sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O melhor dos dois mundos

Hoje ficámos todos em casa. Menos a minha filhota, que foi para a escola, como de costume.
Embora ela me ponha a cabeça andar á roda, numa velocidade vertiginosamente proibida por lei até na auto-estrada, embora quase todos os dias maldiga a minha sorte por causa dos disparates e tropelias dela, foi tão triste ver o lugar vazio na mesa... Foi tão estranho estarmos todos e ela não!
Ficou tudo tão mais vazio sem a gritaria que ela provoca, sem as birras descomunais que por tudo e por nada acontecem quando ela está por cá!
A minha tarde está imensamente mais triste sem a vozinha dela a pedir beijinhos, abraços... Foi muito mais desconsolador poder comer o almoço até ao fim, sem ter que dividir a carne, as batatas, o café, o bocadinho de chocolate da sobremesa... 
Até o silêncio que está agora na casa, agora que o meu marido foi trabalhar e o meu outro filho está a estudar para os exames, até esse silêncio é esmagador! E pensar que desejo tantas vezes este sossego quando os meus pobres ouvidos ameaçam estourar com tanta algazarra, com tanto barulho que vai muito para além do aconselhável para o bom funcionamento dos tímpanos!...
Se ela aqui estivesse, estava a cantar, a bater palmas, a chorar ou a gritar, a morder os dedos, a saltar ao som da música da televisão, a pedir anúncios (a minha filha é a única pessoa que conheço que adora ver a publicidade), a fazer voar bonecos pelos ares... E eu estava como sempre a protestar, a pedir calma, a correr para fechar as janelas a cada grito dela mais estridente, a impor regras e limites, como dizem as terapeutas, a começar, a desistir e a recomeçar de novo, num carrossel alucinante de céu e inferno sucedendo-se um ao outro sem intervalos, sem avisos prévios, passageira num carrinho de  montanha russa com os travões avariados ...
Em dias como os de hoje, percebo bem o quanto seria impossível de aguentar a tristeza de viver sem a minha terrorista de tranças, reguila, refilona, carinhosa e ternurenta! É nesses dias em que me dou conta de que posso até querer que ela seja uma menina mais igual ás outras, mais tranquila, melhor comportada, mais equilibrada, mas nunca poderia desejar que simplesmente ela desaparecesse por artes mágicas e desse lugar a uma outra menina! 
Afinal, não são muitas as mães de meninas de treze anos que têm beijinhos das filhas a toda a hora, que ouvem mil vezes por dia "amo-te muito", que vão buscar as filhas ao portão da escola e elas vêm a correr, de braços abertos sem vergonha, sem constrangimentos!
Realmente os dias são complicados com ela! De facto a vida torna-se vezes demais num sítio muito parecido com uma prisão! Sem dúvida a minha tão querida liberdade de ir e vir, de ficar ou partir está definitivamente comprometida por causa dela! Mas o que é isso tudo, uma mão cheia de valores imprestáveis, se comparados ao calor que aquece o coração quando a minha filhota sorri, ou diz uma das frases dela mais elaboradas? De que vale ter todas as ruas do mundo para andar, todos os recantos perdidos para explorar, todos os prazeres proibidos e tentadores para experimentar, se me faltar aquela vozinha linda todos os dias: "-Mãe, posso acordar?... Mãe, quando é o almoço?... Não há anúncios para meninas?.... Quando é que são horas de vir para casa?... Gostas de mim?... Há abraços?... Queres conversas?..."
Já não falta muito tempo para ela chegar e para a minha luta pela manutenção da sanidade recomeçar de novo. Mas até lá, durante estas poucas horas que ainda faltam, sabe tão bem ter a certeza de que ela vem a caminho! E contraditoriamente, ou talvez não, é também tão bom continuar a sonhar com horizontes largos e espaços abertos! Poder continuar a desejar voar, planar, flutuar, encharcar o cabelo na água fria para refrescar! Vaguear de olhos abertos sem sair do mesmo lugar, aparentemente tão composta, tão ordeira, tão correctamente normal!
Que maravilha seria poder juntar o melhor dos dois mundos!

2 comentários:

  1. Querida Glória,
    Depois de um fim-de-semana de trabalho a 200 à hora, que bom foi poder fugir até aqui e ler os maravilhosos textos que publica. É como comer um quadradinho de chocolate que guardamos para saborear mais tarde. :)
    Também tenho uma filha de 14 anos, mas está naquela fase em que demonstrações de carinho em público são um embaraço! E eu que adoro miminhos...
    Um grande beijinho para si e para a sua doce menina de tranças,
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Que bom foi ler o seu comentário! Obrigada. Já tinha sentido a sua falta! Ainda bem que gostou dos textos.
    A sua filha de 14 anos, deve ser como o meu filho de 16... Nós também já fomos assim na idade deles. Eu, pelo menos fui. Pena que quando crescemos e começamos a ver as coisas sob outra perspectiva, ás vezes, já passou tempo demais!
    Muitos beijinhos,
    Glória

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