sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 26 de junho de 2011

O Senhor X

A única vez em que cheguei a estar com alguém realmente um pouco mais, não me sinto bem ao chamar-lhe perigoso, ainda hoje isso me parece uma traição, direi antes alguém mais dado a praticar actos não muito aconselháveis- pronto, acho que assim fica muito melhor, afinal ele para mim nunca foi perigoso, longe disso- foi durante o tempo em que namorei o X.
Vou chamar-lhe apenas X. Afinal, ele ainda anda por aí, segundo me disseram, um pouco diferente, um pouco mudado no corpo e na alma, afinal ele tem mais dez anos do que eu, mas ainda circula pelos mesmos lugares aonde costumávamos “parar”, como se dizia naquela altura. Conhecendo-o como conheço, e presumindo que pelo menos neste aspecto, ele pouco tenha mudado, calculo que as probabilidades de ele chegar a ler este meu pequeno texto, são menos do que quase nenhumas. Mas, ainda assim, e para o caso de ele ler, porque prometeu que ia ficar sempre por perto, caso eu precisasse- outro que fez promessas que não pôde cumprir, as pessoas fazem promessas demais, comprometem-se com o futuro como se o futuro lhes pertencesse, e, pior, conseguem que, quem como eu, está sempre á espera de ter algo em que acreditar, parta do principio impossível de que tudo vai acontecer como é prometido, - por isso, como ia dizendo, prefiro não revelar o nome dele. Na realidade não andava muito longe de X. E se ele souber que ainda me lembro dele, sei que vai ficar muito feliz, mas sei também que ia detestar ter o nome assim exposto aos quatro ventos. No nosso tempo, havia uma espécie de código de honra que partilhávamos. Qualquer coisa como: “vale tudo, mas nunca se chiba um amigo”, sendo que chibar, para quem não conheça, era o calão, agora não sei se ainda é, que usávamos para dizer denunciar, delatar, entregar. Por isso, e porque não me agrada que ele pense que me chibei dele, até porque ele é uma das minhas recordações queridas, chamo-lhe X.
X era o rei, eleito popularmente e por ter bastantes provas dadas de competência, do bairro mais terrível, mais problemático e mais volátil que existia naquele tempo, já lá vão vinte e oito anos, perto do lugar aonde eu morava. A simples menção do nome dele abria portas escusas, permitia atravessar ruas proibidas em segurança, era o melhor salvo-conduto que alguém podia ter. Quando se começou a espalhar pelas ruas que eu era a nova miúda do X, deixei de ter que me preocupar com os engraçadinhos que se metiam comigo, que me diziam gracinhas parvas, que me tentavam acompanhar para a escola, para casa. Se algum atrevido desavisado se aproximava mais do que convinha, havia sempre um braço sensato por perto para retê-lo e dizer:”- Tás parvo, ou quê? Essa é a miúda do X!” Pronto, e o atrevido lá recuava, embaraçado, olhando para os lados “- Hé pá, mas eu não ia fazer nada. Só estava a falar com a garina.” E eu seguia o meu caminho, tranquila, princesa consorte do país enorme da minha juventude, balançando o andar atrevidamente, apreciando os meus vassalos pelo canto do olho e levando comigo aquela sensação tão boa que é a gente saber-se protegida e cuidada. Ando um bocado esquecida dessa sensação, mas é muito boa! Faz com que uma data de coisas valham a pena. Eu sou assim meio antiquada em certas coisas, ainda gosto que um homem tome conta de mim na rua, nas situações mais complicadas, ainda me sinto bem se encontro um ombro amigo e protector. Não me importo nada de mostrar que sou mais fraca, que tenho medo de muitas coisas, que me assusto no escuro, que às vezes me sinto tão sozinha e tão perdida que dava tudo para me sentir protegida, amada e cuidada outra vez. Há quem lhe chame falta de amor-próprio, falta de auto estima, pois não quero nem saber. Seja lá o que for que se chame, eu gosto de me sentir pequenina e ter alguém mais forte ao lado para me amparar.
Já tinha tido um amigo, o meu Carlos querido da infância, que me tinha protegido dos rufiões do pátio da escola, que me tinha ensinado que a vida pode ser muito mais bonita quando temos alguém que se interesse por nós, que nos defenda quando precisamos, com quem possamos contar em todos os momentos bons, e também nos menos bons. Mas o Carlos, naquela altura, pertencia a um outro mundo muito diferente do mundo aonde eu circulava. Era como o mundo da luz versus o mundo das sombras. Além disso o meu querido Carlos não era meu namorado, nunca foi. Sempre foi e será, o meu melhor amigo, esteja aonde estiver. E aos dezasseis, dezassete anos, namorar era para mim mais necessário do que respirar. Namorar, trocar de namorado, era o que me mostrava que era bonita, que era interessante, que conseguia fazer as pessoas gostarem de mim. Direi mesmo, e sem medo de exagerar que namorar era tudo o que eu tinha, e era tudo o que me impedia de mergulhar no mar gelado da tristeza sem fim. Talvez por isso, quando decidi que ia entrar no bom caminho da decência e do comportamento exemplar, a minha vida tenha ficado assim tão triste, tão vazia de alegria e de cor, tão vazia de tudo, e tão vazia de mim.
