador dirigido á minha barriga que não parava de crescer, apesar de eu me esforçar tanto por continuar a caber nas minhas roupas apertadas para não se notar nada. “Veio para cá, porque já estava grávida. Por isso o pai a pôs fora.” Era o que diziam. Não sabiam que ninguém me tinha posto fora. Não sabiam que na minha ideia, eu tinha dado o grande passo para a liberdade quando deixara o meu pai, lá, parado, enquanto larguei numa correria doida pela estrada que me levaria a todo o universo. 
Não sabiam, nem eles, nem ninguém, só eu, o quanto tinha sofrido quando recebi o resultado do teste de farmácia que comprovava a minha gravidez. O quanto chorei, e esperneei, o quanto pedi a algum Deus, qualquer um que fosse, que o teste estivesse enganado, que todo o mundo estivesse enganado. Tanta luta, tantos planos, tantos anos de sofrimentos contidos pela esperança de um dia poder fugir! E agora, ali estava eu. A viver por favor, numa casa aonde não era desejada, com um filho para tratar, cuidar, amar. E tudo era por culpa minha! Por não ter tido cuidado, por não ter planeado bem as coisas, por ter deitado tudo a perder como uma adolescente que afinal quase era, mas que não tinha nenhum direito de ser.
Levei muito, mas muito tempo até perceber qual tinha sido o meu maior erro. Não foi o ter engravidado, foi o ter entregado todos os meus sonhos de felicidade a outra pessoa que não eu própria. Foi o ter pensado que alguém me poderia fazer feliz e ser responsável pelo meu bem-estar, pela minha segurança, pelos meus desejos e planos. O meu maior erro foi o não ter continuado a correr pela estrada que me levaria a todo o universo, mas sozinha. Não devia ter dado as chaves da minha vida, não devia ter substituído uma prisão por outra, não devia ter largado a minha âncora na primeira praia, não devia ter encalhado no primeiro porto que me pareceu mais abrigado de tempestades.
Ninguém tinha culpa de eu me estar a sentir como se todos os meus sonhos tivessem acabado. Ninguém me tinha chamado para ali. Ninguém tinha pedido para eu fugir. Ninguém me tinha incitado a abandonar o meu pai, a minha irmã. E acima de tudo isso, o meu filho não tinha pedido para nascer.
Foi assim o verdadeiro começo da minha vida de adulta. Sentada naquele quarto miserável, com o meu filho deitado a chorar, e as minhas lágrimas a caírem teimosamente, uma após a outra, por cima das minhas mãos enlaçados no colo, e uma tristeza tão grande que não acabava mais e não cabia no peito.
Se fosse hoje, tinha pegado no bebé ao colo. Mas naquela altura, simplesmente não fui capaz.

Comentários

  1. Querida Glória,
    Fico feliz por saber que afinal, de uma maneira ou de outra, continuou a correr pela estrada. A prova disso é o que escreve. É esta a sua estrada.
    Beijinhos,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Pois, ao que tudo indica, deve mesmo ser.
    Muito obrigada por continuar a ler os meus textos, e por fazer comentários tão queridos e simpáticos!
    Beijinhos,
    Glória

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  3. Eu é que tenho de lhe agradecer, o privilégio de poder ler o que escreve. Muito obrigada.
    Beijinhos,
    Cristina

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