sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Parabéns, mãezinha


Era o dia 18 de Setembro de 1977.
A nossa mãe fazia anos, e desde há muitos dias que eu e a minha irmã estávamos às voltas com a confecção de uma prenda especial.
Era o primeiro acontecimento importante que passávamos fora de casa. Estávamos numa pensão a aguardar ordem de embarque para Portugal. Já tínhamos saído da nossa casa, faltavam poucos dias para sairmos da nossa terra. Não tínhamos dinheiro para comprar prendas, claro, éramos pequenas. Nem tão pouco tínhamos muito material á nossa disposição, mas tanto eu como a minha irmã, havíamos prometido a nós próprias que a nossa mãe não passaria o dia de aniversário sem ter pelo menos uma prenda para abrir. Já que não ia haver bolo de anos, nem sumos, nem almoço diferente, nem alegria, nem festa, pelo menos um embrulho para desembrulhar, a nossa mãe ia ter!
Entre recortes de revistas, desenhos coloridos, colagens de pratas de chocolate, muita fita-cola e sobras de lã, tínhamos conseguido fazer um trabalho manual bem engraçado, pelo menos era o que pensávamos quando terminámos.
Quando o nosso pai saiu para trabalhar, de manhã cedo, sem se lembrar; como era costume dele, mesmo nos tempos bons, o que diria naquelas alturas de ansiedade; de dar os parabéns, sem se lembrar sequer que dia era aquele, corremos as duas para o esconderijo da prenda, enfiada por baixo das camas. Com muitos beijinhos depositámos o nosso pobre e precioso embrulho de papel a embrulhar outro papel, no colo da nossa mãe, e preparámo-nos para a alegria dela.
Mas alegria foi a única coisa que ela não demonstrou. Para nossa surpresa e mágoa, a nossa mãe ficou furiosa, levantou-se, afastando o embrulho e dizendo: “-Vocês deviam era ter dito ao vosso pai que hoje faço anos! Vocês deviam era ter-lhe mostrado que se lembravam de mim e se importam comigo!”
Olhámos uma para a outra, atordoadas e confusas perante aquela explosão de ressentimento que não entendíamos. Não estávamos nós ali a dar-lhe parabéns? Não estávamos nós ali a dizer-lhe que gostávamos muito dela? Não lhe tínhamos feito até uma prenda com todo o amor e carinho? Isso não contava nada?
Ela saiu para a varanda, o rosto lívido de raiva, e fomos as duas, tristes e envergonhadas apanhar o que tinha sobrado do nosso presente. Um pobre papel colorido, agora amarrotado e descolado, com as pontas de lã mal aconchegadas a quererem saltar para fora do desenho. “- Não gostou…”, disse a minha irmã, “mas estava tão bonito!”. “-Ela nem quis olhar, nem quis saber! Viu logo que não podia ser grande coisa. Sabe que não podemos comprar nada.” respondi eu, enquanto abraçava a minha maninha espantada, de olhos molhados, com o papel rasgado a escorregar-lhe das mãozitas pequenas de unhas roídas.
Aquela imagem ficou guardada no meu coração até hoje. Duas meninas pequeninas, de presente estendido na mão, uma mulher amargurada a recusar a oferta. Poucas foram as vezes, depois disso, que voltei a ter a coragem necessária para dar alguma coisa a alguém e pôr nessa oferta todo o meu coração. Quando dou algo, seja o que for, calculo bem os riscos a que me vou expor. Penso se saberei lidar com a rejeição e o abandono. A minha irmã, acho que não aprendeu a lição, porque continua pela vida fora a oferecer dádivas que ninguém agradece.
Será que os adultos calculam sequer a importância dos seus gestos, quando se dirigem às crianças? Será que percebem que a escala de valores infantis é completamente diferente da das pessoas crescidas?
A nossa mãe, depois, arrependeu-se. Veio ter connosco e pediu para ver o que tínhamos feito para lhe oferecer. Mas era tarde, o presente já estava no balde do lixo, amachucado e disfarçado entre as beatas do nosso pai, e as folhas de jornal velho. Há coisas que quando se quebram, não dão para consertar de novo. Há coisas que não têm o mesmo valor para quem as vê, assim como se estivessem a ser observadas de planos diferentes. Para a nossa mãe, aquele era apenas um pobre presente de anos, dado de forma envergonhada, sem o reconhecimento da assembleia familiar. Para mim e para a minha irmã, aquele presente era tudo o que tínhamos para dar. Tínhamos posto nele todo o nosso amor e todo o nosso empenho. Que pena que ela não gostou! Como disse a minha irmã: "estava tão bonito".

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