sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Piquenique

No tempo em que a minha mãe ainda era viva, fazíamos, ela, eu e a minha irmã,  um piquenique, muito de vez em quando.
Era uma festa!  No dia anterior, já tínhamos comprado o farnel e já a minha mãe tinha andado às voltas na cozinha, para ultimar os preparativos! Normalmente levávamos frango assado, arroz, batatas fritas de pacote, melão partido ás fatias, bolo e sumo. Durante  dias a minha mãe tinha vindo a desviar sorrateiramente alguns tostões do apertado orçamento diário destinado ás compras, para se poder dar ao luxo de juntar tantas iguarias de uma só vez. Era um autêntico banquete, pelo menos para nós, que naqueles tempos complicados de recomeço de vida, tínhamos as refeições resumidas a pouco mais do que ovos e batatas, ovos e arroz!
Mas o melhor nem era tanto a comida... Aliás, acho que mesmo que levássemos pão com manteiga, a alegria ia ser a mesma! O mais engraçado, o verdadeiramente excitante era organizar tudo ás escondidas do meu pai e, durante um ou dois dias, termos uma espécie de segredo que nos unia ás três, a nós que tão desunidas e perdidas costumávamos andar umas das outras. Ele não conseguia sequer imaginar o que íamos fazer! Então, a minha mãe  disfarçava a comida  dentro de sacos, dentro de caixas de plástico e encafuava tudo no frigorífico, no armário, por detrás das outras coisas. Depois era um abrir e fechar de portas, para ver se não se notava nada, se ele não iria desconfiar... E, à noite, ao jantar, tínhamos, eu e a minha irmã de disfarçar os risos de felicidade, camuflar os olhos brilhantes de expectativa, não falar alto demais, não exagerar na pressa de ir deitar...
No dia seguinte, no dia do piquenique, mal o meu pai desaparecia na esquina, lá íamos nós num frenesim, tirar o farnel, conferir se o segredo não tinha sido descoberto, espreitar na janela a melhor altura para sairmos, sem ninguém suspeitar, porque a minha mãe tinha um pavor danado que alguma vizinha contasse ao meu pai que tínhamos saído cheias de sacos, logo cedo de manhã. Claro que ninguém ia contar nada, claro que ninguém sequer se importava ou dava conta de que estávamos ou não a sair. Afinal as pessoas tinham mais que fazer do que prestar atenção aos vizinhos esquisitos que para ali estavam, no meio das suas zaragatas, barulhos e confusões. Mas a minha mãe morria de medo e de vergonha dos berros do meu pai, dos bigodes dele a elevarem-se até ao ar num crescendo de ameaças e sobressaltos, do barulho ensurdecedor que saía pelas janelas, pelas frestas da porta e que, se ecoava como trovões lá dentro, o que faria lá fora...
Naquela altura, eu ainda estava longe de perceber que, quando fazíamos aqueles piqueniques, a minha mãe tentava mostrar-nos, a nós, e sobretudo a ela própria, que ainda habitava aquele corpo envelhecido antes do tempo, que dentro dela ainda restava alguma coisa da rapariguinha independente, voluntariosa e aventureira que tinha sido. A mesma mulher que tinha cruzado os céus, sozinha, dentro de um avião, rumo ao desconhecido, casada com um estranho, munida apenas de um sonho e de um desejo, e que ficava agora aterrorizada só em pensar que podia ser descoberta a praticar o enorme pecado de fazer um piquenique inocente com as filhas! Os estragos que a vida, a falta de coragem, o desânimo e a perca de esperança conseguem fazer numa pessoa!...
Depois fazíamos o caminho até ao parque dos piqueniques. Não era longe, não era um caminho desconhecido, mas era tão delicioso como se fosse uma novidade nunca antes experimentada! O que falávamos, e riamos,e conspirávamos deitando olhares desconfiados a toda a gente que passava, "notaram, não notaram, olharam de forma diferente, não olharam..." Chegávamos ao parque, cansadas, carregadas, ofegantes e felizes! Toca a escolher uma mesa, redonda, de pedra, com assentos feitos de troncos de árvore cortados a boa altura, "esta não, tem sol, aquela não, está suja, a outra mais acima... ou aquela lá ao fundo... pode ser esta? antes aquela ao pé da árvore...." Por entre as sombras refrescantes e apaziguadoras dos eucaliptos, dos pinheiros... No meio do doce cantar dos pássaros, do alegre esvoaçar das borboletas, do riso saudável e das conversas descontraídas das outras pessoas que nas mesas perto, faziam também os seus piqueniques. 
