sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Próxima paragem

Próxima paragem: uma praia linda, preguiçosa e tranquila, sol gostoso vindo de todos os lados, céu intensamente azul, areia solta e leve, e mar, muito mar! Uma espreguiçadeira bem longa e confortável, desdobrada num convite mudo, um convite descarado e impossível de recusar, um guarda-sol encarnado com riscas amarelas, uma mesinha branca e pequena, um copo alto de refresco vermelho com pedras de gelo cristalinas a flutuarem e uma palhinha para beber, dois ou três bons livros pousados displicentemente sobre a mesa, uns óculos de sol e um chapéu largo de palha debruado por uma fita bonita de pano cor-de-rosa…
Lá ao fundo, um barco a passar, devagar, ao sabor do vento vagabundo, sem pressa de coisa nenhuma, sem motor ligado e sem velas desfraldadas. Em cima, gaivotas a voar calmamente, num procurar natural, primitivo e descansado. O barulho ritmado do mar como uma orquestra feita só do rufar de tambores distantes, num eterno ir e vir, com as ondas cansadas a encostarem docemente na areia escaldante e molhada. O tempo sem valor nem importância a passar devagar, muito devagarinho. Sem urgência de nada, nem lugar algum para onde ir, nem hora marcada para chegar, nem minuto certo para partir, nem ninguém a quem encontrar e ninguém de quem se despedir.
Só mar, céu, sol e areia. Só sentir o calor a morder a pele devagarinho, com cuidado, com gentileza, como se tivesse medo de magoar. Só sentir o aveludado do vento a deslizar por entre os cabelos, a secar as últimas gotas de água do corpo molhado, a refrescar sem fazer frio, a acariciar o mundo inteiro num só sopro constante e delicioso. Só estar, ficar, saborear e deixar ser, deixar que aconteça o que é para acontecer, mesmo que o que aconteça seja nada, e esse nada não vá dar a lugar nenhum.
E quando o dia começasse a chegar ao seu fim, poder ver as cores quentes e gostosas do pôr-do-sol reflectidas no imenso espelho cintilante das águas. Poder dar as boas vindas á noite que se aproxima, e poder abrir os braços à Lua para trocar de abraço, mudar de amante e deixar o sol descansar, recobrar o fôlego até ao dia seguinte.
Tão bom que poderia ser parar para descansar, num sítio assim! Não por um número certo de dias bem contados e calculados, não por umas férias com prazo adiantado para terminar, mas durante todo o tempo do mundo em que apetecesse lá ficar. Um ano, dois, quem sabe cinco, dez anos? Ou então nem tanto, uma semana, duas… E não ter mais desejo nenhum, não querer mais nada, não precisar sequer de coisa alguma, para além de todo aquele universo mágico e intocado, repleto de beleza e de paz!
Não precisar de deixar de lado, em altura nenhuma, o poder de partir, a liberdade de ficar. Ficar porque estar era o escolhido, o preferido no momento, ou partir porque apetecia seguir caminho, prosseguir a viagem. Partir sem levar bagagem, partir como chegara, de mãos vazias, cabeça descoberta e nariz erguido, num desafio imenso a todas as forças complicadas que regem o universo. Partir sem arrependimentos, nem remorsos, nem data marcada para regressar um dia. Partir apenas com a lembrança dos bons momentos, com o sabor dos beijos escaldantes do sol, e das caricias ousadas do vento ainda presentes no corpo saciado e no coração sossegado dentro do aconchego do peito. Partir com as contas acertadas, sem nada dever, sem nada cobrar.
Apanhar de novo o comboio na linha da aventura, e embarcar. Escolher um lugar ao pé da janela, bem acomodada e confortável, e espreitar lá para fora. Escolher com calma, sem pressa, confiada só na intuição e na vontade, qual a próxima paragem para sair. Qual a próxima paragem para ir de novo, mais uma vez, ao encontro da felicidade.

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