sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Porque eu mereço!

Sempre soube que a paixão não dura para sempre. Muitas amizades também não se estendem até ao fim da vida. Mas acredito que o amor possa ser eterno.
Na minha forma de ver as coisas, o amor é uma mistura saudável de paixão, amizade e companheirismo. Quando o tempo passa, e os anos se estendem preguiçosamente sobre qualquer relação, quase sempre, é certo que a paixão acaba. Acaba aquele desejo louco, tão bom e ardente, tão delicioso, aquele arrepio que percorre o corpo todo a um pequeno toque, a uma simples carícia! Termina aquela vontade inexplicável de estar com a outra pessoa, a urgência infundada de ver, telefonar, escrever para quem amamos. Nessas alturas, acabam as relações que vivem apenas dos sentidos, da vibração da paixão passageira e subsistem as outras. Subsistem as relações assentes e baseadas na amizade, na troca de ideias em comum, no gosto de fazer coisas novas ou coisas antigas, nos planos simples ou mais complicados, nos objectivos, nas esperanças…
Acho possível manter uma relação com outra pessoa, tendo o companheirismo e a amizade profunda, a estima e o respeito, como principais elementos dessa mesma relação. Chamo a isso o tipo de amor mais comum. Não o género de amor com o qual eu sonhava em jovem, que eu procurava de abraço em abraço, de beijo em beijo, sofregamente, desesperadamente, mas se calhar o amor possível para a maioria dos casais. Sou muito bem capaz de aceitar que assim seja, era muito bem capaz de viver com isso para o resto da vida.
Mas também penso que mulher alguma consegue amar um homem a quem não admire. Por quem não nutra algum tipo de encantamento, de especial dedicação e carinho. É muito difícil continuar a amar alguém com quem já não se gosta de fazer nada, nem as coisas mais simples, mais triviais, como acordar bem cedo e ver o sol a nascer, admirar-se com um arco-íris lindo a brincar no céu num dia cinzento, maravilhar-se com a lua muito redonda e branca num céu carregadinho de mil estrelas a piscar. É difícil continuar a amar alguém com quem já não se ria da vida, das desilusões, dos contratempos, das piadas repetidas e sem graça, alguém com quem já não se tenha vontade de fazer planos para mais logo, para amanhã ou para daqui a dez anos. Custa muito ter que continuar a amar alguém com quem já não se consiga festejar, fazer almoços especiais, piqueniques no chão da sala de jantar, carregar a mesa para o quintal e almoçar fora, ir de madrugada à praia quando ainda não está ninguém só para ter a praia inteirinha para nós. E pior ainda que todas estas dificuldades, é impossível continuar a amar alguém com quem já não se possa contar para chorar quando estamos tristes ou perdidos, alguém que já não queira saber do que sonhamos, sentimos ou desejamos. Alguém que tenha a infernal habilidade de transformar todos e quaisquer momentos dos dias e das noites em lutas constantes, em mágoas e recriminações, em deveres e obrigações. Não se consegue amar, respeitar e admirar uma pessoa que aos pouquinhos se vai tornando num completo estranho, num invasor desconhecido que partilha a nossa cama, noite após noite, que se acaba por transformar por fim, numa simples pessoa qualquer.
Por muita boa vontade que haja, por muitos bons propósitos que se tenham formado com esforço, empenho e dedicação, chega uma altura em que simplesmente se sente que já não dá para aguentar nem mais um dia desses dias sem vida. Tem forçosamente que acontecer o momento em que nos perguntamos o que estamos a fazer connosco próprios. Que caminho estamos a percorrer e aonde vai dar? Questionamo-nos sobre se somos nós ainda a andar, ou se é apenas o nosso corpo a ser arrastado, pelo caudal impetuoso de um rio do qual não se sabe o destino? Sim, porque, e isso aprendi eu, nem todos os rios vão dar ao mar. Alguns rios sucumbem pelo caminho, fracos, secos, asfixiados pela falta de chuva, esgotados de forças pelos terrenos sedentos por onde correm.
“- É o que acontece com toda a gente…”, já me disseram. ”- Porque é que contigo ia ser diferente?” Não acredito que aconteça com toda a gente! Olho para as pessoas que se cruzam comigo nas ruas, e muitas delas têm um semblante despreocupado, tranquilo, feliz. É impossível que dentro das quatro paredes das suas casas, passem por toda essa tristeza, por todo esse dissabor e consigam ficar assim, impávidos, indiferentes, continuando simplesmente a existir! E mesmo que seja verdade, mesmo que seja o que acontece com toda a gente, não é o que eu quero que me aconteça a mim, para o resto de tempo que ainda me falta viver.
Não é que eu me ache diferente, nem tenha a pretensão de ser melhor do que os outros, como a minha irmã de vez em quando gosta de me dizer, não é nada isso! Nem é também porque considere que sou, de alguma forma, especial e distinta de toda a multidão apática que se arrasta num oceano cinzento de desinteresse. É que eu, por qualquer anomalia de fabrico, por qualquer defeito genético, qualquer influência hereditária talvez, quem sabe, se por culpa dos genes desvairados e loucos do meu pai, ou dos genes angustiados e deprimidos da minha mãe, eu, como ia dizendo, ainda quero ser feliz!
Não apenas por momentos separados e soltos, como diz uma amiga minha. Momentos são pouca coisa num universo tão grande e sem fim! Um momento pode ser um minuto, uma hora… Eu quero encontrar a chave misteriosa da fechadura que tranca os tais momentos felizes, e os divide em compartimentos estanques. Quero ser capaz de os esticar e unir, prolongar e fazer durar até que se confundam todos os momentos num só momento. Um grande e eterno momento para lá do relógio, para lá do calendário. Um momento bonito, quente, gostoso! Um momento mágico com luzes brilhantes iguais às luzinhas de mil cores que penduramos na árvore de Natal, com estrelas cintilantes como diamantes a tremeluzir no aveludado do céu! Um momento repleto de luares lânguidos, praias quentes com um areal imenso e palmeiras molhadas de mar, e campos macios e verdes cheios de flores lindas, flores como amores, fáceis, simples, abandonadas á beleza única de viver selvaticamente! Um momento que tenha mil alegrias loucas, mil prazeres para desfrutar devagar e sem pressa de nada, nem de coisa nenhuma, que tenha mil e um beijos calmos ou escaldantes, carícias mais atrevidas ou mais inocentes, abraços saborosos e promissores! Um momento grande, enorme, repleto de batidas mais fortes do coração e de muito, muito amor!
O tal amor que para mim, deve ser feito de paixão, amizade e companheirismo. O tal amor que hei-de um dia encontrar. E porquê eu? Porque eu simplesmente sei que mereço. Nem valia a pena continuar a viver num mundo aonde não fosse possível encontrar, e viver, um amor assim.

