sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 25 de junho de 2011

Porto de abrigo

“Águas verde-esmeralda ou azul-turquesa …pequena enseada com um pequeno porto de abrigo…” Tão maravilhosamente encantador, não é? Era sobre uma praia bonita. Li há uns dias, no mural de um amigo.
E porque eu sou bem rápida em imaginar coisas, mas não faço por mal, sou mesmo assim, comecei logo a imaginar as águas calmas ou revoltas do mar, cheiinhas de mil reflexos brilhantes, a dançarem, a bailarem ritmadamente ao sol. As ondas a mudarem de cor alternadamente, conforme se agitam ou descansam. Ora azul-turquesa, ora verde-esmeralda… sempre como pedras preciosas de valor eterno, porque tudo o que é precioso tem valor eterno, e sempre belas e selvagens, porque não se pode ser verdadeiramente belo, se não se for um pouco selvagem. Deve ser possível ficar horas assim, olhando simplesmente para tanta beleza, sentindo um arrepio na pele perante a imensidão do mar aberto e da maravilha que é poder só olhá-lo e deixar-se ficar! Não é preciso esforço para apreciar o que é bonito, nem é preciso ser poeta ou visionário. A beleza, quando é assim tanta, imensa e avassaladora, entra-nos apenas pela alma dentro, mesmo sem termos necessidade de fazer nada por isso. A beleza da natureza é grátis e é generosa. Dá-se simplesmente, e quem a vê, simplesmente também a toma e guarda no coração. Não se vangloria depois, não faz alarde da sua conquista, apenas dá e recebe, numa atitude cavalheiresca de respeito para com tudo o que se dá de graça, e para com tudo o que faz a nossa vida mais bonita e gostosa.
Mas a minha parte preferida, na citação sobre a praia, foi aquela do “pequeno porto de abrigo”. Andar pelo mar revolto, com os olhos na costa escarpada e irregular, sempre em busca de um local para atracar, sempre na esperança de encontrar um porto de abrigo, tem sido a história da minha vida. Desde menina pequena até hoje, continuo à procura, continuo a vigiar a costa, com os meus óculos de andar no mar, com a minha mão cansada a fazer sombra sobre os olhos. Como se fosse um espírito sem descanso, uma daquelas almas penadas, etéreas e transparentes, que enchem as histórias de fadas e duendes. Como se personificasse um daqueles vultos irreais que habitam as montanhas nebulosas da Escócia, numa das histórias misteriosas que eu gosto de ler.
Um porto de abrigo, um porto seguro, um sítio para descansar depois das tempestades. Cheguei mesmo a contar este pensamento à minha irmã; a minha irmã que adora deitar baldes de água fria nos meus sonhos e nos meus pensamentos, com uma precisão cortante que muitas vezes eu preciso de sentir; e ela perguntou-me a rir:”-É. E quanto tempo é que ias aguentar nesse teu porto de abrigo?” Pois, não sei. Talvez uma hora só, para descansar o corpo e secar as roupas molhadas da viagem. Talvez meses, talvez anos. Talvez me acostumasse a viver em terra e ganhasse aversão ao mar. Talvez passasse a amar mais a tranquilidade da terra firme, e me desgostasse dos perigos sedutores e das tentações que encerram as águas revoltas. Porque até o marinheiro mais embrutecido e narcotizado pelo cheiro louco do oceano, precisa um dia de descansar e pendurar a rede num qualquer lugar, num qualquer porto seguro de uma qualquer praia.
As pessoas gostam de complicar a vida, e a vida vai-se deixando moldar como um boneco mole sem vontade própria, nas mãos de quem a complica. Gostam de fazer planos, marcar datas, fazer previsões antecipadas. Sofrem pelo que já passou e não podem mudar, sofrem pelo que têm medo que vá acontecer num futuro ao qual nem sabem se chegam. Para quê saber quanto tempo ia ficar no meu pequeno porto de abrigo? Para quê estragar a alegria da chegada, depois de tanto tempo à procura, em buscas infrutíferas, pensando qual a hora de ir embora de novo?
Já fiz muitos planos, marquei datas que eram para ser para sempre, fiz bolinhas à volta dos dias, e das semanas compridas e arrastadas do calendário triste da minha vida. Também já acreditei que o que não tem futuro daqui a dez, vinte anos, então não tem direito a ter presente. Medi os sentimentos, pesei-os, avaliei-os como se fosse uma funcionária exigente de uma qualquer companhia de seguros, que precisa de saber qual o risco de segurar certa e determinada pessoa. Tomei todas as decisões direitinhas, honestas e correctas que eram para tomar. Deixei toda a gente à minha volta encantada com o meu modo acertado de pensar, com o meu raciocínio exacto e previdente. Desfiz as dúvidas todas de quem não me queria dar crédito, de quem achava que eu não ia ser capaz, só porque um dia, lá muito atrás, gostei de sonhar, de ser feliz, de correr sem limites, livre de correntes ou coleiras, sem ser marcada a ferro por ninguém. E mesmo assim, nada deu certo. Apesar das previsões, dos riscos calculados, dos planeamentos ajuizados, apesar de me ter sufocado em vida durante anos e anos, nada foi como era para ter sido.
Então não consigo perceber qual a necessidade que as pessoas têm de, mesmo depois de reconhecido o fracasso do empreendimento, insistirem na manutenção dos mesmos caminhos, das mesmas escolhas. Eu sou contra o prolongamento do sofrimento, só porque existe menos de um por cento de chance de que talvez um dia, talvez e apenas talvez, as coisas ainda se possam recompor e entrar de novo nos carris. Por mim, acabaram-se os dias de fazer grandes planos, de calcular e planificar tudo, de reduzir o tempo que me resta de vida a uma folha de cálculos impiedosa e desinteressante.
Agora, o que eu gostaria mesmo, era de olhar a costa rochosa e escarpada, a costa inacessível que se retrai e defende, como se cada viajante cansado fosse um invasor bárbaro de outros tempos, e conseguir vislumbrar uma reentrância, uma falha nos rochedos, um pequeno porto de abrigo. Uma pequena praia quente, saborosa, acolhedora, bonita, aonde eu pudesse descansar. Aonde me pudesse deitar na areia e ficar ali, simplesmente perdida na beleza de contemplar o mar imenso e selvagem, perdida no gosto bom dos salpicos de espuma das ondas.
E sem ninguém que me perguntasse por quanto tempo ia ficar, sem ninguém que me pendurasse um calendário na árvore mais próxima, e me fizesse usar um relógio no braço.Sem ninguém que me perguntasse quem eu sou e de aonde venho, nem quisesse saber o meu nome nem a minha história. Que não me fizesse perguntas, que não me julgasse, nem formulasse juízos, nem lesse sentenças, e nem proferisse condenações.
Talvez com alguma pessoa que me tomasse apenas e simplesmente, como se tomam as ofertas generosas e desinteressadas. Sem se vangloriar depois, sem fazer alarde da sua conquista, sem precisar de ser poeta ou visionário. Alguma pessoa assim como eu, que amasse o que é belo e o que é bonito, só porque é belo e é bonito. Sem planos, sem amanhãs, sem as indiferenças que vêm depois de, sem o que está para vir. Talvez alguém que fosse capaz de dar e receber, apenas e de graça. Numa relação cavalheiresca de respeito para com tudo aquilo que faz a nossa vida mais bela e mais gostosa.
Apenas duas pessoas numa praia qualquer, de um país qualquer neste mundo imenso que é o nosso, e aonde temos o privilégio de viver.

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