sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 5 de junho de 2011

O meu principe encantado


Nem sempre sou capaz de perceber e apreciar devidamente as subtilezas com que a vida me brinda. Não possuo, em tão elevado grau como seria de desejar, a faculdade, ou o dom, de saber dar valor às pequenas coisas que fazem, todas juntas, as coisas grandes da nossa existência. Sou, a maior parte das vezes, agitada e nervosa, ansiosa e sempre perdida nalgum ponto mais atrás, ou mais á frente. Afasto-me, em demasiadas ocasiões do real e embrenho-me nos sonhos, enredo-me nos devaneios, afundo-me nas ilusões e teço mil e uma teias de fantasia aonde fico a flutuar, silenciosa e inacessível, num mundo feito de imaginações e delírios.
Nessas alturas, é sempre o meu marido, companheiro querido de há mais de vinte anos, que me prende ao chão, que me desperta e sacode com cuidado, que me traz de volta a este plano da realidade, aonde decorre o grande teatro da nossa existência. É sempre ele quem me faz ver a vida da forma mais simples possível, mais fácil possível, com a menor quantidade de drama possível. È ele quem atura os meus exageros, as minhas manias, as minhas tristezas, as minhas birras ridículas, quem me apoia e ajuda, independentemente do que se estiver a passar na altura, e em todas as alturas.
Com a mesma generosidade com que experimenta, e corajosamente diz que gosta, todos os meus cozinhados, bolos e doces, mesmo quando eles estão insonsos, mal cozidos, ou encruados, com essa mesma generosidade é capaz de encontrar sempre algo de bom ou positivo nas coisas que faço. Para ele, e só aos olhos dele, continuo a mesma rapariga bonita que vinha da escola com os livros debaixo do braço, que sabia falar francês e inglês, que tinha sempre opinião a dar sobre todos os assuntos. Só ele não enxerga os meus cabelos brancos, as minhas rugas, só ele me considera sempre linda, sempre elegante, mesmo nas minhas roupas de andar por casa, mesmo quando estou despenteada, enfarinhada ou gordurosa da cozinha.
É verdade que não gosta das mesmas coisas que eu gosto, que acha que ler livros é uma perca enorme de tempo, enquanto eu, se pudesse tinha uma biblioteca do tamanho do mundo em casa. É verdade que não gosta de ver os filmes mais sérios e complicados que eu escolho, e que prefere antes assistir às histórias horripilantes, cheias de pancadaria, de murros, sopapos e pontapés. Também é uma verdade que não se pode ter com ele nenhuma conversa mais filosófica, mais subjectiva, ou mais complicada, porque é certo e sabido que ele começa logo a desconversar e a dizer graçolas aborrecidas, a contar anedotas sem graça, e pior que isso, repetidas. É uma realidade indesmentível que em dias de futebol na televisão, não consigo mudar de canal, nem durante o intervalo, porque ele quer ver tudo, de uma ponta à outra, e eu tenho que aguentar todos aqueles homens de calções, a correr de um lado para o outro, durante longos noventa minutos, arfando e bufando atrás de uma bola insignificante. Uma verdade também que não baixa a tampa da sanita, nem deixa as toalhas direitas quando lava as mãos, nem arruma as roupas quando as despe, nem, nem…
Mas é só com ele que eu tenho contado durante estes anos todos. Só ele nunca fugiu, nunca mudou de ideias, nunca se zangou, nunca desistiu. Ainda olha para mim com o mesmo amor que olhava quando tínhamos os dois todos os anos da vida pela frente e éramos jovens, bonitos e despreocupados. E apesar de todos os problemas que temos tido, apesar de todas as contrariedades, de todas as aflições, de todos os altos e baixos com que a vida nos tem brindado, apesar de tudo isso ainda continua a dizer que a melhor coisa que lhe aconteceu, foi ter-me encontrado e conhecido.
É por isso que humildemente reconheço que sou uma mulher cheia de sorte. Chego á conclusão de que, mais uma vez, os deuses me sorriram e favoreceram, quando há mais de vinte anos, puseram no meu caminho aquele rapaz de calças de bombazina brancas e camisa de ganga, com um sorriso simpático e uma atitude reservada, tão, mas tão diferente dos outros rapazes com quem eu saía.
E eu, que desde pequena sonhava com um príncipe encantado, montado num cavalo branco, que chegaria um dia à porta do meu castelo para me salvar dos gigantes e das bruxas más, consegui mesmo um príncipe da vida real. Sem cavalo, sem espada, nem armadura, mas com um coração bondoso do tamanho do mundo, e uma paciência ainda maior para me aturar, e, ainda por cima gostar de mim.

4 comentários:

  1. Querida Glória,
    E isto é o amor!!!! :)
    Beijinhos,
    Cristina

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  2. Querida Cristina,
    É verdade. Isto é que é o amor. Não é bem como líamos nos romances, quando éramos rapariguinhas, falta assim uma espécie de emoção abrasadora ou qualquer outra coisa que era para ser, "falta o romance", como dizia a personagem da Julia Roberts no Pretty Woman. Mas, na vida real, o amor deve ser mesmo assim.(A minha mãe bem dizia que ler romances demais, fazia mal à cabeça...)
    Obrigada pelo comentário. Beijinhos,
    Glória

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  3. Querida Glória,
    Desculpe-me dizer-lhe que a sua mãe não tinha razão nenhuma. :) Por vezes, só nos faz bem, andar com a cabeça no ar!
    Beijinhos,
    Cristina

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  4. Querida Cristina,
    Acho que tem toda a razão. Andar com a cabeça no ar, por vezes, deixa-nos mais leves e mais felizes. Acho que o que a minha mãe queria dizer, é que se acreditarmos em tudo o que lemos nos romances, começamos a pedir demais da vida. Por comparação com a ficção, ás vezes, a realidade sai a perder. Por exemplo, nos livros, a história acaba sempre quando os personagens principais casam, e são felizes para sempre. Na realidade, aí é que a história começa, e o "para sempre" é só enquanto dura.
    Mas lá que é muito bom acreditar em príncipes encantados, é mesmo!
    Beijinhos,
    Glória

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