Passei um bom tempo, e bons tempos aliás, com o X! Espantosamente, quando estava afastado das suas “obrigações profissionais”, que eram muitas e exigiam dele uma dedicação quase exclusiva, e quando dispunha de mais tempo para estar comigo, o X era completamente diferente daquilo que as pessoas julgavam. Não era nada agressivo, nem maldoso, nem comia “criancinhas ao pequeno-almoço” como era preciso que todos acreditassem. Era um homem de vinte e seis anos, bonito, charmoso, bem-falante, capaz de ter conversas muito interessantes, preocupado com a mãe, com as irmãs, sempre disposto a emprestadar dinheiro a quem precisasse, sempre disposto a interferir em favor de alguém mais fraco. Não sei se a vida dele poderia ter sido diferente, caso tivesse tido mais oportunidades para estudar, para alargar os seus horizontes… Lembro-me que ele adorava ver os meus livros de francês e de inglês. Numa altura chegou a levar os livros para casa, “para ver se aprendo umas coisas”, como ele dizia. Sei que desde sempre tinha vivido por ali, crescido naquelas ruelas e becos escusos, acompanhado com os mais velhos e aprendido tudo “aquilo que sei na escola das ruas”. Era inteligente, carinhoso, experiente, envolvente, afectuoso, amoroso e acima de tudo, era um muro protector entre mim e as mágoas da vida.
Mas, com o passar do tempo, e naquela altura o tempo passava depressa demais, fui começando a sentir saudades da liberdade de andar pelas ruas sem ser vigiada, sem sombras a acompanharem-me para os cafés, para os centros comerciais, guarda-costas dissimulados mas mal escondidos que estavam ali para que nada me acontecesse, e porque o X tinha mandado. De uma certa forma, era como se os tentáculos dele se fechassem á minha volta e me cortassem a respiração. Comecei a sentir-me igual ao que me sentia com o meu pai. Presa, encurralada, sem opções, sem direito a ter opiniões nem a fazer escolhas. Eu sei que as intenções dele eram boas, ou egoístas, mas não o fazia por mal. Era a sua forma de cuidar de mim. Agora lembrei-me da nossa música: “Muito estranho”, uma canção romântica brasileira, aonde o cantor repetia insistentemente “cuida bem de mim”, o que nós adorávamos essa música! Era o que o X fazia. Cuidava de quem amava. Mas eu queria a minha liberdade de ir e vir de volta.
Quando terminámos o nosso namoro, a nossa relação, não sei bem como lhe chamar, quando terminámos aquilo que tínhamos, o X disse-me que apesar de não estarmos mais juntos, ele ia continuar por perto. “-Se precisares, carocha- ele chamava-me carocha, pequenina como as carochas, mas muito mais bonita, era o que ele dizia – sabes aonde me encontrar. Para ti vou estar sempre disponível. Esteja com quem eu estiver, se quiseres, sabes que estou aqui.” Esteve com muitas e muitas outras depois de mim. Muitas outras rainhas temporárias, deslumbradas com a popularidade dele, com os abraços dele, com a forma bonita que ele tinha de fazer com que qualquer mulher se sentisse nas nuvens perto dele. Procurou-me muitas vezes depois disso. Estivemos muitas vezes perto, tão perto de reatar de onde tínhamos parado. Matámos um bocadinho as saudades, divertimo-nos um bocadinho. Mas não voltou a acontecer. E o X foi desaparecendo aos poucos da minha vida. Só ficaram as saudades, as boas lembranças, os ecos dos sons, das conversas, das músicas, uma certa nostalgia e um carinho sem fim.
Ficou também a recordação boa e deliciosa do quanto é bonita a vida quando estamos felizes, porque eu fui muito feliz com ele! Da forma como até as luzes parecem brilhar mais, e as cores todas do mundo parecem mais bonitas! Ficou também a vontade de sentir de novo um braço forte fechar-se á minha volta, rodear-me, enlaçar-me, fechar-se sobre mim como um escudo protector. Uma vontade louca de mergulhar de novo no oceano profundo dos olhos de alguém e encontrar amor. Ficou a saudade de me sentir querida, protegida, cuidada e amada, como era naquele tempo em que fui a miúda do X, o rei incontestado, perigoso, marginal, e lindo, das ruas do seu bairro e, durante um tempo, do meu coração.

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