2 comentários:

  1. Que linda forma de escrever. Um autêntico laudo ao amor e uma confissão dissimulada de uma vida desiludida e deslustrada, onde o brilho dos jogos de sedução perdeu o seu fulgor e a busca de momentos de intensidade se faz sentir com mais maturidade, onde o desejo se mistura à necessidade e se dilui num imaginário traiçoeiro que deixa, por um lado alguns rastos de esperança, mas por outro um sentimento de fragilidade que a invade a despeito de si mesma mas que tem a vantagem de transmitir segurança e paz interior. A amiga Glória vive num mundo em três dimensões: um passado onde o sofrimento da sua infância é patente nas suas palavras, um certo receio dum futuro que se revela incerto, inconstante e ambíguo, e um presente que não consegue impor-se e sulcar através de um coração destroçado e magoado, através de feridas ensanguentadas que ainda teimam em se manifestar silenciosamente e que a impedem de viver plenamente o único presente que a natureza lhe outorga - o presente. Mas continue a sorrir Glória, os outros não vão seguramente perceber o sofrimento nele estampado mas eu percebi logo no primeiro sorriso que vi no faceboo. Um beijinho e um abraço muito apertado do amigo Henrique Martires

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  2. Olá Henrique,
    Obrigada pelo seu comentário. Fico muito feliz em saber que gostou do meu texto!
    Pois, é como diz, é preciso apreciar mais e melhor o presente. Afinal é tudo o que temos, não é verdade?
    Vou fazer como o Henrique sugere, vou continuar a sorrir. Talvez um destes dias, o meu sorriso fique mais feliz. Quem sabe?
    Sem dúvida nenhuma o seu comentário foi uma grande ajuda para me fazer sorrir um pouco mais, pelo menos neste dia. Um dia de cada vez...
    Muitos beijinhos para si,
    Glória

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