E corríamos, eu e a minha irmã, e brincávamos como se de repente a nossa vida fosse quase igual á das outras crianças que andavam por ali! E a nossa mãe parecia, vista de onde estávamos, quase uma mãe igual ás outras, sem gritar, sem chorar, sem praguejar! Quase bonita, quase feliz, quase esquecida da tristeza, da falta de dinheiro, dos gritos e dos berros! Era todo um mundo de  faz-de-conta tão lindo e tão triste! Porque nem mesmo naquelas alturas, eu perdia a noção de que estávamos só a fingir. Não me confundia nem me enganava, sabia bem que aquele não podia ser o nosso lugar, pelo menos não durante muito tempo, sabia que aquela realidade simples, leve, solta, não era a nossa realidade. Comíamos as três devagar, a esticar ao máximo o tempo, como se o tempo fosse um tesouro precioso que precisava de ser descoberto sem pressas, sem atropelos. Acabávamos a refeição entre risadas e conversas simples, cantigas e jogos de adivinhas. Passávamos as mãos pela água fresca do chafariz, ficávamos ainda por ali mais um tempo. "Não se afastem, não falem com desconhecidos, não saiam de onde eu as possa ver, não caiam, não arranjem confusões, portem-se bem, toma conta da tua irmã, puxa as meias para cima..." E lá íamos as duas, eu e a minha irmã, jogar ás escondidas, ás apanhadas, ás corridas, até serem horas de juntar os nossos pertences e voltar.
A zona das merendas era no fundo do parque. O parque era grande, ainda hoje o acho grande, apesar de já terem passado mais de trinta anos desde os nossos piqueniques, e quando voltávamos faltava ainda fazer a outra parte da brincadeira. De repente era como se nos tivéssemos perdido, nenhuma de nós parecia capaz de se lembrar do caminho para  o portão. Entrávamos numa rua, saíamos na outra logo a seguir, subíamos as ladeiras, desciamos e contornávamos os caminhos cheios de árvores, vegetação, recantos mais escuros, canteiros de flores. "Acho que é por aqui, já aqui passámos ainda agora, vamos ver naquela rua, não me parece que seja esta, podemos perguntar a alguém, não me estou a lembrar de passar aqui..." Era tão bom! Era tão simplesmente bom! No fim de muitas voltas e reviravoltas, lá a minha mãe "descobria por acaso" o nosso caminho e íamos ter, com muita pena, ao portão de ferro, que se abria para a rua. Rua essa que nos levaria até a casa. Lá na nossa caverna, a vida tal como ela era, esperava-nos de novo.
Em quatro anos a minha mãe estava morta. Em cinco anos, já eu fazia o mesmo caminho de dantes, o mesmo caminho para o parque dos piqueniques. Só que sem mãe, sem irmã, sem sacos carregados de manjares escondidos. No meio de uma turba ruidosa de amigos, com um qualquer namorado pendurado do braço, envolvida em nuvens de fumo, música aos berros, sem soquetes bem dobradas pelo ortelho, sem fitas no cabelo, sem avisos para me portar bem. Sem aventura, nem mistério. Só com a mesma esperança de alegria, com a mesma vontade de rir e ser feliz, com a mesma doce tentação de, pelo menos por uns momentos, fingir que era uma rapariga igual ás outras.
Ainda não parei de brincar ao faz-de-conta. Desde aquele tempo que, fiquei com o hábito de, de vez em quando fazer piqueniques. Piqueniques em parques imaginários, por entre árvores que não existem, escutando o cantar de pássaros que não estão lá. Correndo sem sair do meu lugar, na ilusão insana de que nesse mundo de sonho, talvez possa encontrar de novo aquelas duas meninas que riam e aquela mãe, quase bonita, quase igual ás outras mães, que ria junto com elas. E quem sabe, talvez possa recomeçar a partir dali... Quem sabe possa esquecer para sempre o caminho de volta para o portão, prender cada uma delas num abraço apertado, enchê-las de beijos e levá-las no coração, todas três, todas juntas, todas amigas, todas finalmente felizes...

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