sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pirata

Conheci o Pirata num dos intervalos para respirar, que fazia de vez em quando, entre uma coisa e outra, ente o ir e vir das marés mansas, ás vezes,  bravas, quase sempre bravas, da juventude.
Assim que pousei os olhos nele, decidi que não me ia escapar. Era uns anitos mais velho do que eu, como eu preferia, porque nunca gostei de namorar rapazes da minha idade, muito criançolas, como nós dizíamos então. Era moreno, olhos pretos e cabelos lisos escuros, até a pele era de um delicioso cor de mel, de um tom bonito e eternamente bronzeado, como algumas pessoas têm a sorte de ter. Não era muito alto, mas era bem constituído, entroncado  e robusto. O Pirata não era propriamente um rapaz bonito, mas tinha aquela tal coisa especial, capaz de me pôr o coração a bater mais rápido, quando se aproximava. Havia algum pormenor secreto e encantador na forma como ele olhava, com os olhos pretos semi-cerrados, qualquer convite picante na forma como sorria, a boca entreaberta, trocista ou sedutora, que nos deixava na dúvida se estaria a rir para nós, ou de nós... Até a  maneira como ele se movia, devagar, com movimentos dengosos, felinos, elásticos, era uma tentação de se ver! Os seus abraços, os seus beijos, envolventes, quentes, bons... Enfim, todo ele, calmo, paciente, concentrado, generoso em dar e receber, era uma festa para os sentidos!
Não estive propriamente enamorada do Pirata, apaixonada, é mais o termo. Andámos juntos umas duas semanas rápidas e deliciosas. Não tínhamos muito em comum, nem muitos assuntos que pudessem interessar aos dois. Por isso perdíamos pouco tempo a falar, até porque o meu interesse nele, não era própriamente a nível intelectual. Descobri que não é preciso amar perdidamente uma pessoa para nos sentirmos bem com ela, e descobri que o nosso corpo é bem menos complicado do que a nossa cabeça. Aceita de bom grado tudo o que lhe é agradável, ao contrário dos nossos miolos que teimam em complicar, baralhar e reduzir tudo o que é bonito a esquemas matemáticos e calculistas, para depois nos devolver algo que era apetitoso, transformado num caco imprestável e inerte.
O Pirata foi uma das pessoas mais agradáveis que me aconteceram na vida. Não exigiu mais do que lhe queria dar, não pediu compromissos, não insistiu em alianças, em algemas, não me aborreceu com relações de exclusividade e, quando chegou a altura do adeus, não rastejou antes de ir embora. Tudo o que recebeu, deu de volta em igual medida. Correspondeu exactamente bem á minha filosofia de vida de então, em que nada era mais lógico do que conhecer alguém, ficar com esse alguém enquanto fosse bom, e depois, voltar à procura incessante de algo mais que ainda devia estar para vir.
Se me lembrei hoje dele, ou melhor, se me lembrei hoje mais dele, é porque de vez em quando, me vem uma saudade doida daqueles tempos e daqueles momentos, simples, passageiros, sem obrigações, sem regras, sem freios. Tive muitos mais namorados antes dele, muitos outros depois dele, mas nenhum me deixou a mesma sensação de paz. Na sua maioria eram peganhentos, aborrecidos, insistentes, difíceis de afastar, não tinham muito amor próprio e não estavam nada habituados a que fosse a rapariga a terminar o namoro e a voltar-lhes as costas. Não sei bem o que todos eles procuravam, ou o que julgavam ter encontrado, ou o pouco valor a que se davam, mas sei que em nenhuma das outras vezes me senti tão maravilhosamente bem como com o Pirata. Desde o principio até ao fim.
Como era bom se a vida pudesse ser sempre como foi quando estava com ele! Se a vida pudesse simplesmente ser generosa, descomplicada, uma troca honesta entre dar e receber, sem cobrar nada, sem pedir nada, sem prometer nada, sem ficar a dever nada, sem guardar créditos para levantar depois.
Daquela vez estive perto, muito perto... Mas ainda assim, e apesar do bom que foi, faltava qualquer coisa mais, qualquer não sei bem o quê... Qualquer coisa que faça a união perfeita entre os dois mundos, o mundo dos sonhos e o mundo dos sentidos, o mundo simples dos desejos e o mundo complexo dos sentimentos. Qualquer coisa, que muito possivelmente nem sequer existe por aí, ou que se existe, está muito bem, mas mesmo muito bem escondida.

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