sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Palavras mágicas

Palavras são coisas mágicas…
As palavras acompanham-nos nas horas boas de felicidade, consolam-nos com cuidado nos momentos mais tristes, mostram a quem amamos como é verdadeiro o nosso amor, convidam, sugerem, insinuam, ou pelo contrário, ajudam a manter à distância quem não estamos interessados em deixar aproximar. Ajudam-nos a explicar o que queremos, de que forma queremos, até o quando, o aonde e o porquê das coisas que nos acontecem, ou das que não chegam a acontecer e ficam presas eternamente, para sempre penduradas nas suas teias brilhantes de possibilidades e ilusões.
Com palavras já construi castelos de areia nas praias mais longínquas e mais improváveis, naquelas areias, tão secas, tão áridas, tão soltas, que parece até que água nenhuma vai conseguir ajudar a moldar. Com palavras já deixei que me convencessem, que me levassem, que me seduzissem, já me permiti voar livre para longe, já sonhei acordada com mil e uns caminhos diferentes, alternativos, mágicos, perigosos, tentadores. Já fiz tantas promessas sérias e sinceras, outras menos sérias e menos sinceras. Já prometi coisas mesmo quando não tinha grande intenção de cumprir, ou mesmo quando eram coisas tão impossíveis de cumprir que não fazia mal nenhum mentir a quem me pedia para prometer.
Já usei as palavras mais lindas, mais suaves, mais quentes e mais belas que se possam pensar, ou imaginar. Já falei só por falar, já falei a cantar, cansada ou alegre, sonhadora ou triste, ensonada ou desperta. Usei palavras febris, urgentes, meigas ou afectuosas. Usei palavras que refrescam como só o faz a água fria quando escorre sobre a pele num dia quente de Verão. Outras palavras que inflamam e incendeiam, que se espalham, como uma fagulha se espalha no mato ressequido, e cresce até não ser mais uma fagulha e ficar perto de ser uma labareda selvagem e incontrolável. Palavras sossegadas que simplesmente garantem que está tudo bem, que ainda estamos por cá, que estranha e inexplicavelmente ainda não desistimos de ir continuando a pôr um pé à frente do outro em cada dia e em cada noite.
Já me disseram palavras bonitas, calmas, atenciosas, gentis, atrevidas e descaradas, bem-intencionadas, indiferentes, amorosas ou apaixonadas. Aquelas que acariciam como veludo no coração, que arrepiam a alma, que ficam presas no corpo. Aquelas que quase se sentem a chegar devagarinho e que sabem tão bem como uma canção que gostamos sempre de ouvir. As que se dizem à distância de um passo, educadamente e sem olhar nos olhos, à distância mal precisa, e tão fácil de transpor, de um abraço. Já me disseram palavras daquelas quentes e apaixonadas, que se sussurram ao ouvido, perto e beijadas de carícias. Outras que se podem dizer em voz alta, quase gritadas, quase livres de irem ao sabor do vento, aquelas que não guardam segredos nem magoam ninguém. Outras palavras que mal se dizem, que mal se percebem, mas que continuam a fazer sentido, que são quase um murmúrio junto à alma, que mesmo sem se distinguirem bem umas das outras, são logo entendidas e reconhecidas como sendo para nós.
Alicercei o meu mundo pequenino e instável em cima do efeito poderoso das palavras. Com elas me entendi e me defendi dos ataques impiedosos das outras palavras. Houve dias em que mais do que as palavras, os silêncios me fizeram boa companhia. Os silêncios cúmplices, velhos aliados, silêncios mudos mas que mesmo assim são sempre formados por palavras, porque o pensamento para ser percebido até por quem o pensa, tem que vir assim, traduzido em palavras.
Às vezes ao invés de falar, fechei apenas os olhos e sonhei acordada. Sonhei com lugares novos ou quase esquecidos. Sonhei que ainda conseguia voltar atrás e parar o avanço do mundo só com uma mão, que ainda era possível desfazer erros, enganos, faltas de coragem, acabar de dar beijos que ficaram por dar, fazer coisas que ficaram por fazer, despedir-me de pessoas de quem não me despedi. Sonhei que por muito tempo que se passasse, certas coisas e certas pessoas iriam continuar sempre na mesma, sempre lá, sempre imutavelmente à minha espera, para quando um dia eu precisasse, para quando um dia eu conseguisse finalmente voltar a casa. E até mesmo nessas alturas, quando sonhava todos esses sonhos loucos e disparatados, ainda assim era de palavras que os meus sonhos eram feitos.
Muitas ocasiões houve, e há ainda, em que pensei que o melhor a fazer era continuar calada, não reagir, não responder, não complicar. Segurar bem dentro da boca as palavras antes que elas saíssem e não me pertencessem mais, e pudessem com o seu poder irreparável, transformar, mudar, abalar a ordem normal das coisas. Mesmo calada, mesmo sem dizer nada, as palavras continuaram a sair livremente pelos meus olhos, pela minha respiração, pela falta do meu sorriso, pelo desânimo do meu rosto e pela falta de reacção do corpo e do coração.
Até nas ocasiões mais tristes e mais sozinhas em que chorar era tudo o que eu podia fazer, tudo o que me era permitido escolher, ou nas ocasiões mais felizes, mais alegres, mais despreocupadas em que uma boa gargalhada substitui tanta coisa, nas ocasiões calmas, em que não é preciso dizer nada para além do que conseguimos ouvir e assimilar com os olhos, e nas outras ocasiões em que as palavras não se proferem, sentem-se com o corpo e com a alma… Em todas essas ocasiões distintas e tão diferentes entre si como é diferente a noite do dia, ainda e sempre assim, as palavras estiveram lá, bem presentes na minha história. Fazendo-se ouvir, fazendo-se adivinhar por entre os silêncios, por entre os olhares, ou mais simplesmente por entre aqueles intervalos da vida que são preenchidos por quase nada.
Palavras são coisas mágicas… Não se recuperam, não se agarram, não se desmancham, não pertencem a nenhuma boca, não têm morada certa, são estrangeiras errantes a vagabundear livre e gostosamente por todos os países do mundo.
Como eu gosto das palavras e da magia que elas emprestam! Como eu amo as palavras quando uma delas produz o efeito desejado! Como se o mundo todo dependesse de saber escolher a palavra certa, no momento certo.
Como se eu tivesse o poder maravilhoso de conhecer qual a palavra exacta para dizer à pessoa que eu quero, mesmo quando não sei se essa pessoa percebe o que estou a dizer...

2 comentários:

  1. Como disse o Victor Hugo, "As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade."
    Saudações. Boa noite.

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  2. Olá Tiego Eduardo,
    Obrigada pelo comentário.
    Victor Hugo tinha toda a razão, as palavras são ao mesmo tempo leves e fortes, benfeitoras ou destruidoras... mas acima de tudo são simplesmente bonitas demais!
    Beijinhos e um bom dia para si,
    Glória

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